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Terremotos não podem ser previstos, mas riscos de tsunamis colocam América Latina em alerta permanente

Um estudo do UNFPA e da UNDRR sobre inteligência demográfica para redução de risco aponta que 19,2% da população da América Latina e do Caribe está exposta a níveis médios ou altos de ameaça sísmica

Especialistas e organismos internacionais reforçam que não há previsão meteorológica capaz de antecipar terremotos. O que existe são mapas de risco, sistemas de alerta e monitoramento em tempo real — especialmente em regiões vulneráveis como Caribe, América Central e costa do Pacífico da América do Sul.

A sequência recente de abalos sísmicos em diferentes partes do mundo reacendeu uma pergunta que costuma surgir após grandes tragédias: é possível prever terremotos e saber se catástrofes ainda maiores estão por vir?

A resposta oficial da ciência é direta: não é possível prever terremotos com data, hora, local e magnitude definidos. O Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, afirma que nenhum cientista ou instituição conseguiu prever um grande terremoto de forma comprovada. O que os pesquisadores conseguem fazer é calcular probabilidades de ocorrência em determinadas áreas ao longo de anos, com base em falhas geológicas, histórico sísmico e mapas de ameaça.

Ou seja, terremoto não é fenômeno meteorológico. Ele não depende de chuva, calor, El Niño ou mudança no tempo. Terremotos estão ligados ao movimento das placas tectônicas e à liberação brusca de energia acumulada em falhas da crosta terrestre. Já os tsunamis, embora possam ser provocados por terremotos submarinos, deslizamentos ou erupções vulcânicas, também não são “previstos” como uma chuva forte: eles são detectados e monitorados depois que um evento capaz de gerá-los acontece.

Segundo a NOAA, agência norte-americana que monitora oceanos e atmosfera, os centros de alerta de tsunami acompanham terremotos que podem gerar ondas oceânicas perigosas e utilizam estações costeiras, marégrafos e sensores em alto-mar para avaliar a ameaça e emitir avisos.

América Latina está entre as regiões mais vulneráveis

A América Latina e o Caribe aparecem como uma das áreas de maior preocupação no cenário global de desastres. O relatório regional da ONU para Redução do Risco de Desastres aponta que a região é a segunda mais propensa a desastres no mundo, com crescimento de eventos relacionados principalmente a causas hidrometeorológicas, como enchentes, secas, furacões e ondas de calor.

No caso dos terremotos e tsunamis, o risco se concentra especialmente em três grandes áreas: Caribe, América Central e costa do Pacífico da América do Sul, onde estão países como Chile, Peru, Equador, Colômbia, México, Guatemala e partes da América Central. Essas regiões estão próximas a limites de placas tectônicas, o que aumenta a chance de abalos fortes.

Dados de exposição populacional também acendem o alerta. Um estudo do UNFPA e da UNDRR sobre inteligência demográfica para redução de risco aponta que 19,2% da população da América Latina e do Caribe está exposta a níveis médios ou altos de ameaça sísmica. O mesmo levantamento mostra ainda 15,4% de exposição a ventos de furacões e 9,8% a enchentes fluviais.

Esse dado é importante porque tragédia não depende apenas da força da natureza. Um terremoto de mesma magnitude pode matar pouco em uma cidade preparada e provocar destruição em massa em uma área com alta densidade populacional, construções frágeis, encostas ocupadas, ausência de rotas de fuga e baixa capacidade de resposta pública.

Densidade populacional aumenta o risco de tragédia

Os maiores desastres acontecem quando o perigo natural encontra população vulnerável. É por isso que áreas densamente ocupadas, cidades costeiras, regiões portuárias, ilhas caribenhas, comunidades em encostas e bairros com infraestrutura precária estão mais expostos.

A base histórica da NOAA registra terremotos destrutivos desde 2150 a.C. até o presente, considerando eventos com mortes, danos relevantes, magnitude igual ou superior a 7,5, intensidade extrema ou geração de tsunami. (Cnia⁠) Já o banco global de tsunamis da NOAA reúne mais de 2.400 eventos desde 2100 a.C., com informações sobre local, altura máxima da onda, mortes, feridos, danos e pontos atingidos.

No Caribe, a Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO informa que, com base em registros históricos, a região pode esperar aproximadamente quatro tsunamis destrutivos por século. Mesmo áreas sem registros recentes não são consideradas livres de risco, pois todas as zonas costeiras do Caribe podem ser afetadas.

Vamos ter catástrofes maiores?

A ciência não permite afirmar que “tal país” sofrerá “tal terremoto” em “tal data”. Portanto, qualquer previsão fechada de catástrofe deve ser tratada com cautela.

Mas os dados oficiais permitem uma conclusão: novas catástrofes naturais vão continuar acontecendo no mundo, inclusive na América Latina. A dúvida não é se haverá novos terremotos, tsunamis, enchentes, secas ou furacões, mas quando, onde e com qual capacidade de resposta das cidades e governos.

No caso dos terremotos, não há evidência de que o mundo esteja entrando em uma fase de “previsão apocalíptica”. O que existe é uma combinação perigosa de fatores: crescimento urbano em áreas de risco, alta densidade populacional, infraestrutura envelhecida, desigualdade social, ocupação de encostas, fragilidade de moradias e demora em sistemas de alerta e evacuação.

Já os eventos climáticos extremos tendem a ampliar perdas humanas e econômicas. A própria ONU destaca que os desastres vêm aumentando na América Latina e no Caribe, sobretudo por causas hidrometeorológicas, e que a região precisa investir mais em prevenção, infraestrutura resiliente, sistemas de alerta e planejamento urbano.

O que deve ser feito

A principal resposta não é pânico, mas prevenção. Para terremotos, a prioridade é reforçar códigos de construção, fiscalizar obras, mapear falhas, treinar a população e preparar hospitais, escolas e prédios públicos. Para tsunamis, é essencial ter sirenes, rotas de fuga, sinalização costeira, educação comunitária e evacuação rápida após terremotos fortes sentidos no litoral.

A orientação internacional é clara: quando a população em área costeira sentir um terremoto forte ou prolongado, deve buscar imediatamente áreas mais altas, sem esperar apenas por alerta oficial, porque em tsunamis locais o tempo de reação pode ser de poucos minutos.

O planeta continuará sujeito a grandes eventos naturais. O que define se eles serão apenas fenômenos geológicos ou tragédias humanitárias é a capacidade de antecipar riscos, reduzir vulnerabilidades e agir antes que o desastre aconteça.

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