sexta-feira, abril 4, 2025
HomeNotíciasBrasilFavela no Pará recebe esgoto e entulho de obras da COP30

Favela no Pará recebe esgoto e entulho de obras da COP30

Quem chega à comunidade da Vila da Barca, em Belém, pela Rua Professor Nelson Ribeiro, encontra um cenário de caos: obras em andamento, fluxo constante de caminhões pesados e estradas deterioradas. O acúmulo de água da chuva e as poças de lama dificultam a mobilidade dos moradores, especialmente idosos, crianças e pessoas com deficiência.

A Vila da Barca é considerada uma das maiores favelas de palafitas da América Latina, abrigando mais de 7 mil habitantes. As casas, construídas sobre estacas de madeira, estão situadas em territórios alagados, evidenciando a precariedade das condições de vida. Em contraste, a poucos metros dali, está o bairro Reduto, na Avenida Visconde de Souza Franco, onde apartamentos de luxo chegam a custar R$ 13 milhões.

A comunidade será uma das principais impactadas pela COP30, a Conferência do Clima da ONU, que ocorrerá em novembro deste ano em Belém. Como parte dos preparativos, a Visconde de Souza Franco recebe as obras da Nova Doca, projeto do Governo do Estado com investimento de R$ 310 milhões. O plano prevê a despoluição da água do canal, melhorias na drenagem, substituição de comportas para controle da maré e instalação de tubulação para fornecimento de água potável. Também já foram iniciadas as obras do novo Sistema de Esgotamento Sanitário da Doca.

Enquanto as reformas avançam, os moradores da Vila da Barca sofrem com as consequências. Casas permanecem com portas e janelas fechadas para evitar a poeira que se espalha pelo ar, causando problemas respiratórios e irritações na pele. O acúmulo de umidade e entulhos também favorece a proliferação de ratos e insetos.

Além disso, a comunidade se tornou um ponto de despejo dos resíduos da Nova Doca. Caminhões identificados com a logo do Governo do Pará descarregam lama, entulhos e restos de obra em um terreno aberto cercado por moradias. O fluxo intenso desses veículos tem causado danos na pista de bloquete, que não foi projetada para suportar caminhões pesados, prejudicando a mobilidade da população.

A situação da Vila da Barca se agrava pela falta de infraestrutura básica. A comunidade não possui sistema de esgoto tratado e, ironicamente, será o destino final do esgoto da Doca. O Censo 2022 do IBGE revelou que Belém é a capital mais favelizada do Brasil, com 57% de sua população vivendo em favelas. A Vila da Barca faz parte da Bacia do Una-Telégrafo, a quarta maior favela da cidade, com 24 mil habitantes.

A enfermeira Socorro Lobato, de 61 anos, mora em frente ao terreno utilizado para despejo dos entulhos. Ela relata os problemas de saúde enfrentados pela população devido à poeira e aos resíduos das obras. “As crianças vivem gripadas e com doenças de pele. Agora nossa preocupação é que o inverno favoreça a proliferação de mosquitos e doenças como a dengue. A gente tem que ficar alerta e se proteger como puder”, afirma.

- Continua após a publicidade -spot_img
spot_img
Últimas notícias
- Continua após a publicidade -
Mais como esta

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here