Depois de vários dias respirando um ar carregado por partículas das queimadas, os efeitos da fumaça já aparecem nos serviços de saúde do Amazonas. Tosse, irritação nos olhos e na garganta, congestão nasal, chiado no peito, falta de ar e agravamento de doenças como asma e bronquite estão entre os sintomas associados à exposição prolongada.
Dados divulgados pela Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) apontam que, entre 1º e 14 de outubro, 315 atendimentos foram registrados na rede estadual, em Manaus, dentro do monitoramento relacionado aos efeitos da fumaça. A SES e a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-RCP) acompanham a situação nos 62 municípios.
O número mostra uma aceleração em relação ao início da crise. Entre 1º de julho e 9 de outubro, a SES havia contabilizado 375 atendimentos relacionados à exposição à fumaça nos Serviços de Pronto Atendimento da capital. Desse total, 82 ocorreram somente entre 1º e 8 de outubro.
Os dados, porém, precisam ser interpretados com cuidado. Eles representam atendimentos classificados dentro do monitoramento da exposição à fumaça e não significam, necessariamente, que todos os problemas respiratórios registrados na rede tenham sido provocados exclusivamente pelas queimadas.
A própria FVS-RCP publicou, em 15 de outubro, um Informe de Atendimento por Exposição à Fumaça, com dados relativos ao período de 1º de agosto a 14 de outubro, além de manter notas técnicas específicas sobre vigilância, monitoramento e prevenção de doenças associadas à exposição.
Crianças e idosos estão entre os grupos mais vulneráveis
O material particulado fino, conhecido como PM2,5, é uma das maiores preocupações porque consegue penetrar profundamente no sistema respiratório.
Segundo o Ministério da Saúde, a fumaça dos incêndios pode provocar irritação das vias aéreas e agravar asma, bronquite e outras doenças pulmonares. A exposição também está associada ao aumento do risco cardiovascular em pessoas vulneráveis. Crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias, cardiovasculares ou imunológicas exigem atenção especial.
A preocupação aumenta porque Manaus permanece submetida a episódios prolongados de poluição. Em 16 de outubro, por exemplo, sensores do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas, registravam diferentes pontos da capital nas faixas de qualidade do ar “muito ruim” e “péssima”.
Sistema de saúde está em monitoramento
Até agora, não há anúncio oficial de colapso ou falta generalizada de leitos na rede estadual. O cenário, entretanto, levou o Ministério da Saúde a enviar a Força Nacional do SUS ao Amazonas para acompanhar a capacidade de resposta dos serviços.
O diagnóstico federal identificou 12 municípios que necessitam de algum tipo de suporte na área da saúde. A avaliação inclui disponibilidade de profissionais, insumos, transporte sanitário, capacidade de atendimento e comportamento da procura pelos serviços.
Um dos pontos acompanhados com maior atenção é o oxigênio medicinal. O Ministério da Saúde informou que monitora o consumo nos municípios e também nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas, além de verificar a capacidade das empresas de ampliar o fornecimento em eventual situação de emergência.
Medicamentos, leitos e outros insumos também estão sendo acompanhados pela SES-AM e pela FVS.
Rede municipal apresenta cenário diferente
Em Manaus, a Secretaria Municipal de Saúde informou, em 12 de outubro, que ainda não havia identificado aumento significativo nos atendimentos da rede municipal em comparação com a média dos meses anteriores.
A aparente diferença em relação aos números da SES ocorre porque se trata de redes, períodos e formas de monitoramento diferentes. A Semsa informou, mesmo assim, que solicitou autorização ao Ministério da Saúde para retomar nebulização em cerca de 76 unidades de saúde, como reforço ao atendimento de pacientes com problemas respiratórios.
Quando procurar atendimento
Segundo as orientações das autoridades de saúde, sintomas como tosse, irritação na garganta, coriza, ardência nos olhos e desconforto respiratório devem ser observados.
Nos casos leves, a orientação é buscar uma Unidade Básica de Saúde. Falta de ar intensa, chiado importante, piora abrupta de doenças respiratórias, dor no peito ou outros sinais de maior gravidade exigem atendimento de urgência.
O Ministério da Saúde também recomenda diminuir atividades físicas ao ar livre, aumentar a ingestão de água, permanecer em ambientes protegidos da fumaça e, quando for necessário sair, utilizar preferencialmente máscaras N95 ou PFF2, corretamente ajustadas.
Fumaça transforma crise ambiental em problema de saúde pública
Com dias consecutivos de exposição, a preocupação já não está restrita à quantidade de incêndios ou à visibilidade comprometida nas ruas.
O avanço da fumaça levou à suspensão de aulas, redução de atividades externas, mobilização da Força Nacional do SUS e monitoramento específico de leitos, medicamentos e oxigênio.
Para o sistema de saúde, o principal desafio agora é acompanhar se o aumento da exposição será seguido por uma elevação ainda maior de atendimentos e internações, especialmente entre crianças, idosos e pessoas que já convivem com doenças respiratórias.
Enquanto a fumaça permanecer sobre Manaus e municípios do interior, respirar também passa a ser uma questão de saúde pública no Amazonas.


