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Empresa australiana desenvolve computadores com neurônios humanos e abre novas possibilidades para a IA

Tecnologia combina células nervosas cultivadas em laboratório com chips de silício e pode transformar pesquisas científicas, mas também levanta questionamentos éticos

Uma empresa australiana está desenvolvendo uma tecnologia que utiliza neurônios humanos vivos para processar informações em computadores. Batizado de CL1, o equipamento criado pela Cortical Labs combina células nervosas cultivadas em laboratório com circuitos eletrônicos, permitindo que estruturas biológicas interajam diretamente com sistemas digitais. A inovação representa um avanço nas pesquisas sobre computação biológica e inteligência artificial (IA).

Apresentado em março de 2025, o computador ganhou novas aplicações em 2026. Em agosto, a Cortical Labs, em parceria com a Universidade Nacional de Singapura (NUS) e a empresa DayOne, apresentou um protótipo de centro de dados biológico equipado com 20 unidades do CL1.

A iniciativa busca investigar se células humanas podem contribuir para o desenvolvimento de sistemas computacionais mais adaptáveis e eficientes, especialmente em atividades que exigem aprendizado e processamento de informações.

Como funcionam os computadores biológicos?

Diferentemente dos computadores convencionais, que dependem exclusivamente de componentes eletrônicos para executar operações, o CL1 utiliza neurônios humanos produzidos a partir de células-tronco e cultivados sobre chips de silício.

Essas células recebem estímulos elétricos enviados pelo equipamento e respondem por meio de impulsos nervosos. As respostas são captadas e interpretadas pelo sistema, criando uma comunicação entre o material biológico e o ambiente digital.

Para que o processo funcione, os neurônios precisam permanecer vivos. Por isso, o computador possui mecanismos responsáveis pelo fornecimento de nutrientes e pela manutenção das condições necessárias à sobrevivência das células.

Segundo a Cortical Labs, o equipamento consegue manter as culturas de neurônios vivas por até seis meses, permitindo a realização de experimentos prolongados.

A tecnologia também utiliza um sistema operacional chamado biOS, responsável por estabelecer a comunicação entre os neurônios e os programas digitais.

Neurônios já demonstraram capacidade de aprendizagem

A utilização de células nervosas em sistemas eletrônicos não começou com o lançamento do CL1.

Em 2022, pesquisadores ligados à Cortical Labs publicaram um estudo na revista científica Neuron demonstrando que culturas de neurônios humanos e de roedores conseguiam modificar sua atividade elétrica ao interagir com uma versão simplificada do jogo Pong, clássico videogame de tênis de mesa.

Durante os experimentos, as células receberam estímulos elétricos relacionados aos acontecimentos do jogo, permitindo observar sinais de aprendizagem e adaptação.

Os resultados ajudaram a impulsionar o desenvolvimento da chamada inteligência biológica sintética, área que busca integrar sistemas vivos às tecnologias computacionais.

Apesar dos avanços, isso não significa que os neurônios sejam capazes de pensar como seres humanos ou que tenham consciência.

Tecnologia pode contribuir para pesquisas médicas

Entre as possíveis aplicações estão o estudo de doenças neurológicas, a avaliação de medicamentos e o desenvolvimento de novas formas de inteligência artificial.

Por utilizar células nervosas humanas, o equipamento também poderá contribuir para pesquisas sobre o funcionamento do cérebro e sobre a maneira como determinados tratamentos afetam os neurônios.

Outra expectativa é explorar a eficiência energética dessas estruturas biológicas. A Cortical Labs sustenta que sistemas baseados em neurônios podem consumir menos energia em determinadas atividades.

Entretanto, ainda não há demonstração de que esses computadores sejam superiores aos sistemas convencionais em tarefas computacionais de uso geral.

Uso de células humanas levanta questões éticas

O desenvolvimento dos computadores biológicos também desperta discussões sobre os limites da utilização de células humanas em equipamentos tecnológicos.

Entre os principais questionamentos estão a origem do material biológico, o consentimento dos doadores e a necessidade de regras específicas para esse tipo de pesquisa.

Especialistas também discutem como avaliar sistemas biológicos cada vez mais complexos e se, futuramente, determinadas estruturas poderiam apresentar características relacionadas à percepção ou à consciência.

Até o momento, não há comprovação de que os computadores desenvolvidos pela Cortical Labs possuam consciência humana.

Apesar das limitações, os avanços mostram que a computação biológica deixou de ser apenas uma possibilidade teórica e passou a contar com equipamentos utilizados em ambientes de pesquisa.

A expectativa dos desenvolvedores é que a integração entre células vivas e componentes eletrônicos abra caminhos para novas aplicações científicas e tecnológicas nos próximos anos.

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