Em um cenário marcado por secas históricas, cheias severas, incêndios florestais, desabamentos, vazamentos químicos e ocorrências em áreas de difícil acesso, o preparo dos Corpos de Bombeiros passou a ocupar posição estratégica na política nacional de resposta a desastres. No Amazonas, estado atravessado por rios, floresta, polos industriais e municípios de difícil logística, os treinamentos recentes do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) revelam uma tentativa de adaptação a uma nova realidade: as emergências estão mais complexas, mais frequentes e exigem atuação integrada.
A pauta ganhou força no país após grandes eventos climáticos, como as enchentes no Rio Grande do Sul, a seca extrema na Amazônia e o aumento de incêndios florestais. Em 2025, o Ministério da Justiça e Segurança Pública lançou o projeto Resposta em Operações Integradas para Atuação em Situação de Desastres (RESPAD), uma força-tarefa nacional formada por bombeiros de diferentes estados, treinados e nivelados para acionamento rápido em casos de desastres ambientais e eventos extremos. A proposta foi inspirada justamente na necessidade de resposta mais coordenada após a tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul.
Além da articulação nacional, o governo federal também estruturou o Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil 2025-2035, que orienta União, estados e municípios em ações de prevenção, preparação, resposta e recuperação. O plano destaca medidas como elaboração de planos de contingência, protocolos de alerta, evacuação de áreas de risco, treinamento de equipes de campo, capacitação de voluntários e realização de simulados.
A Defesa Civil Nacional também passou a ampliar cursos de capacitação voltados a agentes estaduais, municipais e à população. Entre os conteúdos estão gerenciamento de desastres, monitoramento, alarme, resposta emergencial e plano de recuperação. O Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD) é apontado como ferramenta oficial para registro de ocorrências, reconhecimento federal de emergência ou calamidade e solicitação de recursos.
Indicadores mostram aumento da pressão sobre o sistema de resposta
Os dados nacionais reforçam a gravidade do tema. O Atlas Digital de Desastres no Brasil, mantido pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, reúne registros oficiais de desastres entre 1991 e 2024, com dados por município, tipo de desastre e impactos. A ferramenta é usada para orientar políticas públicas, priorizar investimentos e apoiar gestores, pesquisadores e jornalistas na análise de risco.
Relatório do Cemaden aponta que 2025 foi marcado por altas temperaturas e eventos climáticos extremos no Brasil, incluindo chuvas intensas, alagamentos, estiagens, secas e ondas de calor. O documento também registra que a Região Norte concentrou grande número de municípios afetados e mais de 202 mil pessoas diretamente atingidas por eventos hidrometeorológicos.
No Amazonas, os impactos aparecem de forma direta nos indicadores. Segundo o relatório do Cemaden, Manacapuru registrou o maior contingente de feridos e doentes do país em eventos climáticos de 2025, com 5.202 pessoas afetadas por inundações em junho. Beruri, também no Amazonas, teve o maior número de desabrigados, com 4.039 pessoas atingidas pelas inundações de julho.
A estiagem também entrou no radar. Em 2024, o Cemaden apontou que o Brasil enfrentou a maior seca dos últimos 70 anos em extensão e intensidade. Em setembro daquele ano, 4.748 cidades brasileiras, mais de 80% dos municípios do país, enfrentavam algum grau de seca, e parte do Amazonas apareceu entre as áreas com seca severa e extrema.
Outro indicador crítico é o fogo. Dados do MapBiomas mostram que mais de 30,8 milhões de hectares foram queimados no Brasil em 2024, aumento de 79% em relação a 2023. A Amazônia foi o bioma mais afetado, com 17,9 milhões de hectares queimados, o equivalente a 58% de toda a área queimada no país naquele ano.
Treinamentos no Amazonas miram fogo, cheia, altura, produtos perigosos e múltiplas vítimas
No Amazonas, os treinamentos recentes do CBMAM mostram foco em diferentes tipos de catástrofes e ocorrências de grande impacto. Em julho, mais de 250 militares participaram de um simulado de incêndio florestal no Parque Estadual Sumaúma, em Manaus. A atividade reproduziu as oito fases de atendimento de uma ocorrência, da detecção à desmobilização, com uso de sala de situação, imagens de satélite, equipes de combate, rescaldo e vigilância.
A corporação também realizou treinamento simulando vazamento de produto químico perigoso e desabamento parcial de prédio no Centro de Manaus. A atividade reuniu cerca de 100 militares e teve como objetivo avaliar cadetes na aplicação do sistema de comando de incidentes, gestão de recursos, organização de equipes, coordenação de ações em ambiente complexo e tomada de decisão em condições extremas. O simulado contou com participação do SAMU Manaus, Polícia Militar, IMMU e Defesa Civil do Amazonas.
A preparação para ocorrências com produtos perigosos ganhou reforço com o primeiro Curso de Operações em Produtos Perigosos do Amazonas. A formação, com 156 horas, capacita militares para atuar em emergências envolvendo substâncias químicas, explosivos, toxicologia, descontaminação, meteorologia, práticas e simulados operacionais. O curso envolve parceria com Defesa Civil, Vigilância Sanitária de Manaus, Ufam, UEA, Polícia Militar, Polícia Rodoviária Federal e empresas do setor industrial e de combustíveis.
O tema é sensível para Manaus porque o Polo Industrial concentra produtos considerados perigosos. Em treinamento específico, bombeiros usaram trajes de proteção química nível A e B e aplicaram técnicas de salvamento, isolamento, evacuação, contenção e descontaminação, com base em protocolos nacionais e internacionais de resposta a emergências químicas.
Outro eixo de preparação é o salvamento aquático. A quinta turma do Curso de Salvamento Aquático do CBMAM tem carga horária de 220 horas e prepara militares para planejamento e execução de operações em rios, lagos, piscinas, corredeiras, inundações e alagamentos.
O salvamento em altura também aparece como área estratégica. Em maio de 2026, militares simularam resgate de vítimas na Ponte Jornalista Phelippe Daou, conhecida como Ponte Rio Negro, estrutura com cerca de 70 metros de altura. A atividade integrou avaliações da terceira turma do Curso de Especialização de Salvamento em Altura.
Em Parintins, durante a preparação para o Festival de 2025, o Corpo de Bombeiros realizou simulados no Bumbódromo e no balneário Cantagalo. As ações incluíram salvamento em altura, atendimento pré-hospitalar, combate a incêndio em alegoria, evacuação de pessoas e simulação de incêndio em embarcação com vítimas de afogamento. Ao todo, 44 militares e seis viaturas participaram dos simulados.
Interiorização ainda é desafio central
A geografia do Amazonas impõe um desafio adicional: a resposta a desastres precisa chegar ao interior, onde cheias, estiagens, incêndios, acidentes fluviais e isolamento logístico afetam comunidades inteiras. Segundo o CBMAM, entre maio de 2025 e fevereiro de 2026, o número de municípios com bases permanentes da corporação mais que dobrou, passando de 11 para 23 cidades.
A expansão também ocorre por meio dos Grupamentos Integrados de Combate a Incêndio e Proteção Civil (GCIP), em parceria entre governos federal, estadual e municipais. O investimento informado é de R$ 21 milhões, via Ministério da Justiça e Segurança Pública, contemplando viaturas, equipamentos, capacitação de brigadistas e efetivo para comandar os grupamentos.
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