O Grupo Gennius, controlador de marcas como Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, entrou em recuperação judicial com uma dívida declarada de R$ 265,2 milhões. O processamento do pedido foi deferido pela Justiça de São Paulo na terça-feira (25), um dia após a apresentação da ação.
A medida, no entanto, não significa a falência nem o fechamento imediato dos restaurantes. Em nota, o grupo informou que as operações continuam normalmente, com manutenção do atendimento aos clientes e da rotina das unidades.
O caso tramita na 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central de São Paulo e está sob responsabilidade do juiz Jomar Juarez Amorim. A KPMG Corporate Finance foi nomeada administradora judicial e terá, inicialmente, 15 dias para apresentar informações sobre a situação das empresas envolvidas.
Dívida ultrapassa R$ 265 milhões
De acordo com os valores apresentados no processo, o passivo submetido à recuperação judicial soma exatamente R$ 265.207.959,83.
Desse total, cerca de R$ 22,3 milhões correspondem a créditos trabalhistas. Outros R$ 241,7 milhões estão concentrados principalmente em créditos quirografários e categorias semelhantes, enquanto aproximadamente R$ 1,1 milhão é devido a microempresas e empresas de pequeno porte.
A petição inicial cita uma estrutura formada por 178 pessoas jurídicas, incluindo 119 lojas Habib’s, 26 unidades Ragazzo, seis churrascarias Tendall, além de franqueadoras, holdings e empresas de apoio operacional.
Há, porém, uma diferença entre a estrutura indicada inicialmente e o alcance da primeira decisão: levantamento feito a partir dos autos aponta que o deferimento alcançou 174 empresas e dois produtores rurais ligados ao grupo.
As lojas franqueadas que possuem CNPJ próprio não integram diretamente o pedido de recuperação judicial, segundo informações extraídas do processo.
Pandemia, delivery e juros são apontados como causas
Na ação, o Grupo Gennius atribuiu a deterioração financeira a uma combinação de fatores acumulados nos últimos anos.
Um dos principais pontos apresentados pela companhia foi o impacto da pandemia da Covid-19. Segundo a defesa do grupo, investimentos haviam sido realizados em restaurantes localizados principalmente em shoppings e áreas de grande circulação, mas as restrições sanitárias reduziram drasticamente o movimento desses estabelecimentos.
Mesmo após o fim das restrições, a consolidação do trabalho remoto e híbrido teria reduzido o fluxo de consumidores em determinadas regiões.
Outro fator apontado foi o crescimento das plataformas de delivery. Embora os aplicativos tenham ampliado um canal de venda para os restaurantes, o grupo afirma que o novo comportamento do consumidor também reduziu a frequência nas lojas físicas e pressionou as margens da operação.
Além disso, a empresa cita a elevação da taxa básica de juros como responsável pelo aumento do custo das dívidas e pela pressão sobre o capital de giro. Parte relevante dos empréstimos teria sido contratada em um período de juros menores, antes da escalada da Selic.
Grupo já tentava negociar dívidas
A recuperação judicial não foi a primeira medida adotada pelo Gennius para enfrentar a crise.
Em julho, a Justiça de São Paulo concedeu ao grupo uma proteção temporária de 60 dias contra determinadas cobranças e execuções, período que deveria ser utilizado para negociar com os credores.
Naquela fase, o endividamento informado chegava a aproximadamente R$ 312,4 milhões. As negociações foram conduzidas também por meio de mediação judicial, mas não produziram um acordo suficiente para evitar o pedido formal de recuperação.
A diferença entre os R$ 312,4 milhões mencionados anteriormente e os R$ 265,2 milhões agora submetidos à recuperação ocorre, entre outros fatores, porque nem todos os créditos estão sujeitos ao processo recuperacional. A própria documentação aponta dívida bancária superior a R$ 300 milhões, incluindo obrigações com garantias que podem ficar fora da negociação coletiva.
Justiça mantém recebíveis nas mãos dos bancos
Um dos principais pedidos apresentados pelo Grupo Gennius não foi atendido pela Justiça.
A companhia pretendia obter a liberação de recebíveis de cartões e aplicações financeiras oferecidos como garantia às instituições bancárias — mecanismo conhecido como “quebra das travas bancárias”.
O juiz negou a solicitação. Dessa forma, os bancos poderão continuar retendo valores vinculados às garantias, mesmo durante a recuperação judicial.
Por outro lado, a Justiça determinou a suspensão de determinadas ações e execuções contra as recuperandas e estabeleceu proteção contra o rompimento de contratos exclusivamente em razão da entrada em recuperação judicial.
Plano deverá ser apresentado em 60 dias
Com o processamento autorizado, o próximo passo será a apresentação do plano de recuperação judicial.
O Grupo Gennius terá 60 dias, sem possibilidade de prorrogação, para informar como pretende reorganizar suas operações e negociar o pagamento dos credores. Caso o plano não seja apresentado dentro do prazo legal, existe a possibilidade de conversão da recuperação em falência.
Os credores também poderão questionar os valores relacionados pela companhia e, posteriormente, apresentar objeções ao plano.
Enquanto o processo avança, o grupo afirma que os restaurantes continuarão operando normalmente.
O Gennius reúne mais de 300 restaurantes em cerca de 90 cidades brasileiras, considerando suas diferentes marcas. O Habib’s, criado no fim da década de 1980, tornou-se uma das redes de alimentação mais conhecidas do país, com forte expansão baseada no sistema de franquias.


