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Do poder das oligarquias ao voto popular: a história política de Manaus depois da República

Da chegada da notícia da Proclamação da República às disputas oligárquicas da borracha, das intervenções de Vargas e do regime militar às eleições diretas, Manaus atravessou mais de um século de mudanças na forma de escolher seus governantes. A história política da capital também ajuda a explicar como se formaram alguns dos grupos e personagens que marcaram o poder no Amazonas.

A Manaus que celebra sua história não pode ser compreendida apenas pelos monumentos da Belle Époque, pelo Teatro Amazonas, pelo porto, pelos casarões do Centro ou pela riqueza produzida pela borracha. Por trás da transformação urbana da cidade, existe também uma história de disputas políticas, mudanças de regime, governos nomeados, intervenções e eleições.

A Proclamação da República ocorreu no Rio de Janeiro em 15 de novembro de 1889, mas as informações sobre a mudança de regime demoraram a chegar ao extremo Norte do país. Pesquisa do historiador Otoni Mesquita registra que a notícia chegou a Manaus em 21 de novembro de 1889. No dia seguinte, formou-se uma Junta Governativa no Amazonas. Documentos preservados pelo Museu da República também registram a atuação do Partido Republicano do Amazonas e comunicados do Governo Provisório local naquele mês.

Era o começo de uma transformação que iria muito além da troca de imperador por presidente. O antigo sistema provincial dava lugar ao Estado do Amazonas, Manaus consolidava-se como sua capital e uma nova estrutura de poder começava a ser construída.

A República chegou, mas o poder continuou concentrado

Em 4 de janeiro de 1890, o capitão Augusto Ximeno de Villeroy assumiu como primeiro governador do Amazonas no período republicano. Uma de suas primeiras medidas foi dissolver a antiga Câmara Municipal de Manaus e criar uma Intendência Municipal, colocando Joaquim Leovigildo de Sousa Coelho à frente da nova estrutura administrativa. O episódio está documentado no verbete histórico do CPDOC da Fundação Getulio Vargas.

Poucos meses depois, em 2 de novembro de 1890, assumiu o governo estadual um personagem que se tornaria central na história de Manaus: Eduardo Gonçalves Ribeiro.

Militar, engenheiro e republicano, Eduardo Ribeiro participou diretamente da reorganização institucional do Amazonas nos primeiros anos do novo regime. Sua passagem pelo governo foi marcada não apenas pela política, mas por um projeto de transformação física da capital.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, registra que, a partir de 1892, o governo de Eduardo Ribeiro colocou em prática um amplo plano urbano. Manaus recebeu serviços de eletricidade, telefonia, abastecimento de água, transporte por bondes e grandes intervenções viárias, em meio à expansão da economia da borracha.

Foi também durante seu governo que a Imprensa Oficial do Amazonas foi criada, pela Lei nº 1, de 31 de agosto de 1892. O primeiro Diário Oficial do Estado circulou em 15 de novembro de 1893.

Manaus entrava na República como capital de um dos maiores ciclos econômicos de sua história.

Antes dos prefeitos, Manaus teve intendentes e superintendentes

Existe uma diferença importante entre a história política do Governo do Amazonas e a história da administração de Manaus.

Nos primeiros anos republicanos, a cidade ainda não possuía o modelo de prefeitura que existe atualmente.

A documentação histórica registra inicialmente a organização de uma Intendência Municipal. Depois, entre 1892 e 1926, os chefes do Executivo municipal foram denominados superintendentes municipais. Somente após a Constituição amazonense de 14 de fevereiro de 1926 a denominação prefeito passou a ser oficialmente utilizada.

Isso significa que falar simplesmente em “prefeitos de Manaus” desde o início da República pode produzir um anacronismo histórico.

A estrutura municipal foi sendo construída junto com o próprio regime republicano.

Entre os primeiros personagens dessa transição estava Joaquim Leovigildo de Sousa Coelho, militar, engenheiro e político que já havia atuado na vida pública amazonense durante o Império e se tornaria senador pelo Amazonas. Registros do Senado Federal confirmam sua participação na primeira representação amazonense da República no Congresso Nacional.

Borracha, modernização e poder

O período mais conhecido da história urbana de Manaus coincide justamente com os primeiros anos da República.

Entre o final do século XIX e o início do XX, a valorização internacional da borracha enriqueceu comerciantes, financiou grandes obras e fortaleceu grupos políticos locais.

Mas a chamada Belle Époque manauara não significou prosperidade igual para todos.

No livro “A ilusão do fausto: Manaus, 1890-1920”, a historiadora Edinéa Mascarenhas Dias analisa como o projeto de modernização também produziu exclusões sociais. A pesquisa mostra que as políticas urbanas buscavam disciplinar espaços públicos, trabalhadores, ambulantes e populações pobres enquanto grandes investimentos transformavam principalmente as áreas centrais.

A própria ideia de uma Manaus transformada em uma “Paris dos Trópicos”, portanto, precisa ser observada criticamente.

A riqueza era real. Os edifícios eram reais. As obras públicas eram reais.

Mas também eram reais as desigualdades.

Pesquisas da Universidade Federal do Amazonas apontam ainda que as primeiras décadas republicanas foram caracterizadas pelo domínio e pela disputa entre grupos oligárquicos, ligados principalmente aos interesses econômicos da borracha e aos partidos locais. A imprensa também fazia parte dessa disputa pelo poder.

A dissertação “A República no Amazonas: disputas políticas e relações de poder (1888-1896)”, de João Rozendo Tavares Neto, apresentada à Universidade Federal do Amazonas, demonstra que a chegada da República não apagou imediatamente as antigas relações políticas. Novas alianças foram construídas e antigas lideranças se reorganizaram dentro do novo regime.

Em outras palavras: mudou o regime, mas não necessariamente desapareceram as estruturas de influência.

Eduardo Ribeiro e as disputas da primeira República

Eduardo Ribeiro tornou-se o personagem mais simbólico desse período.

O início da República amazonense foi politicamente turbulento. A pesquisa de Otoni Mesquita relata sucessivas mudanças no comando do Estado entre 1890 e 1892 e até mobilizações populares pela permanência de Eduardo Ribeiro no governo.

Em 1892, Ribeiro retornaria ao poder estadual, permanecendo até 1896.

Seu governo foi decisivo para a urbanização de Manaus. Obras associadas ao período incluem a retomada da construção do Teatro Amazonas, o Reservatório do Mocó, intervenções viárias e o Palácio da Justiça. O CPDOC registra ainda que, em 1895, uma reforma constitucional no Amazonas estabeleceu eleição direta para governador e vice-governador, embora dentro das limitações eleitorais características daquela época.

Nos anos seguintes, outros nomes e grupos passaram a disputar o comando estadual, entre eles Silvério Nery, Constantino Nery e diferentes lideranças que constituíram a política oligárquica amazonense.

A história desse período demonstra como política estadual e política municipal se confundiam frequentemente: quem controlava o Estado exercia enorme influência sobre a administração da capital.

1924: quando os tenentes tomaram o poder em Manaus

Uma das páginas mais dramáticas da história política amazonense ocorreu em 1924.

O movimento tenentista alcançou Manaus e militares liderados, entre outros, pelo tenente Alfredo Augusto Ribeiro Júnior tomaram o poder estadual.

O episódio fez parte da onda de revoltas militares contra a estrutura política da Primeira República.

Estudo publicado pelo Instituto de Geografia e História Militar do Brasil destaca que o levante envolveu unidades do Exército e da Marinha e estava relacionado às tensões políticas, econômicas e sociais daquele momento.

Documentação histórica divulgada pela Prefeitura de Manaus registra que Ribeiro Júnior e os demais revoltosos ocuparam pontos estratégicos da cidade e chegaram ao Palácio do Governo.

Manaus, distante do centro político nacional, estava diretamente inserida nas crises que antecederiam o fim da República Velha.

1930: Vargas muda novamente a política do Amazonas

A Revolução de 1930 representou outra ruptura.

Com a queda do presidente Washington Luís e a chegada de Getúlio Vargas ao poder, a autonomia política dos estados foi reduzida e interventores passaram a ser indicados pelo governo federal.

No Amazonas, um dos principais nomes desse período foi Álvaro Botelho Maia.

Segundo registros do Senado Federal, Álvaro Maia foi interventor do Amazonas entre 1930 e 1933, governador entre 1935 e 1937, novamente interventor durante o Estado Novo, de 1937 a 1945, e retornaria ao governo estadual entre 1951 e 1954. (Senado Federal⁠)

Pesquisa da Universidade Federal do Amazonas explica que as interventorias faziam parte da política de centralização estabelecida por Vargas e reduziam o poder das antigas oligarquias estaduais.

Documentação histórica do Tribunal de Justiça do Amazonas registra que, após a deposição do governo estadual em outubro de 1930, uma Junta Revolucionária assumiu temporariamente o comando e Álvaro Maia tomou posse como interventor federal em 20 de novembro de 1930.

Novamente, a política de Manaus era diretamente determinada pela mudança do regime nacional.

A primeira experiência de eleição direta para prefeito

O modelo democrático municipal que hoje parece natural demorou décadas para se consolidar.

Levantamento histórico sobre as eleições manauaras registra que a primeira eleição direta para prefeito de Manaus ocorreu em 1961.

O vencedor foi o radialista Josué Cláudio de Souza, que assumiu em fevereiro de 1962. Ele renunciaria em 1964, sendo substituído na administração municipal.

Em 1965, Vinícius Monte Conrado Gomes também chegou ao cargo pelo voto.

Mas a experiência seria interrompida.

Regime militar volta a retirar das urnas a escolha do prefeito

Com o regime militar instaurado em 1964 e a reorganização institucional promovida nos anos seguintes, as capitais brasileiras perderam novamente a eleição direta de seus prefeitos.

Em Manaus, uma sequência de gestores nomeados comandou a cidade durante grande parte daquele período.

A relação oficial da Prefeitura registra, entre outros, Paulo Pinto Nery, Frank Abrahim Lima, Jorge Teixeira de Oliveira, José de Oliveira Fernandes, João de Mendonça Furtado e Amazonino Mendes.

Jorge Teixeira se transformaria posteriormente em governador do Amazonas e teria seu nome associado ao período de expansão urbana acelerada da capital.

A partir de 1967, com a consolidação da Zona Franca de Manaus, a cidade entraria em outro ciclo de crescimento.

O eixo político passou a conviver com desafios completamente diferentes dos tempos da borracha: explosão demográfica, ocupação territorial, expansão dos bairros, habitação, transporte, saneamento e geração de empregos.

1985: as urnas voltam a decidir

O processo de redemocratização brasileira devolveu aos moradores de Manaus o direito de escolher diretamente o prefeito.

A própria Prefeitura registra que a eleição direta foi restabelecida em 1985, quando Manoel Henriques Ribeiro foi eleito para comandar a capital.

A partir daquele momento, começa o ciclo político contemporâneo de Manaus.

Depois vieram nomes que se tornariam centrais não apenas na prefeitura, mas também na política estadual e nacional.

Entre eles:

Arthur Virgílio Neto, eleito prefeito no ciclo iniciado em 1989 e novamente eleito décadas depois;

Amazonino Mendes, que comandou Manaus em diferentes períodos e também governou o Amazonas diversas vezes;

Eduardo Braga, que assumiu a prefeitura como vice após a saída de Amazonino e mais tarde se tornaria governador e senador;

Alfredo Nascimento, eleito prefeito e posteriormente ministro e senador;

Serafim Corrêa, eleito para o mandato iniciado em 2005;

e David Almeida, eleito para a prefeitura no ciclo iniciado em 2021.

A lista oficial da Prefeitura permite observar um fenômeno importante: em Manaus, a prefeitura frequentemente funcionou como uma das principais plataformas de projeção para o Governo do Amazonas e para cargos nacionais.

Prefeitura e Governo do Estado: dois poderes que moldaram Manaus

A história política da cidade não pode ser contada apenas pelos prefeitos.

Governadores tiveram papel decisivo na construção e transformação da capital.

Eduardo Ribeiro conduziu a modernização urbana no período da borracha.

Álvaro Maia atravessou diferentes regimes políticos.

Décadas depois, nomes como Gilberto Mestrinho, Amazonino Mendes, Eduardo Braga, Omar Aziz, José Melo, Wilson Lima e outros passaram a participar diretamente das diferentes etapas da política estadual.

Alguns personagens circularam pelos dois espaços de poder.

Amazonino Mendes, por exemplo, foi prefeito e governador.

Eduardo Braga foi vice-prefeito, assumiu a Prefeitura de Manaus e depois chegou ao Governo do Amazonas.

Essa circulação ajuda a entender por que a disputa pela Prefeitura de Manaus historicamente ultrapassa os limites administrativos da cidade: governar uma capital que concentra a maior parcela da população e da atividade econômica do Amazonas representa também ocupar uma das posições mais importantes da política regional.

Manaus em 2026

A estrutura política continua se transformando.

Em 31 de março de 2026, Renato Junior, eleito vice-prefeito em 2024, assumiu a Prefeitura de Manaus. A própria página institucional da Prefeitura e publicações oficiais posteriores confirmam que ele permanece à frente do Executivo municipal em outubro de 2026.

No Governo do Amazonas, a página oficial da Governadoria registra atualmente Roberto Maia Cidade Filho como governador.

Assim, mais de 136 anos depois da implantação da República no Amazonas, Manaus chega a uma nova etapa de sua história política.

Uma cidade construída também pelas disputas pelo poder

Manaus foi cidade colonial, capital provincial, capital da borracha, centro de uma experiência republicana marcada por oligarquias, palco de revolta tenentista, cidade administrada por interventores, capital governada por prefeitos nomeados e, finalmente, município em que a escolha direta do Executivo tornou-se parte do processo democrático.

Mas existe uma permanência histórica.

Desde o século XIX, controlar politicamente Manaus significa controlar uma parte fundamental da dinâmica econômica, administrativa e eleitoral do Amazonas.

É por isso que a história da capital e a história do poder estadual tantas vezes se confundem.

Os prédios da região central guardam parte dessa memória. O Palácio da Justiça, o Teatro Amazonas, o Paço e outras construções não são apenas monumentos arquitetônicos: são testemunhos de períodos em que projetos políticos tentaram redesenhar a cidade e definir quem poderia ocupar seus espaços.

A historiadora Edinéa Mascarenhas Dias, ao estudar a Manaus da borracha, demonstrou que por trás da imagem do progresso existiam também exclusões e conflitos sociais. O historiador e escritor Robério Braga, em Manaus: notícia histórica – 1669-2019, reconstrói episódios políticos e sociais da capital ao longo de mais de três séculos. Já Arthur Cézar Ferreira Reis, em obras como História do Amazonas e Súmula de História do Amazonas, permanece como uma das referências clássicas da historiografia regional.

Ler essas diferentes interpretações ajuda a compreender uma Manaus que vai muito além da imagem da “Paris dos Trópicos”.

A história da cidade também é a história da disputa pelo poder.

E cada mudança de regime — Império, República, Estado Novo, regime militar e redemocratização — deixou marcas sobre quem governou Manaus, como chegou ao poder e para quem a cidade foi planejada.

Mini Biografia

Erica Lima Barbosa Aguiar é escritora, jornalista com registro profissional (DRT) e bacharel em Serviço Social. Mestre pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pela Fiocruz Amazônia, atua há mais de 15 anos com pesquisa, com especialização e ampla experiência em pesquisa qualitativa. É articulista, empresária e diretora-executiva do O Convergente, além de vice-presidente da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Seção Amazonas (AJEB-AM) e integrante da diretoria da Rede Sem Fronteiras. Sua trajetória reúne comunicação, pesquisa e literatura, com atuação voltada à análise social, à produção de conhecimento e à compreensão das transformações da sociedade.

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