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Sem tripé e sem “publis”: restaurantes endurecem regras para influenciadores

Casos registrados em Londres, Espanha e Estados Unidos colocam em debate os limites entre divulgação nas redes sociais, privacidade dos clientes e funcionamento dos estabelecimentos

Depois de anos em que restaurantes, bares e outros negócios enxergaram os influenciadores digitais como aliados importantes na divulgação de marcas e produtos, parte do setor começa a estabelecer limites para a produção de conteúdo dentro dos estabelecimentos. Em 2026, episódios na Europa e nos Estados Unidos ampliaram a discussão sobre até onde vai o direito de gravar e quando a criação de conteúdo passa a interferir na experiência dos demais clientes.

Tripés, malas, iluminação, sessões prolongadas de fotos, gravações em áreas comuns e pedidos de refeições gratuitas em troca de publicações estão entre os principais pontos de reclamação. Em vez de uma proibição generalizada de quem trabalha com redes sociais, porém, muitos estabelecimentos vêm optando por estabelecer regras sobre como o conteúdo pode ser produzido dentro dos espaços.

Restaurante de Londres virou cenário para ensaios

Um dos casos de maior repercussão ocorreu em Londres. O restaurateur britânico Jeremy King, responsável pelo The Park, em Bayswater, relatou que o estabelecimento passou a receber clientes que, segundo ele, pareciam procurar o restaurante principalmente para produzir fotografias de moda e conteúdos para as redes sociais.

King contou que alguns clientes chegavam com malas e tripés, pediam pouca comida e deixavam as mesas por longos períodos para fotografar. O empresário afirmou ainda que os banheiros do restaurante passaram a ganhar popularidade no TikTok, aumentando a procura de pessoas interessadas em utilizá-los como cenário.

O episódio que levou o empresário a endurecer as regras envolveu, segundo seu relato, um grupo de dez mulheres, entre influenciadoras e acompanhantes, que teria bloqueado o acesso aos banheiros e transformado a área em camarim, levando inclusive um sistema de som. Na mesma noite, outro casal chegou ao restaurante com uma mala e um tripé e teve a entrada recusada.

Depois dos episódios, o The Park instalou avisos, atualizou as informações no site e reforçou a segurança para deixar claro que aquele tipo de produção audiovisual não seria permitido. King, no entanto, fez uma distinção: disse que não pretende proibir celulares nem banir influenciadores simplesmente por serem influenciadores, mas exige que as regras do restaurante e a privacidade de funcionários e clientes sejam respeitadas.

Debate chega à Justiça e ao direito de admissão na Espanha

Na Espanha, o assunto passou também para o campo jurídico. Estabelecimentos começaram a divulgar posições contrárias a determinadas práticas de criadores de conteúdo, enquanto especialistas passaram a discutir até onde pode ir o chamado direito de admissão.

Entre os casos está o Pastifizzio, em Valladolid, que anunciou antes mesmo da inauguração que não pretende oferecer refeições em troca de reels, stories ou avaliações. O restaurante afirmou que poderá trabalhar com criadores em campanhas previamente acertadas e identificadas como publicidade, mas não pretende trocar comida por avaliações.

A discussão jurídica, entretanto, apresenta uma diferença importante entre proibir uma pessoa por ser influenciadora e regular o comportamento dentro do estabelecimento.

Especialistas em direito ouvidos pelo jornal espanhol El País sustentam que barrar alguém simplesmente por pertencer à categoria de influenciadores é juridicamente problemático. Por outro lado, restaurantes podem estabelecer regras previamente divulgadas contra tripés, focos, equipamentos ou condutas que prejudiquem o atendimento e incomodem outros clientes.

A exposição involuntária de terceiros também entrou na discussão. Segundo a análise jurídica publicada pelo jornal espanhol, imagens de pessoas identificáveis envolvem direitos de imagem e proteção de dados, especialmente quando o conteúdo produzido possui finalidade profissional ou econômica. A recomendação aos criadores é evitar enquadrar terceiros sem consentimento e consultar previamente o estabelecimento sobre as regras para gravação.

Placa “No Influencers” viraliza nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, uma pequena placa ajudou a levar o debate para além dos restaurantes.

A Four Winds Craft Guild, tradicional comércio de arte, artesanato e antiguidades em Nantucket, Massachusetts, colocou na entrada uma placa de madeira com a mensagem “No Influencers”, em tradução livre, “Sem influenciadores”. A imagem foi publicada nas redes sociais e provocou uma discussão sobre os limites impostos a criadores de conteúdo em estabelecimentos privados.

A influenciadora e empresária Paige Paul criticou a mensagem, argumentando que o setor de criação de conteúdo abriu oportunidades de empreendedorismo, especialmente para mulheres. Outros internautas questionaram por que o estabelecimento não adotou simplesmente uma regra proibindo fotografias ou filmagens.

Do outro lado, os responsáveis pelo comércio disseram que a discussão não estava direcionada a uma pessoa específica, mas ao comportamento de visitantes que gravam a si próprios e outras pessoas dentro de lojas e pelas ruas da ilha.

Influenciadores ainda são ferramenta de divulgação

A reação dos estabelecimentos não significa, porém, o fim da relação entre gastronomia e criadores digitais.

Restaurantes continuam utilizando influenciadores para alcançar novos públicos, especialmente consumidores mais jovens. Nos Estados Unidos, profissionais do setor ouvidos pelo Washington Post relataram que as parcerias estão cada vez mais profissionalizadas, com definição antecipada do que o estabelecimento oferece e do conteúdo que será entregue pelo criador.

O proprietário do restaurante Francie, de Nova York, por exemplo, afirmou receber entre três e cinco solicitações por semana de influenciadores interessados em publicar sobre o estabelecimento em troca de refeição ou pagamento. A maioria é recusada, enquanto as parcerias selecionadas são previamente combinadas.

Há também exemplos do impacto positivo dessa divulgação. O influenciador gastronômico Ricky Ly relatou que uma publicação espontânea sobre uma pequena padaria filipina ultrapassou 400 mil visualizações em diferentes plataformas e ajudou o estabelecimento a esgotar os produtos.

O cenário, portanto, aponta menos para um rompimento e mais para uma mudança de regras. Se antes a exposição nas redes era frequentemente recebida como publicidade bem-vinda, estabelecimentos começam a separar o cliente que registra a própria experiência de produções capazes de transformar salões, escadas e banheiros em estúdios improvisados.

No centro da discussão estão dois interesses que não necessariamente precisam ser incompatíveis: de um lado, o alcance e a capacidade de divulgação dos criadores digitais; de outro, o direito dos estabelecimentos de preservar o funcionamento do negócio e a experiência e a privacidade de quem está ali apenas para comer, beber ou aproveitar o ambiente.

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