Dois transatlânticos utilizados como alternativa de hospedagem durante a COP30, realizada em novembro de 2025, em Belém (PA), foram contratados por meio da Qualitours Agência de Viagens e Turismo, empresa pertencente ao grupo comandado pelo empresário Marcelo Cohen, apontado como sócio do ex-banqueiro Daniel Vorcaro no hotel de luxo Botanique, em Campos do Jordão (SP). A relação empresarial foi revelada em reportagens do Metrópoles e da Folha de S.Paulo.
O MSC Seaview e o Costa Diadema foram levados à capital paraense como parte da estrutura temporária de hospedagem montada para receber participantes da conferência climática. A solução foi adotada diante da insuficiência da rede hoteleira de Belém para absorver a demanda adicional provocada pelo evento.
A escolha da Qualitours ocorreu por meio de chamamento público da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur). Documento publicado no Diário Oficial da União em maio de 2025 confirma a seleção e qualificação da empresa para prestar serviços de hospitalidade e comercializar cabines em navios atracados no Terminal Portuário de Outeiro durante a COP30 e a cúpula de líderes.
Segundo o Metrópoles, a operação dos navios chegou a R$ 350,2 milhões. A publicação também informou que apenas a Qualitours apresentou proposta no procedimento, cujo prazo para apresentação das ofertas foi de quatro dias.
Relação empresarial chega ao caso Master
A Qualitours integra a BeFly, holding de turismo criada em 2021 pelo empresário Marcelo Cohen. Reportagem da Folha de S.Paulo apontou que a expansão do grupo foi impulsionada por fundos ligados ao Banco Master, então controlado por Daniel Vorcaro. Cohen também é apontado como associado a Vorcaro no Botanique Hotel & Spa.
As conexões financeiras entre empresas de Cohen e o Master também aparecem em informações encaminhadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Segundo a Folha, relatório de inteligência financeira fez referência a uma operação de R$ 6 milhões, realizada em março de 2024, envolvendo o Master, Cohen e a Belvitur Viagens, outra empresa do empresário.
A BeFly afirmou ao jornal que a operação correspondia a um empréstimo regularmente firmado, com garantia imobiliária e registro em cartório. O grupo também sustenta que o Banco Master não possuía participação societária na holding.
A existência dessas relações empresariais, por si só, não demonstra irregularidade na contratação dos navios para a COP30.
Embratur defende regularidade
Após a divulgação das informações, a Embratur afirmou que o procedimento para escolha da Qualitours respeitou os trâmites legais. Segundo a agência, a empresa apresentou a documentação exigida para comprovar sua qualificação e não houve participação do Banco Master na operação financeira relacionada aos navios.
A contratação também passou pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Em abril deste ano, no Acórdão 756/2026, o plenário julgou improcedente uma representação que questionava possíveis irregularidades na solução de hospedagem para a COP30. O processo analisou o contrato de R$ 263 milhões firmado entre a Secretaria Extraordinária para a COP30 e a Embratur e incorporou ao exame a contratação posterior da Qualitours.
Em decisão posterior, o próprio TCU registrou que os documentos apresentados demonstraram, no entendimento da Corte, a justificativa para a solução diante da insuficiência da rede hoteleira, dos riscos envolvidos e da comparação com alternativas como o fretamento direto de navios ou a construção de novos hotéis. A Corte voltou a considerar improcedentes os questionamentos sobre a contratação.
Assim, as reportagens revelam vínculos empresariais entre o controlador do grupo ao qual pertence a Qualitours e Daniel Vorcaro, mas, até o momento, as informações disponíveis não apontam que o TCU tenha identificado irregularidade na contratação dos transatlânticos utilizados durante a COP30.
*Com informações do Brasil Paralelo
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