HomeNotíciasAmazonasDo meio ambiente à segurança: o que jovens do Amazonas levam em...

Do meio ambiente à segurança: o que jovens do Amazonas levam em conta na hora de votar

Eleitores relatam descrença, falta de representatividade e preocupação com problemas do cotidiano; cientista político destaca papel das redes sociais na aproximação desse público com a política

Meio ambiente, segurança pública, infraestrutura, cultura e representatividade estão entre os fatores que influenciam a relação dos jovens amazonenses com a política às vésperas das Eleições 2026. Embora parte desse público demonstre descrença com candidatos e instituições, especialistas avaliam que os jovens seguem como um segmento relevante para as estratégias eleitorais, principalmente pelo alcance que possuem nas redes sociais.

O Amazonas conta com 2.801.182 eleitores aptos a participar das Eleições 2026, conforme dados divulgados pelo Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM).

Dentro do perfil etário, levantamentos processados a partir da base oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que 338.036 eleitores têm entre 25 e 29 anos. O número representa aproximadamente 12,1% do eleitorado do estado e coloca essa faixa como a mais numerosa individualmente no Amazonas.

Os dados fazem parte da base do eleitorado de 2026 disponibilizada pelo TSE, cuja fonte é o Sistema ELO, utilizado pela Justiça Eleitoral no gerenciamento do cadastro de eleitores.

A reportagem procurou o TRE-AM para obter o quantitativo consolidado de eleitores entre 16 e 29 anos e dados comparativos com pleitos anteriores, mas não recebeu retorno até o fechamento.

Juventude representa público estratégico

Para o cientista político Helso Ribeiro, mesmo grupos numericamente menores, como os eleitores de 16 e 17 anos, merecem atenção dos candidatos, principalmente pelo domínio das plataformas digitais.

Helso Ribeiro – Professor e Cientista Político

“Já houve eleição aqui em que o resultado foi muito apertado, e eu penso que essa galera hoje detém um conhecimento de impulsionamento pelas redes sociais que não pode ser desprezado”, afirma.

Segundo o especialista, o peso político aumenta quando outras faixas etárias da juventude são incorporadas à análise.

“Quando você aumenta esse eleitorado jovem, já tem um percentual bem maior. Eu acredito que é um excelente filão para todos os políticos numa tentativa de granjear esses votos”, avalia.

Nas eleições deste ano, jovens com 16 anos completos até o primeiro turno poderão votar caso estejam regularmente inscritos. Para quem tem 16 ou 17 anos, o voto é facultativo. A obrigatoriedade passa a valer a partir dos 18 anos, conforme as regras eleitorais.

Descrença não significa ausência das urnas

A relação dos jovens com o voto, no entanto, nem sempre é marcada por entusiasmo.

O estagiário Thiago, de 19 anos, afirma que pretende comparecer às urnas, mas diz que sua decisão está mais ligada à obrigatoriedade do que à confiança no processo político.

“Vou votar sim, mas não posso dizer que é por vontade própria. É mais porque sou obrigado mesmo. Todo ano é a mesma história: eles prometem mundos e fundos, a gente vai lá, marca o número e depois continua tudo igual”, diz.

Mesmo desacreditado, ele relata que a percepção da família sobre a importância do voto ainda exerce influência.

“Minha avó sempre diz que ‘votar é o pouco que o pobre tem’. Então eu vou, mesmo desacreditado. Quem sabe um dia muda alguma coisa.”

Na avaliação de Helso Ribeiro, parte desse afastamento pode estar relacionada à maneira tradicional como partidos e candidatos se comunicam.

“O discurso político tradicional muitas vezes é enfadonho para os jovens. Quanto mais partidos e candidatos falam de temas concernentes à juventude, como cultura e lazer, mais conseguem atrair”, explica.

Problemas do dia a dia entram na decisão

Entre os jovens ouvidos pela reportagem, os temas considerados prioritários variam de acordo com experiências pessoais e profissionais.

Para Jéssica, de 22 anos, universitária de Biologia, a proteção da Amazônia ocupa lugar central na escolha eleitoral.

“O que me aproxima da política é a Amazônia, sem dúvida. Quando vejo um candidato falando sério sobre queimadas, garimpo ilegal e desmatamento, isso me prende na hora. É a minha vida, meu futuro, tudo isso está em jogo”, afirma.

Ela também critica disputas partidárias que, em sua avaliação, deixam problemas concretos em segundo plano.

“Também me afasta essa politicagem de briga de partido, de um xingando o outro, porque enquanto eles se batem, a floresta está pegando fogo.”

Já para Ruan, de 21 anos, motoboy, segurança pública e infraestrutura são determinantes.

“Para mim é muito claro: segurança e asfalto. Eu sou motoboy, passo o dia inteiro na rua. Se a violência está alta, corro risco de ser assaltado, de perder a moto, que é meu instrumento de trabalho”, afirma.

Ele diz esperar propostas objetivas dos candidatos.

“Não adianta vir com discurso bonito. Eu quero propostas, quero saber como vão colocar polícia na rua e tapar os buracos. É isso que decide meu voto.”

Helso Ribeiro afirma que temas ligados ao cotidiano e à identidade dos jovens podem ajudar candidatos a criar maior conexão com esse eleitorado.

“Esporte também atrai muitos jovens. E aí tem as questões culturais, artísticas e os movimentos de jovens”, observa.

Representatividade permanece como desafio

A sensação de não se enxergar nos candidatos também aparece entre as reclamações.

A artesã Camila, de 20 anos, afirma que acompanha política, mas encontra dificuldade para se sentir representada.

“Sinceramente, muito pouco. É difícil se sentir representada quando você olha para os candidatos e não vê ninguém parecido com você”, relata.

Camila destaca especialmente a falta de valorização da cultura como atividade econômica.

“Eles falam de turismo, mas não dão estrutura. Falam de cultura, mas cortam verba. Falta representatividade de verdade, com gente que entenda que a cultura não é enfeite, é sustento”, afirma.

Redes sociais ampliam alcance político

Além dos temas que influenciam o voto, as plataformas digitais ocupam espaço central na forma como a juventude recebe, compartilha e debate informações políticas.

Para Helso Ribeiro, rádio e televisão continuam relevantes, mas as redes sociais alteraram de maneira significativa a comunicação eleitoral.

“Nós não podemos preterir os meios tradicionais. Rádio e televisão ainda têm uma grande abrangência, mas as redes sociais, de fato, são uma nova realidade, e ninguém melhor do que o público jovem para dominar essa seara”, afirma.

O cientista político acredita que candidatos e partidos devem intensificar a atuação nesse ambiente ao longo da campanha.

“Eu penso que partidos políticos e candidatos vão tentar aprofundar esse trabalho, contratando pessoas para atuar nesse filão que, num primeiro momento, pega os eleitores mais jovens, mas vai se espraiando para outros nichos do eleitorado”, conclui.

📲 Fique por dentro das notícias de Manaus e do Amazonas em tempo real. Acesse o canal do Portal Manaós no WhatsApp e acompanhe tudo pelo zap.

- Continua após a publicidade -spot_img
spot_img
Últimas notícias
- Continua após a publicidade -
Mais como esta

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here