Pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP realizaram um estudo inédito sobre a presença de praguicidas em águas da Bacia Amazônica, detectando 13 substâncias em concentrações consideráveis. As amostras foram coletadas em uma área de proteção ambiental na região, mais especificamente nos rios Tapajós e Amazonas, próxima à cidade de Santarém, no Pará. O estudo analisou 21 praguicidas comumente usados pelos produtores brasileiros, revelando níveis preocupantes de contaminação.
De acordo com a pesquisa, publicada na revista científica Environmental Research , o inseticida fenitrotion foi o mais detectado, com uma taxa de 78%, seguida pela cipermetrina, com 63%. Outro achado relevante foi o fipronil, um composto altamente tóxico e banido em vários países, incluindo a União Europeia, pelos seus impactos ambientais adversos, especialmente em abelhas. O fipronil foi encontrado em até 33% das amostras, superando os limites seguros de concentração. Embora 18% das amostras tenham sido consideradas “limpas”, apresentando apenas um composto testado, os pesquisadores alertam para os riscos contínuos de contaminação, especialmente em áreas habitadas pelas comunidades ribeirinhas da Amazônia.
Gabriel Neves Cezarette, responsável pelo estudo, destaca que, embora as concentrações protegidas não representem riscos imediatos para o consumo de água pela população local, os efeitos a longo prazo ainda são incertos, especialmente para grupos vulneráveis como crianças, gestantes e idosos. Além disso, o estudo recentemente apenas uma fonte de exposição, a água, sem avaliar a ingestão de alimentos contaminados, o que pode aumentar ainda mais o risco para a saúde humana.
A utilização intensiva de praguicidas na agricultura é uma característica global, sendo o Brasil um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. Em 2021, o país utilizou 719,5 milhões de toneladas de pesticidas, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura). Esse uso não prejudica apenas a saúde humana, mas também causa danos à biodiversidade, ao contaminar solos, rios e lençóis freáticos. No caso da região Norte do Brasil, os principais produtos agrícolas são a soja e o milho, cujos pesticidas podem ser transportados por grandes distâncias, chegando aos rios da Amazônia por meio de escoamento agrícola.
Marília Cristina Oliveira Souza, professora e orientadora do estudo, aponta que os rios da região amazônica estão se tornando depósitos dessas substâncias, com potencial para gerar reações adversárias tanto para o meio ambiente quanto para as populações que dependem da água dessas bacias. Uma pesquisa também revelou que, devido à alta resistência à manipulação dos pesticidas, esses compostos podem ser bioacumulares e biomagnificarem a cadeia alimentar, afetando a fauna e a flora locais.
A polêmica em torno do uso de pesticidas é crescente, pois, embora esses produtos aumentem a produtividade agrícola, seus impactos negativos são irrefutáveis. O fipronil, por exemplo, pode prejudicar a exportação de produtos tratados com substâncias proibidas, afetando diretamente a economia agrícola.
Em contrapartida ao uso de pesticidas sintéticos, os bioinsumos, produtos de origem biológica, surgem como alternativas mais sustentáveis. A Lei 15.070, sancionada em dezembro de 2024, regulamenta a produção e uso de bioinsumos no Brasil, com a proposta de reduzir os impactos ambientais da agricultura. Gabriel Cezarette alerta, porém, que, mesmo sendo naturais, esses produtos também podem apresentar efeitos tóxicos, e, por isso, é essencial monitorá-los rigorosamente.
Uma pesquisa da FCFRP destaca a necessidade urgente de compensar o modelo agrícola no Brasil, buscando alternativas que preservem o meio ambiente e a saúde humana. Os bioinsumos podem representar uma solução mais equilibrada, permitindo que o Brasil mantenha sua posição de liderança no setor agrícola, ao mesmo tempo em que adotam práticas mais ecológicas e sustentáveis