A Gerdau, maior produtora brasileira de aço, demitiu aproximadamente 1.500 trabalhadores no país entre janeiro e julho de 2025 e decidiu reduzir os investimentos previstos para suas operações brasileiras nos anos seguintes.
O anúncio foi feito em 1º de agosto de 2025 pelo presidente-executivo da companhia, Gustavo Werneck. Na ocasião, o dirigente atribuiu a decisão ao crescimento das importações de aço e ao que classificou como insuficiência das medidas de defesa comercial adotadas pelo governo federal.
Segundo Werneck, os investimentos que já estavam em andamento seriam concluídos, mas novos projetos passariam por reavaliação. Os cortes de pessoal ocorreram em um ambiente de maior pressão sobre as unidades brasileiras, provocado pela entrada de produtos estrangeiros, principalmente asiáticos, a preços considerados pouco competitivos pela indústria nacional.
Importações pressionaram resultados no Brasil
Os números divulgados posteriormente pela própria Gerdau confirmaram a continuidade do cenário adverso. Em 2025, as importações brasileiras chegaram a 6,4 milhões de toneladas de aço, incluindo produtos semiacabados, volume 7,4% superior ao registrado em 2024.
No segmento de aços planos, o aumento das importações alcançou 29,6%. De acordo com a companhia, o excesso de produtos no mercado pressionou preços, volumes vendidos e a rentabilidade das operações brasileiras.
A receita líquida da divisão brasileira da Gerdau caiu 1,8% em 2025, passando de R$ 30,2 bilhões para aproximadamente R$ 29,7 bilhões. O Ebitda ajustado da operação no país, indicador utilizado para medir o desempenho operacional, recuou 31,2%, de R$ 4,7 bilhões para R$ 3,2 bilhões.
O Instituto Aço Brasil também informou que o avanço das importações provocou o fechamento de cerca de 5 mil postos de trabalho em toda a indústria siderúrgica nacional e o corte de aproximadamente R$ 2,5 bilhões em investimentos durante 2025. A entidade calculou que a participação dos produtos importados chegou a 21% do consumo brasileiro, diante de uma média histórica inferior a 10%.
Plano de investimentos ficou menor em 2026
Em 2025, a Gerdau realizou investimentos globais de R$ 6,1 bilhões. Desse montante, 77% foram direcionados ao Brasil, principalmente para projetos que já estavam em execução, como a plataforma de mineração sustentável Miguel Burnier, em Minas Gerais, e a modernização da unidade de Maracanaú, no Ceará.
Para 2026, porém, a companhia aprovou um plano global de investimentos de R$ 4,7 bilhões, redução de aproximadamente 23% em comparação com o valor aplicado no ano anterior. A empresa classificou o novo patamar como uma diminuição significativa em relação aos ciclos recentes de investimentos.
A Gerdau não divulgou, nesse plano, quanto do total de 2026 será destinado especificamente às unidades brasileiras. Por isso, não é possível afirmar que toda a diferença será retirada do mercado nacional.
Reflexos para construção civil e varejo
A situação merece atenção da construção civil porque o setor está entre os principais consumidores de aço no Brasil. Produtos como vergalhões, perfis, telas, arames, pregos, tubos e estruturas metálicas estão presentes em obras residenciais, comerciais, industriais e de infraestrutura.
A própria Gerdau informou que a demanda doméstica por aço em 2025 foi sustentada principalmente pelos setores de infraestrutura e construção civil. As vendas para construtoras e para o varejo permaneceram relativamente resistentes, mesmo diante dos juros elevados e das dificuldades enfrentadas por outras áreas da indústria.
No curto prazo, a maior oferta de aço importado pode aumentar a concorrência e ajudar a conter os preços pagos por distribuidores, lojas e construtoras. Entretanto, uma eventual redução prolongada da produção e dos investimentos nacionais pode elevar a dependência de fornecedores estrangeiros.
Nesse cenário, preços e prazos de entrega ficam mais expostos à variação do dólar, aos custos de frete internacional, às decisões comerciais de outros países e a possíveis interrupções logísticas. Não há, até o momento, indicação de falta generalizada de aço ou de aumento automático dos preços para a construção civil.
Governo ampliou medidas de proteção
Depois do anúncio da Gerdau, o governo federal adotou novas medidas de defesa comercial. Em fevereiro de 2026, foram aplicados direitos antidumping sobre determinados produtos de aço plano originários da China.
Em maio, o Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior renovou a elevação tarifária para 19 produtos siderúrgicos e incluiu mais um item na lista de produtos protegidos. O mecanismo de cotas e tarifas para o período de 2026 e 2027 também passou a abranger diferentes classificações de produtos de aço.
Apesar das mudanças, representantes das siderúrgicas continuam defendendo mecanismos mais amplos para impedir práticas comerciais consideradas desleais. O governo, por outro lado, sustenta que as medidas procuram equilibrar a proteção da indústria nacional com a necessidade de evitar aumento excessivo dos custos para os setores que utilizam aço como matéria-prima.
Empresas precisam acompanhar o mercado
Para construtoras, distribuidores e lojas de materiais, o momento exige acompanhamento dos preços, dos prazos de entrega e das condições oferecidas pelos fornecedores.
A diversificação das fontes de abastecimento, a revisão periódica dos estoques e a inclusão de cláusulas de reajuste em contratos de maior duração podem ajudar a reduzir riscos.
O corte de vagas e a revisão dos investimentos da Gerdau não significam, isoladamente, uma crise de abastecimento. O episódio, porém, mostra como as disputas comerciais e as decisões tomadas pela indústria siderúrgica podem chegar aos canteiros de obras, às prateleiras das lojas e ao planejamento financeiro das empresas.


