Por Erica Lima Aguiar
O que parece diversão pode virar doença, dívida e desespero. Em todo o Brasil, pessoas estão perdendo salários, patrimônios e relações familiares na tentativa de recuperar, em uma nova aposta, o dinheiro que já perderam.
A expansão das chamadas bets transformou o celular em um cassino disponível 24 horas por dia. O problema começa quando a aposta deixa de ser ocasional e passa a controlar a vida do jogador: ele esconde perdas, contrai empréstimos, vende bens, utiliza o dinheiro das despesas domésticas e continua jogando mesmo diante das consequências.
O transtorno do jogo, também conhecido como ludopatia, é uma dependência comportamental reconhecida pela área da saúde. Não representa falta de caráter ou simplesmente ausência de força de vontade. É uma condição que pode provocar ansiedade, depressão, isolamento, endividamento e risco de suicídio.
Os números revelam o tamanho do problema
Dados apresentados pela Confederação Nacional do Comércio à CPI das Bets indicaram que as apostas on-line teriam levado aproximadamente 1,3 milhão de brasileiros à inadimplência. A entidade alertou para a retirada de dinheiro do consumo básico das famílias e para os impactos no comércio.
Dados oficiais do Ministério da Fazenda mostram que 17,7 milhões de brasileiros apostaram em plataformas autorizadas somente no primeiro semestre de 2025. Nesse período, as empresas registraram cerca de R$ 17,4 bilhões em receita bruta, valor correspondente à diferença entre apostas recebidas e prêmios pagos.
Os relatos publicados pela imprensa ajudam a mostrar a dimensão humana dessa estatística. Há casos de pessoas que perderam economias acumuladas durante anos, fizeram dívidas escondidas e chegaram a comprometer mais de R$ 100 mil em poucos dias. São histórias marcadas por separações, crises emocionais, ameaças e tentativas de suicídio. Uma reportagem recente mostrou, por exemplo, o caso de uma mulher que perdeu R$ 120 mil em apostas on-line e entrou no ciclo de tentar recuperar o prejuízo apostando novamente.
Como reconhecer que alguém está viciado
Alguns comportamentos exigem atenção:
* apostar valores cada vez maiores;
* tentar recuperar imediatamente o dinheiro perdido;
* mentir sobre o tempo e os valores gastos;
* pedir dinheiro ou fazer empréstimos sem explicar a finalidade;
* utilizar recursos destinados a aluguel, alimentação ou contas;
* vender objetos e bens para continuar jogando;
* ficar irritado, ansioso ou agressivo quando não pode apostar;
* afastar-se da família e abandonar compromissos;
* mencionar desesperança, vontade de desaparecer ou de morrer.
O que fazer ao perceber o problema
Evite humilhar, ameaçar ou tratar a pessoa como irresponsável. Converse em um momento de calma e apresente fatos concretos: dívidas, transferências, mudanças de comportamento e prejuízos familiares.
Também é importante:
1. interromper imediatamente o acesso às plataformas;
2. excluir aplicativos e desativar notificações e propagandas;
3. solicitar a autoexclusão do CPF;
4. limitar temporariamente o acesso a cartões, Pix e crédito, com conhecimento e participação do jogador;
5. organizar as dívidas sem fornecer dinheiro para novas apostas;
6. procurar atendimento psicológico ou psiquiátrico;
7. não pagar silenciosamente todas as dívidas, pois isso pode facilitar a repetição do comportamento.
A família não deve tentar resolver tudo sozinha. Dependência exige acompanhamento profissional e participação ativa do próprio paciente.
Como bloquear o CPF nas bets
O Governo Federal disponibiliza o Sistema Centralizado de Autoexclusão de Apostas. O próprio titular entra com sua conta Gov.br e solicita que seu CPF seja impedido de acessar todas as plataformas de apostas autorizadas no país.


