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O voto que pode fazer diferença: a força eleitoral da Região Norte nas eleições de 2026

O crescimento do eleitorado nortista foi de aproximadamente 4,4% desde a última eleição geral, acima da expansão nacional, que ficou em 1,4%

A Região Norte chega às Eleições 2026 com 13,1 milhões de eleitores aptos a votar, segundo os dados consolidados da Justiça Eleitoral. O número representa cerca de 8,3% do eleitorado brasileiro, estimado em 158,8 milhões de pessoas, e coloca a região entre as que mais ampliaram seu colégio eleitoral desde 2022.

O crescimento do eleitorado nortista foi de aproximadamente 4,4% desde a última eleição geral, acima da expansão nacional, que ficou em torno de 1,4%. Entre os estados da região, Roraima apresentou o maior crescimento proporcional do país, enquanto o Pará concentra o maior número absoluto de eleitores.

Neste recorte, Amazonas, Pará, Acre e Roraima somam juntos 10,08 milhões de eleitores, o equivalente a cerca de 77% de todo o eleitorado da Região Norte. E ainda que, a principio, 8,3% desse eleitorado possa parecer pouco, a proporção é muito mais e bem mais significante quando falamos de eleições.

A reportagem do O Convergente ouviu dois especialistas que ajudaram a compreender como a região Norte é forte num cenário nacional; o Cientista Político formado pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Jack Serafim, explica que, na região Norte, o eleitorado é numericamente minoritário, mas politicamente relevante.

“No segundo turno presidencial de 2022, a diferença nacional entre Lula e Bolsonaro foi de aproximadamente 2,14 milhões de votos. O eleitorado nortista é mais de seis vezes maior que aquela diferença. Portanto, o Norte dificilmente decide sozinho uma eleição presidencial, mas pode decidir uma eleição equilibrada” explicou.

O especialista lembrou ainda que, historicamente, candidatos a presidência, que vencem no Amazonas e Minas Gerais, vencem a eleição em nível nacional. “Vamos ver se 2026 mantém esta tradição”, declarou.

Jack Serafim – Jack Serafim. Cientista Político. Formado pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA)

Já o professor e pesquisador, sócio na Action Pesquisas, Afrânio Soares, reforça a importância do voto do Norte, também citando os resultados de 2022, onde o presidente Lula (PT), venceu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

“A última eleição presidencial foi ganha por uma diferença de pouco mais de dois milhões de votos. Se não fosse o voto nortista, o presidente Lula não teria, a meu ver, conseguido conquistar a vitória”, reflete Afrânio.

Pará concentra quase metade dos votos da região

Com 6.265.355 eleitores aptos, o Pará é o maior colégio eleitoral do Norte e responde por aproximadamente 48% do eleitorado regional. Em relação a 2022, quando tinha 6.082.312 eleitores, o estado apresentou crescimento de cerca de 3%.

O número também coloca o Pará entre os maiores colégios eleitorais do país, representando aproximadamente 3,9% do eleitorado nacional.

A distribuição dos eleitores paraenses tem uma característica importante: a maior parte está fora da capital. O interior concentra mais de 5,2 milhões de eleitores, o que representa cerca de 83,6% do eleitorado estadual, conforme os dados apresentados.

Afranio Soares explica essa diferença citando a quantidade de municípios entre ambos. “O Pará também tem 144 municípios, enquanto o Amazonas, mesmo maior que todos os outros, tem somente 62”.

Afrânio Soares – Professor e pesquisador. Sócio na Action Pesquisas

O eleitor da Capital VS interior

A diferença do comportamento entre o eleitor da Capital e do Interior é observada em todas as eleições. O que difere esses eleitores, segundo os especialistas, é o comportamento natural entre eles. Enquanto na Capital, o eleitorado é influenciado por lideranças políticas, o interior observa as pautas que são de grande urgência para a popular.

“Nas capitais, o eleitor está mais exposto à agenda política nacional, às redes sociais, ao debate ideológico, à imprensa e aos temas nacionais. No interior, particularmente em municípios pequenos, comunidades ribeirinhas e áreas de difícil acesso, questões concretas e locais tendem a adquirir peso maior: estrada, energia, combustível, saúde, transporte, emprego, produção rural e presença efetiva do poder público”, explica Jack Serafim.

Outro fato que diferenciar esse eleitorado é a logística demográfica. No interior, as grandes distâncias e a dificuldade de acesso, principalmente em regiões como Juruá, Purus, Madeira e Solimões, fazem com que os deslocamentos sejam mais demorados e caros.

O eleitorado também apresenta diferenças entre as chamadas calhas de rios. Municípios menores tendem a acompanhar, em alguma medida, o comportamento político dos chamados municípios-âncora, que concentram maior influência regional, conforme exemplifica o pesquisador Afrânio Soares.

“Normalmente, o eleitor de uma calha, ele costuma se orientar e até se aproximar do comportamento dos eleitores do município âncora dessa calha. Por exemplo, o Alto Solimões tem Tabatinga, o Baixo Amazonas tem Parintins, o Purus tem Lábrea, o Madeira tem Manicoré, tem Borba, tem o Maitá, o Médio Solimões tem Coari, tem Terfé, enfim. Tem muitos outros municípios que não são os municípios principais, os âncoras”, diz Soares.

Ainda sobre o peso das lideranças políticas locais, no interior, o eleitor tende a ouvir mais prefeitos, vereadores, lideranças comunitárias e outras figuras com influência regional. Em Manaus, por outro lado, o eleitorado é muito maior e mais diversificado, o que torna o comportamento político mais fragmentado e menos concentrado em lideranças específicas.

Em resumo, enquanto Manaus possui um eleitorado numeroso e mais pulverizado, no interior as relações políticas são mais influenciadas pela realidade de cada região, pelas dificuldades de acesso e pela atuação das lideranças locais e dos municípios-âncora.

Esse cenário faz com que os municípios do interior tenham participação significativa na composição do eleitorado do estado, ao lado da região metropolitana de Belém.

Amazonas tem quase 2,8 milhões de eleitores

O Amazonas aparece como o segundo maior colégio eleitoral da Região Norte, com 2.801.182 eleitores aptos.

Desde 2022, o estado passou de 2.647.748 para o número atual, um crescimento de aproximadamente 5,8%, acima da média nacional e também superior à expansão registrada no Pará.

As mulheres representam 51% do eleitorado amazonense, enquanto os homens correspondem a 49%.

Outro aspecto que chama atenção é a participação dos eleitores mais jovens. Pessoas entre 16 e 24 anos representam cerca de 18% do eleitorado estadual, uma das maiores proporções do país. O dado contrasta com o movimento observado no conjunto do Brasil, onde a participação relativa dos jovens vem diminuindo diante do envelhecimento da população.

No Amazonas, Manaus concentra 1.329.733 eleitores, enquanto os demais municípios reúnem aproximadamente 1,47 milhão. A divisão mostra que, apesar da concentração populacional na capital, o interior reúne um contingente eleitoral ligeiramente maior.

Entre os maiores colégios eleitorais do interior estão Manacapuru, com 81.255 eleitores; Itacoatiara, com 76.398; Parintins, com 73.558; Coari, com 52.010; e Tefé, com 50.455.

No cenário nacional, os 2,8 milhões de eleitores do Amazonas equivalem a aproximadamente 1,8% do eleitorado brasileiro.

Acre tem o terceiro menor eleitorado do país

O Acre chega às eleições com 614.375 eleitores aptos. Em 2022, eram 588.433, o que representa um crescimento de aproximadamente 4,4%.

As mulheres também são maioria no estado, correspondendo a 51,3% do eleitorado, enquanto os homens representam 48,7%.

O perfil etário acreano está entre os mais jovens do país. Os eleitores de 16 a 24 anos representam cerca de 18% do eleitorado, percentual semelhante ao observado em Amazonas, Roraima e Amapá.

Ao mesmo tempo, o número de eleitores com mais de 60 anos vem crescendo e já corresponde a aproximadamente 13,2% do eleitorado estadual.

A capital, Rio Branco, concentra 270.350 eleitores, ou cerca de 44% do eleitorado acreano. O restante está distribuído pelos outros 21 municípios.

Depois da capital, os maiores colégios eleitorais são Cruzeiro do Sul, com 64.167 eleitores; Sena Madureira, com 30.905; Tarauacá, com 30.033; e Feijó, com 24.230.

Com pouco mais de 614 mil eleitores, o Acre representa aproximadamente 0,4% do eleitorado brasileiro.

Roraima tem o maior crescimento proporcional do Brasil

Roraima é o menor colégio eleitoral da Região Norte em números absolutos, mas apresenta um dos dados mais expressivos quando o critério é crescimento.

O estado passou a ter 401.496 eleitores aptos, um aumento de 9,63% em relação a 2022. Segundo os dados apresentados, trata-se do maior crescimento proporcional registrado entre os estados brasileiros no período.

Roraima também está entre as unidades federativas com maior participação de jovens no eleitorado. Cerca de 18% dos eleitores têm entre 16 e 24 anos, o que corresponde a aproximadamente 72,3 mil pessoas.

Por outro lado, o eleitorado com mais de 60 anos também cresceu. O contingente nessa faixa passou de 48.630 em 2022 para 62.437 eleitores em 2026.

A capital, Boa Vista, concentra a maior parcela do eleitorado estadual, enquanto os demais 14 municípios dividem o restante.

Apesar do crescimento proporcional, o peso de Roraima no eleitorado nacional continua pequeno. Os pouco mais de 401 mil eleitores representam aproximadamente 0,25% do total brasileiro.

Norte cresce mais que o restante do país

Considerando os sete estados da região, o Norte reúne 13.109.354 eleitores. O crescimento de aproximadamente 4,4% desde 2022 foi o maior entre as regiões brasileiras.

Os números mostram uma forte concentração do eleitorado regional no Pará e no Amazonas. Juntos, os dois estados somam 9,06 milhões de eleitores, cerca de 69% de todo o eleitorado do Norte.

Acre e Roraima, por outro lado, possuem colégios eleitorais menores em números absolutos, embora apresentem características demográficas próprias, como a elevada participação de jovens e, no caso de Roraima, um crescimento expressivo do número de eleitores desde 2022.

Embora o Norte se mostre um importante colégio eleitoral, a região ainda é vista com descaso em nível nacional, conforme explicam os especialista.

“Frequentemente a região norte é colocada em quinto plano é vista fragmentada, ou seja, 2% do eleitorado do país está no Amazonas, X% no Pará, Y% em Rondônia e por aí vai. Então, eu acho que merecia uma visão mais privilegiada” justifica Afrânio Soares.

Jack Serafim reforça o quanto, historicamente, o a região Norte carece de atenção.

“Com 8,26% do eleitorado, o Norte possui peso suficiente para alterar uma disputa nacional equilibrada, mas continua recebendo menos atenção das campanhas presidenciais do que os grandes centros eleitorais do Sudeste e Nordeste”, diz.

Segundo o cientista político, apesar de concentrar 8,26% do eleitorado, o Norte se concentrado em uma região com menor densidade eleitoral. “Uma viagem para uma grande cidade do Sudeste permite alcançar presencialmente e pela mídia um número enorme de eleitores”, explica.

Ao mesmo tempo, Jack Serafim reflete que existe um paradoxo eleitoral: em disputas apertadas, os votos do Norte podem ser decisivos. O crescimento do eleitorado da região reforça esse potencial. Entre 2022 e 2026, o número de eleitores brasileiros aumentou 1,46%, enquanto o Norte cresceu 4,37%, quase três vezes mais. Assim, embora ainda receba menos atenção proporcional, a região vem aumentando seu peso estratégico nas eleições nacionais.

Mulheres são maioria e eleitorado envelhece

Além da distribuição entre os estados, o perfil do eleitorado brasileiro também apresenta mudanças demográficas que podem marcar as eleições de 2026.

As mulheres são maioria entre os eleitores brasileiros, com 83,8 milhões, contra aproximadamente 74,8 milhões de homens.

Outro movimento é o envelhecimento do eleitorado. O Brasil possui cerca de 36,8 milhões de eleitores com mais de 60 anos, enquanto a faixa de 16 a 24 anos reúne aproximadamente 19,2 milhões.

Segundo os dados apresentados, o eleitorado jovem encolheu cerca de 22% nos últimos 16 anos, enquanto o número de eleitores idosos cresceu de maneira significativa.

No Norte, porém, alguns estados mantêm uma proporção de jovens superior à observada no conjunto nacional. Amazonas, Acre e Roraima estão entre as unidades federativas onde os eleitores de 16 a 24 anos representam aproximadamente 18% do eleitorado.

Biometria supera 80% no país

Outro dado do cadastro eleitoral é a expansão da identificação biométrica. Mais de 80% dos eleitores brasileiros já possuem os dados biométricos registrados na Justiça Eleitoral.

Entre os estados analisados, o Acre apresenta uma das maiores coberturas, com 94,54% do eleitorado cadastrado biometricamente. No Amazonas, a cobertura ultrapassa 85%, enquanto todos os municípios do Pará contam com identificação biométrica.

Os percentuais específicos podem variar entre os estados e municípios conforme a situação cadastral dos eleitores.

O acesso a internet facilitando as campanhas no interior

O acesso à internet ajuda a reduzir as dificuldades de fazer campanha no interior do Amazonas, onde as grandes distâncias e a falta de estradas tornam os deslocamentos caros e demorados. Redes sociais, WhatsApp e vídeos curtos permitem que candidatos alcancem eleitores sem precisar estar fisicamente em cada município, diminuindo parcialmente o impacto do isolamento geográfico, conforme exemplifica Afrânio Soares.

“A intenet é uma das formas de comunicação que ultrapassa essas limitações geográficas. São as redes sociais, que estão presentes aí em tudo que é lugar, em todos os municípios desses estados e do resto do país também. E é assim que o candidato vai conseguir chegar até o eleitor de uma forma menos presencial e mais online?” explica o pesquisador.

Mesmo assim, a internet não substitui totalmente a presença local. Como a conectividade ainda é desigual, principalmente nas áreas rurais, rádio, televisão, lideranças comunitárias e políticas e visitas presenciais continuam importantes.

Com isso, as campanhas no interior do Amazonas acabam combinando ferramentas digitais com estruturas tradicionais de comunicação e mobilização.

O que os números mostram

Os dados do eleitorado não indicam, por si só, o resultado das eleições, mas ajudam a dimensionar o tamanho dos colégios eleitorais e a distribuição dos votos pelo território.

No Norte, a principal característica é a concentração do eleitorado em poucos estados. Pará e Amazonas reúnem a maior parte dos eleitores da região, enquanto Acre e Roraima possuem colégios menores, mas apresentam taxas de crescimento e características demográficas que se destacam no cenário nacional.

Com 13,1 milhões de eleitores, a Região Norte representa uma parcela relevante do eleitorado brasileiro e chega às Eleições 2026 com um crescimento proporcional superior ao registrado no país desde 2022.

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