A morte do menino Benício, após atendimento em um hospital de Manaus, foi resultado de uma sequência de falhas médicas e estruturais, segundo a Polícia Civil. O inquérito aponta que a criança foi vítima de um “erro médico grosseiro” e morreu em decorrência de uma “overdose de adrenalina” aplicada de forma intravenosa, quando o correto seria a administração por inalação.
Peritos que analisaram o caso afirmaram que o “quadro era irreversível” e destacaram que “não houve erros de intubação ou de qualquer conduta da equipe de UTI.” Ainda assim, além da médica responsável pela prescrição e da técnica de enfermagem que aplicou o medicamento, dois diretores do hospital foram responsabilizados pela morte.
De acordo com a investigação, Benício deu entrada na unidade com tosse seca e sem sinais de gravidade. A médica Juliana Brasil, no entanto, prescreveu adrenalina intravenosa, medicamento classificado como de alta vigilância. A prescrição não passou por conferência antes de ser executada.
A técnica de enfermagem Raiza Bentes aplicou a medicação mesmo após a mãe da criança questionar o procedimento, alertando que o filho nunca havia recebido adrenalina na veia. Minutos depois, o quadro clínico do menino se agravou.
Benício foi encaminhado à “sala vermelha” e, posteriormente, à UTI, onde morreu cerca de 14 horas após a internação.
Mensagens durante atendimento
Durante a apuração, a polícia teve acesso ao celular da médica Juliana Brasil. Conversas indicam que, enquanto acompanhava o caso, ela trocava mensagens sobre venda de cosméticos e recebia pagamentos via Pix.
“É uma prova muito forte de que ela estava totalmente indiferente em relação ao que aconteceria com Benício”, diz o delegado Marcelo Martins.
Tentativa de se eximir
O inquérito também aponta tentativa de afastamento de responsabilidade. À Justiça, a médica apresentou um vídeo alegando que o sistema eletrônico do hospital teria alterado automaticamente a forma de administração do medicamento. A perícia, no entanto, concluiu que não houve falha no sistema.
Mensagens encontradas indicam ainda que a médica teria oferecido dinheiro a uma pessoa para produzir um vídeo que sustentasse sua versão.
Diante disso, Juliana Brasil foi indiciada por homicídio doloso com dolo eventual — quando se assume o risco de matar — além de fraude processual e falsidade ideológica. A investigação também constatou que ela se apresentava como pediatra, sem possuir especialização na área.
A médica não foi presa e responderá ao processo em liberdade.
Ao Fantástico, a defesa afirmou que o sistema de prescrição apresentou problemas, que o vídeo é verdadeiro e que houve falhas na intubação. Sobre as mensagens de venda de maquiagem, o advogado declarou que, naquele momento, Benício não era mais responsabilidade da médica.
Falhas estruturais e responsabilidade da direção
A investigação também identificou problemas na estrutura do hospital. No dia do atendimento, a unidade operava com número insuficiente de enfermeiros e sem farmacêutico para conferir prescrições médicas.
Por essas falhas, os diretores foram indiciados por homicídio culposo. Para a polícia, a gestão priorizava a redução de custos para ampliar o lucro da instituição.
Em nota, o hospital informou que ainda não foi oficialmente comunicado sobre o indiciamento, declarou estar à disposição das autoridades e reafirmou compromisso com a segurança dos pacientes.
Família cobra justiça
Os pais de Benício afirmaram estar satisfeitos com o resultado da investigação e cobram punição aos responsáveis. O caso pode ir a júri popular.
“Os responsáveis precisam ser punidos pelo que aconteceu, até mesmo para que outras crianças, outras famílias não venham passar o que a gente está passando”, diz Joyce Xavier de Carvalho, mãe de Benício.
*Com informações do G1


