Morreu, na quarta-feira (7), aos 87 anos, Maricarmen Abascal, idosa espanhola que ganhou repercussão internacional após ser despejada do apartamento onde viveu durante 71 anos, em Madri, na Espanha. Ela estava internada no Hospital Gregorio Marañón desde 23 de setembro, quando foi retirada do imóvel durante o cumprimento de uma ordem judicial.
A morte foi confirmada pelo Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madri, organização que acompanhava o caso e mobilizou manifestações contra o despejo. A situação da idosa provocou comoção nacional e intensificou os protestos contra a crise habitacional espanhola.
Maricarmen vivia em um apartamento localizado no bairro de Retiro, na capital espanhola. A família mantinha um contrato de aluguel antigo, firmado em 1956, que permaneceu em vigor por décadas.
Idosa foi retirada de casa em uma maca
O despejo ocorreu em 23 de setembro, após uma disputa judicial envolvendo a permanência da idosa no apartamento. Na ocasião, Maricarmen foi retirada do imóvel em uma maca e encaminhada de ambulância ao hospital.
Imagens do momento circularam nas redes sociais e provocaram indignação entre manifestantes que tentavam impedir a retirada.
A idosa enfrentava problemas de saúde e possuía deficiência reconhecida. Segundo pessoas próximas, seu quadro clínico era delicado e havia se agravado nos meses anteriores.
Desde o despejo, ela permaneceu hospitalizada. Embora tenha conseguido enviar mensagens de agradecimento aos apoiadores, não voltou para casa.
A causa médica específica da morte não foi oficialmente detalhada nas reportagens consultadas.
Disputa por apartamento durou oito anos
A situação de Maricarmen começou a se agravar em 2018, quando uma empresa imobiliária adquiriu o imóvel e passou a questionar judicialmente a continuidade do contrato de aluguel.
A idosa recebia uma aposentadoria de aproximadamente 1.400 euros mensais e, conforme informações divulgadas pelo jornal espanhol El País, mantinha o pagamento das despesas habitacionais, que somavam cerca de 500 euros por mês.
Durante oito anos, Maricarmen resistiu às tentativas de despejo com o apoio de movimentos sociais e de organizações de defesa dos inquilinos.
Três tentativas anteriores de retirada foram impedidas ou adiadas. Entretanto, na quarta tentativa, em setembro deste ano, a ordem judicial foi cumprida.
Despejo provocou onda de protestos na Espanha
O caso ganhou dimensão nacional após a divulgação das imagens da idosa sendo retirada de casa.
Milhares de pessoas participaram de manifestações em defesa do direito à moradia, enquanto integrantes de movimentos sociais organizaram um acampamento na Puerta del Sol, uma das principais praças de Madri.
A mobilização ampliou a pressão sobre o governo espanhol e recolocou no centro do debate político questões relacionadas ao aumento dos aluguéis, à atuação de empresas imobiliárias e à proteção de moradores em situação de vulnerabilidade.
O governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez apresentou dois decretos voltados à questão habitacional. As propostas, entretanto, não foram aprovadas pelo Congresso dos Deputados em uma votação realizada na semana passada.
A crise política também contribuiu para a convocação de eleições gerais antecipadas, marcadas para 29 de novembro.
Acordo permitiria retorno ao apartamento
Apesar da retirada forçada, advogados de Maricarmen conseguiram negociar um acordo para que ela retornasse ao imóvel.
O entendimento foi alcançado em 28 de setembro, cinco dias após o despejo, e previa a possibilidade de restabelecer sua permanência na residência.
No entanto, a idosa continuava internada e morreu antes que o retorno fosse concretizado.
Morte reacende mobilização pelo direito à moradia
Após a confirmação da morte, o Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madri lamentou a perda e reafirmou o compromisso de continuar as mobilizações.
Mesmo durante a internação, Maricarmen incentivou os manifestantes a permanecerem mobilizados. Em uma de suas últimas mensagens públicas, pediu que as pessoas continuassem lutando por seus direitos.
Sua história passou a representar a situação de milhares de famílias espanholas que enfrentam dificuldades para permanecer em suas residências diante da valorização imobiliária e do aumento dos preços dos aluguéis.
Com a morte da idosa, os movimentos habitacionais passaram a destacar sua trajetória como exemplo da resistência contra os despejos e em defesa do acesso à moradia digna.


