Durante congresso de saúde coletiva, pesquisadores defenderam que o enfrentamento dos eventos extremos comece pelas populações mais expostas. No Amazonas, decreto preventivo para a estiagem é alvo de pedido de suspensão apresentado por Maria do Carmo.
“Não existe discussão das questões climáticas sem pensar nas pessoas e em onde estão.” A afirmação do pesquisador Júlio Schweickardt, da Fiocruz Amazônia, marcou a mesa sobre emergência climática, racismo ambiental e saúde em territórios tradicionais realizada no dia 18 de setembro, em Manaus, durante o 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde. O encontro reuniu relatos sobre mudanças nos ciclos da natureza, impactos da exploração econômica sobre comunidades tradicionais e a necessidade de preparar o SUS para proteger quem vive nos territórios mais vulneráveis.
A discussão encontra um exemplo imediato no Amazonas. Em previsão publicada em 3 de setembro, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indicou máxima de 37 °C para Manaus. O número é uma previsão para aquela data, não uma temperatura registrada em todo o estado. Já o Ministério Público de Contas do Amazonas informou que, até 21 de agosto, haviam sido contabilizados 960 focos de calor, ante 795 no mesmo período de 2025. Focos de calor são registros associados à detecção de fogo; não medem a temperatura sentida pela população.
A combinação de calor, estiagem e fumaça pode atingir diretamente a saúde. O Ministério da Saúde alerta para desidratação, insolação e agravamento de doenças cardiovasculares durante episódios de calor extremo. Crianças, idosos, pessoas com doenças crônicas e moradores de áreas com dificuldade de acesso à água e aos serviços de saúde exigem atenção especial. Nas comunidades ribeirinhas, a redução do nível dos rios também pode dificultar o transporte de pacientes, alimentos e medicamentos.
O que o estado prevê — e o que ainda precisa ser cobrado
Em 1º de junho, o Governo do Amazonas publicou o Decreto nº 54.274/2026, declarando, em caráter preventivo, estado de emergência climática e ambiental diante das projeções associadas ao El Niño de 2026/2027. O texto prevê coordenação entre os órgãos estaduais, monitoramento de rios e condições meteorológicas, preparação da Defesa Civil e intensificação das ações ambientais e de prevenção a incêndios. Trata-se de medidas previstas no decreto; sua publicação, por si só, não demonstra que todas já tenham chegado às comunidades.
Em agosto, o Ministério Público de Contas cobrou resultados concretos. O órgão recomendou que o estado antecipe o posicionamento de água, alimentos, medicamentos, embarcações e equipes onde houver risco de isolamento. Também pediu protocolos para fumaça e calor, preparação da rede de saúde, pontos de hidratação e espaços de resfriamento para grupos vulneráveis. A recomendação mostra que a resposta à estiagem precisa ser acompanhada tanto pela população quanto pelos órgãos de controle.
Decreto é alvo de contestação
A candidata ao governo Maria do Carmo Seffair (PL) questionou a amplitude do decreto e pediu ao Tribunal de Contas do Estado a suspensão de seus efeitos. Segundo manifestação atribuída à candidata, sua preocupação é evitar gastos e distribuição de bens sem transparência suficiente em ano eleitoral. O pedido também inclui fiscalização das despesas e identificação de beneficiários e critérios de distribuição. O pedido de suspensão não equivale a uma decisão que tenha derrubado o decreto.
Fiscalizar recursos públicos é indispensável. Ao mesmo tempo, os alertas oficiais exigem que o debate político responda a uma pergunta prática: como garantir controle dos gastos sem atrasar a preparação das comunidades que podem ficar isoladas ou sem água durante a estiagem? Na mesa do congresso, a resposta dos pesquisadores partiu do território. Para quem enfrenta calor, fumaça e alterações no regime dos rios, a eficácia da política climática será medida pela proteção que chegar às pessoas.


