Por Erima Lima
Você se lembra da última vez que usou um orelhão?
Talvez nem lembre… Mas por décadas, ele foi o ponto de encontro das vozes. No meio da praça, na beira do rio, na frente da bodega. Um símbolo azul, robusto, que parecia uma cápsula do tempo e de alguma forma, era mesmo.
Antes que os celulares tomassem os nossos bolsos e nos conectassem ao mundo em segundos, foi o orelhão que nos ensinou a esperar, a ouvir, a falar com o coração. Em muitos lugares do interior do Amazonas, ele era mais do que um aparelho: era a ponte com o mundo.
Mas a história começa bem antes.
No auge do ciclo da borracha, ainda no século XIX, o Amazonas foi pioneiro: instalou sua primeira linha de telégrafo, conectando Manaus aos centros de poder do país. Em meio à floresta densa, fios de cobre carregavam segredos, notícias, ordens militares, mensagens de saudade e de esperança. Foi ali que começou o milagre da comunicação elétrica por aqui.
Décadas depois, o telégrafo virou voz. E a voz encontrou abrigo no orelhão.
Quem viveu no interior sabe: ele era a salvação em emergências, a emoção de ouvir o filho estudando na capital, o recado urgente passado de boca em boca até alguém chegar correndo e gritar: “É pra ti no orelhão!”
Hoje, ele desapareceu. Silencioso. Alguns ainda resistem, enferrujados, mudos, esquecidos. Mas em quem viveu, ele ainda fala.
Este é um convite: volte com a memória. Lembra da ficha caindo? Do eco da voz no casco azul? Do nervosismo antes do “alô”? Volte. Porque lembrar também é resistir à pressa do tempo e reconhecer que foi ali, sob o som metálico de um telefone público, que começamos a entender o valor da presença, mesmo à distância.
Quem é Érica Lima?
Érica Lima é mestre em Saúde, Sociedade e Endemias na Amazônia (Fiocruz Amazônia/UFAM), jornalista com registro profissional (DRT), apresentadora do Debate Político em parceria com a Rede Onda Digital (canal 8.2), diretora-executiva do portal O Convergente e escritora associada à AJEB/AM.
Mais do que títulos, carrega a missão de comunicar onde o silêncio impera nos rincões de uma Amazônia muitas vezes tratada como margem, mas que é centro de vida, de luta e de saber. Atua onde a estrada não chega, construindo pontes entre dados e vozes, entre o invisível e o essencial. Fomenta o protagonismo de mulheres que, mesmo sem diplomas, são catedráticas da vida e estrategistas na arte de viver.
Com expertise em pesquisa qualitativa eleitoral, desvela percepções, desvenda territórios simbólicos e transforma escutas em leitura crítica do presente político.
Insiste em caminhar entre rios, narrativas e resistências, acreditando que a política, quando atravessada pela escuta e pela palavra, é também poesia que transforma realidades.


