A Controladoria-Geral da União (CGU) e a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS aprofundam as investigações sobre o esquema que ficou conhecido como a “farra dos aposentados”, que teria desviado recursos e manipulado convênios com o Instituto Nacional do Seguro Social. A apuração revelou conexões entre lideranças religiosas, donos de empresas de fachada e dirigentes de entidades de classe beneficiadas por repasses públicos.
Documentos obtidos por órgãos de controle mostram que uma associação nacional voltada ao atendimento de aposentados e pensionistas — atualmente sob investigação da CGU — tem entre seus fundadores líderes religiosos que também administram igrejas evangélicas no Distrito Federal. Um deles chegou a assinar, em 2023, um acordo de cooperação com o INSS, o que garantiu acesso direto a informações de beneficiários e facilitou a atuação da entidade junto a aposentados em todo o país.
Paralelamente, a CPMI do INSS aprovou, em setembro, requerimentos para convocar integrantes da associação a depor no Senado e autorizou a quebra de sigilos bancário e fiscal de um dos principais dirigentes, suspeito de envolvimento na articulação do convênio.
Empresas ligadas a igrejas e endereços sobrepostos
As investigações apontam que templos religiosos e empresas privadas de pessoas ligadas à associação funcionam em endereços idênticos no entorno de Brasília — um indício de sobreposição de atividades e possível uso de empresas de fachada.
Uma das líderes religiosas envolvidas é responsável por um templo evangélico localizado no Recanto das Emas, região administrativa a cerca de 30 quilômetros do centro da capital. No mesmo endereço, constam diversos CNPJs registrados em seu nome, abrangendo desde serviços de segurança e publicidade até locação de veículos e apoio à agricultura.
Os registros empresariais também revelam coincidências com empreendimentos ligados a um contador de uma confederação nacional de produtores rurais, entidade já investigada por suspeita de fraudes em convênios com o INSS. Uma das companhias desse contador, inclusive, está formalmente registrada no mesmo local em que funciona a igreja da pastora.
Uma terceira pessoa citada pela CPMI, assessor de um dos dirigentes da confederação rural, aparece como sócio de duas empresas sem identificação comercial na fachada do prédio onde estariam instaladas — o que reforça as suspeitas de que se tratem de empresas laranja.
Durante depoimento ao colegiado, o assessor admitiu ter aberto firmas a pedido de superiores e reconheceu que recebia e repassava valores provenientes da confederação, sem saber a origem dos recursos. Segundo parlamentares, ele e a esposa movimentaram cerca de R$ 300 milhões da entidade desde 2019.
“O que estamos vendo aqui é que os sindicatos ajudam seus próprios dirigentes, familiares e laranjas. E você é um laranja, suas empresas são empresas laranja”, afirmou durante sessão a deputada Adriana Ventura (Novo-SP), ao se dirigir ao assessor.
Programa previdenciário sob suspeita
No centro das apurações está também um programa lançado por uma das entidades investigadas, que se apresenta como iniciativa de educação previdenciária voltada à orientação de beneficiários do INSS. O projeto, que promete capacitar cidadãos sobre direitos previdenciários e uso do INSS Digital, é apontado por investigadores como possível fachada para captação de dados e desvio de recursos públicos.
As investigações da CGU e da CPMI prosseguem em sigilo, mas o caso expõe um complexo esquema de conexões entre religião, política e negócios, com suspeitas que vão de lavagem de dinheiro a uso indevido de convênios públicos.
O cruzamento de dados da Receita Federal e da CGU já identificou endereço comum entre templos e empresas privadas, movimentações financeiras atípicas e contratos celebrados sem comprovação de contrapartida real.
Enquanto isso, líderes religiosos e empresários investigados negam irregularidades e afirmam que os acordos firmados com órgãos públicos visavam apenas ampliar o acesso de aposentados a informações previdenciárias.
*Com informações do Metrópoles
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