O Dia do Trabalho, celebrado neste 1º de maio, chega em 2026 marcado por um debate cada vez mais presente no Brasil: o fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua seis dias consecutivos para ter apenas um de descanso. A discussão avança no Congresso Nacional, mas ainda segue em fase de tratativas, sem definição final.
Em meio a esse cenário, a data, historicamente ligada à luta por direitos, levanta uma reflexão atual: há mais motivos para comemorar ou para reivindicar?
Para entender esse sentimento, oPortal Manaósouviu trabalhadores de diferentes áreas, que apontam uma percepção comum: o 1º de Maio ainda é, sobretudo, um dia de cobrança.
Servidor público, André Félix avalia que a data vai além da celebração simbólica: “Para mim, o Dia do Trabalho está longe de ser só comemoração. É um dia de escancarar a realidade de muita gente que trabalha muito e ainda assim não tem o básico garantido. Claro que a gente reconhece a luta de quem corre atrás todo dia, mas também é um momento de reivindicar respeito, salário digno e melhores condições. É um dia de consciência e posicionamento”, afirmou.
A empreendedora Júlia Beatriz traz um olhar a partir da própria experiência com a escala 6×1.
“Eu já vivi essa rotina e posso dizer com tranquilidade: é muito desgastante. Você trabalha praticamente a semana inteira, ganha pouco e ainda fica sem tempo pra viver”, relatou.
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Segundo ela, a mudança para o empreendedorismo trouxe não apenas melhora financeira, mas também qualidade de vida. “Hoje eu consigo ganhar mais e, principalmente, tenho tempo. Tempo pra organizar minha rotina, descansar e estar com quem eu amo”, destacou.
Já a psicóloga Eduarda Nascimento reforça o caráter reivindicatório da data, especialmente diante do debate atual. “Mais motivos para reivindicar. Ainda mais agora, com o fim da escala 6×1 em pauta. É um dia para reconhecer as lutas que já foram vencidas, mas também para cobrar as que ainda são necessárias”, disse.
Mudanças no mundo do trabalho
Para o sociólogo e doutor em História, Luiz Antonio Nascimento, o debate sobre jornada de trabalho reflete transformações profundas nas relações econômicas e sociais.
Segundo ele, o modelo tradicional de trabalho mudou significativamente ao longo das últimas décadas, especialmente com o avanço da tecnologia e novas dinâmicas produtivas. Um dos efeitos dessa transformação é a redução da participação dos salários na riqueza gerada.
Dados citados pelo pesquisador indicam que, em Manaus, a parcela da riqueza do Polo Industrial destinada aos trabalhadores caiu de cerca de 15% no início dos anos 2000 para aproximadamente 8% nos últimos anos. Para ele, essa mudança impacta diretamente a economia e a qualidade de vida da população.
“O trabalhador hoje vive uma contradição: é constantemente estimulado a consumir, mas não tem renda suficiente para sustentar esse padrão. Isso gera frustração, ansiedade e sensação de insuficiência”, explica.
Redução da jornada em debate
No centro das discussões está a possível revisão da jornada 6×1. Para especialistas, a redução do tempo de trabalho não é uma proposta inédita, mas parte de um processo histórico de conquista de direitos.
Nascimento lembra que jornadas menores já foram adotadas em setores específicos sem comprometer a atividade econômica. Segundo ele, a diminuição da carga horária pode, inclusive, gerar novos postos de trabalho e estimular a economia.
“A redução da jornada pode significar mais empregos e mais circulação de renda. Além disso, garante algo fundamental: tempo. Tempo para viver, descansar e se desenvolver”, afirma.
Ao analisar o cenário atual, o sociólogo Luiz Antonio Nascimento reforça que o debate sobre o fim da escala 6×1 está diretamente ligado a uma questão estrutural: a redistribuição do tempo e da renda no mundo do trabalho. Para ele, a redução da jornada não representa apenas um ganho individual, mas um impacto coletivo na economia e na sociedade.
“Quando você reduz a jornada, você abre espaço para novos postos de trabalho e devolve ao trabalhador algo essencial, que é o tempo. Esse tempo pode ser convertido em descanso, qualificação, convivência e até consumo, o que movimenta a economia. Não é só uma pauta trabalhista, é uma pauta de desenvolvimento”, pontua.
Mais de um século após as primeiras mobilizações por direitos trabalhistas, o 1º de Maio segue atual. Entre avanços históricos e desafios contemporâneos, a data se mantém como um espaço de reflexão sobre o presente e o futuro do trabalho.
*Com informações do O Convergente
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