
Em meio à denúncias na área da saúde e ao crescimento no índice de desmatamento, a Prefeitura de Apuí, no sul do Amazonas, vai gastar mais de meio milhão de reais na contratação de atrações artísticas para a 36ª Exposição Agropecuária de Apuí (Expoap/2025).
Os contratos, firmados sem licitação sob a justificativa de “inexigibilidade”, somam R$ 514 mil e foram assinados pelo prefeito Antônio Marcos Maciel Fernandes, conhecido como Marquinhos Macil (MDB). A reportagem é do portal O Convergente.
As informações constam em publicações na edição desta sexta-feira, 11, no Diário Oficial dos Municípios do Amazonas (DOM-AM). O maior cachê é da dupla Cleber & Cauan, contratada por R$ 295 mil. Outros artistas e valores também foram divulgados nos despachos oficiais. Veja as atrações:
Ayala & Júlio César – R$ 50 mil (LP Produções Artísticas LTDA)
Marcos Brasil Filho – R$ 36 mil (MBF Eventos LTDA)
Wanderley Andrade – R$ 70 mil (JWA Lopes – ME)
Joaninha (Piloto de motocross freestyle) – R$ 63 mil (Gilmar Pereira Flores LTDA – ME)
Uma das curiosidades da programação é a participação do piloto Joaninha, referência nacional no motocross freestyle. Natural de Sinop (MT), a 500 km de Cuiabá, Joaninha é conhecido por participar de competições e eventos em todo o Brasil, realizando diversas manobras radicais.
Vale lembrar que o evento ocorre entre os dias 4, 5, 6 e 7 de setembro de 2025, conforme divulgação da Prefeitura de Apuí nas redes sociais.
Veja também: Prefeitura de Apuí entra na mira do TCE por supostas irregularidades em pregão da Saúde
Gastos altos em meio a denúncias graves
A divulgação dos gastos ocorre em meio a denúncias aceitas pelo Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) contra a prefeitura. Uma delas envolve supostas irregularidades na saúde pública de Apuí, segundo representação, admitida no fim de maio, que questiona o Pregão Presencial nº 014/2025 e aponta falhas como:
Ausência de médicos 24 horas nas unidades
Contratação de profissionais sem comprovação de especialidade (RQE)
Descumprimento de cotas para pessoas com deficiência (PcD) e indígenas
Possível superfaturamento e fraudes em contratações públicas
Conforme mostrou O Convergente, a conselheira Yara Lins, presidente do TCE-AM, já determinou o andamento do processo, que está sob responsabilidade do conselheiro Luiz Henrique Pereira Mendes.
Campeão do desmatamento
Além dos escândalos administrativos, Apuí ocupa o topo de uma lista preocupante: é o município que mais desmatou a floresta amazônica nos últimos 12 meses, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Foram 19 mil hectares de floresta derrubados — o equivalente a 26 mil campos de futebol.
Veja também: Município de Apuí tem recorde de desmatamento e R$ 173 milhões em multas são aplicados
Em operação recente, o Ibama aplicou R$ 173 milhões em multas no município e embargou 28 mil hectares, com ordens para retirada de rebanhos criados ilegalmente em áreas protegidas. As infrações incluem:
Desmatamento em áreas de preservação
Grilagem de terras públicas
Descumprimento de embargos
Impedimento da regeneração da vegetação nativa
As ações já estão sob análise do Ministério Público Federal (MPF), que poderá mover processos judiciais contra os responsáveis.
Estatísticas
A decisão da Prefeitura de Apuí de gastar mais de R$ 500 mil em shows também chama atenção diante dos indicadores educacionais e econômicos do município. Conforme dados Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2023, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) de Apúi foi de 4,4 nos anos iniciais e 4,2 nos anos finais do ensino fundamental da rede pública.
No ranking estadual, mostra o IBGE, essas notas colocaram o município de Apuí nas posições 38 e 30 (de 62). Já no ranking nacional, a cidade ficou nas posições 5.022 e 4.071 (de 5.570), ou seja, entre os piores desempenhos do país.
Apuí também possui dependência externa e baixa geração de renda local, ainda de acordo com o IBGE. Em 2024, 92,22% das receitas do município vieram de fontes externas, como repasses estaduais e federais. Isso significa que a maior parte do orçamento não vem de arrecadação própria (impostos municipais), mas sim de transferências.
Outro lado
A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Apuí para comentar os gastos com shows, os indicadores sociais e as denúncias em andamento, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.
Confira os despachos:
Por: Bruno Pacheco
Ilustração: Gabriel Torres
Revisão Jurídica: Letícia Barbosa
Fonte: O Convergente



