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Temor de nova guerra no Oriente Médio cresce em meio à onda de protestos na Europa

Estados Unidos alertam aliados sobre possível retomada de ataques ao Irã, Teerã promete resposta, países do Golfo tentam conter uma nova escalada e manifestações contra custo de vida, gastos militares e guerras se espalham pela Europa

O cenário internacional voltou a entrar em zona de alta tensão neste fim de semana. De um lado, cresce o temor de uma nova rodada de ataques entre Estados Unidos, Israel e Irã. De outro, manifestações de grandes proporções se espalham pela Europa, alimentadas por inflação, custo de vida, educação, gastos militares e oposição às guerras.

A situação, no entanto, exige cautela: não há confirmação oficial de que uma nova ofensiva norte-americana contra o Irã esteja decidida. O que existe é uma combinação de movimentação militar, alertas diplomáticos, declarações públicas e preparação de países da região para a possibilidade de novos ataques.

A Associated Press informou que autoridades dos Estados Unidos alertaram países aliados no Oriente Médio para que se preparem para uma possível retomada das operações militares contra o Irã após as eleições legislativas norte-americanas de 3 de novembro. Segundo diplomatas ouvidos pela agência, também existe preocupação com uma eventual retaliação iraniana contra instalações de energia e outras infraestruturas estratégicas.

TRUMP VOLTA A COLOCAR O IRÃ NO CENTRO DA TENSÃO

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a fazer declarações duras sobre o conflito.

Durante um comício no Texas, na terça-feira (27), Trump afirmou que a guerra com o Irã poderia terminar rapidamente, mas condicionou isso à garantia de que Teerã não desenvolverá uma arma nuclear.

Em outro trecho do discurso, disse que o mundo poderia “ver o Irã em algumas semanas”, aumentando as especulações sobre os próximos passos de Washington.

Apesar da retórica, a própria Associated Press ressalta que Trump ainda não tomou uma decisão final sobre uma nova ofensiva militar. A Casa Branca não confirmou planos de ataque.

Segundo a agência, os Estados Unidos reforçaram sua presença militar na região com cerca de 9 mil militares adicionais e forças navais no Golfo Pérsico. (AP News)

IRÃ RESPONDE: “ESTAMOS PREPARADOS”

Do lado iraniano, o tom também subiu.

Neste sábado (31), o líder supremo do Irã, aiatolá Mojtaba Khamenei, defendeu que as forças do país estejam preparadas para responder imediatamente a qualquer ataque e que mantenham atualizadas suas listas de possíveis alvos norte-americanos e israelenses.

A declaração ocorre em meio às preocupações com uma eventual retomada do confronto direto.

Ao mesmo tempo, o governo iraniano tenta manter aberta uma porta diplomática.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, escreveu em sua conta oficial no X que, embora as Forças Armadas iranianas estejam preparadas para defender o país, Teerã continua dando “uma chance à diplomacia”.

Segundo ele, o Irã mantém contato com mediadores na tentativa de implementar um plano de sete dias que poderia abrir caminho para negociações com os Estados Unidos.

Esse contraste resume a situação atual: os dois lados falam em negociação, mas também se preparam militarmente para a hipótese de fracasso da diplomacia.

NEGOCIAÇÕES DE ÚLTIMA HORA TENTAM EVITAR NOVO CONFRONTO

Países da região entraram em uma corrida diplomática para evitar uma nova guerra de grandes proporções.

O Catar voltou a atuar como mediador entre Washington e Teerã. Paquistão, Arábia Saudita e Turquia também participam de articulações destinadas a reduzir a tensão.

Nesta sexta-feira (30), o porta-voz militar do Paquistão, tenente-general Ahmed Sharif Chaudhry, disse estar “cautelosamente otimista” com os esforços de mediação entre Estados Unidos e Irã.

Os Emirados Árabes Unidos também pediram publicamente que as partes adotem soluções políticas e evitem o retorno de operações militares em larga escala.

A União Europeia, em suas conclusões mais recentes sobre o Oriente Médio, manifestou “grave preocupação” com a escalada militar na região e advertiu para possíveis impactos sobre energia, fertilizantes, alimentos e cadeias globais de abastecimento. (Consílio Europeu)

ESTREITO DE HORMUZ VOLTA AO CENTRO DA CRISE

Um dos pontos mais sensíveis da disputa é o Estreito de Hormuz, corredor estratégico por onde passa uma parcela significativa do petróleo e do gás comercializados mundialmente.

Ataques contra navios e instalações energéticas aumentaram a pressão sobre a região nas últimas semanas.

A Reuters informou que o Brent chegou a operar próximo de US$ 115 por barril, refletindo o temor do mercado sobre uma escalada militar e novas interrupções no fornecimento de energia.

Em outubro, ataques contra embarcações comerciais na região de Hormuz alcançaram o maior nível desde o início do acompanhamento em 2017, de acordo com dados citados pela Reuters.

É justamente esse ponto que transforma um conflito regional em uma preocupação mundial.

Se a circulação de petróleo for novamente comprometida, os efeitos podem chegar a preços de combustíveis, transporte, alimentos, fertilizantes e inflação em diversos países.

HEZBOLLAH E IÊMEN AUMENTAM O RISCO DE EXPANSÃO

A tensão não se limita a Estados Unidos e Irã.

Fontes ouvidas pela Reuters afirmaram que o Hezbollah está se preparando para a possibilidade de uma nova guerra regional, com apoio financeiro do Irã. (Reuters)

No Iêmen, forças houthis continuam realizando ataques contra alvos sauditas e rotas marítimas.

Nesta semana, ataques contra instalações de petróleo e aeroportos sauditas ampliaram a preocupação com uma eventual expansão do conflito para outros países da região.

EUROPA VIVE ONDA DE MANIFESTAÇÕES

Enquanto o Oriente Médio enfrenta risco de nova escalada militar, a Europa entra em mais um fim de semana de grandes manifestações.

É importante destacar que não existe uma única causa para todos os protestos.

As mobilizações envolvem principalmente:

  • aumento do custo de vida;
  • salários;
  • educação;
  • habitação;
  • cortes em serviços públicos;
  • aumento de gastos militares;
  • oposição ao recrutamento militar;
  • críticas às guerras em andamento.

A Associated Press registrou protestos recentes em cidades da França, Itália, Espanha, Portugal e Albânia, entre outros países.

FRANÇA COLOCA 70 MIL AGENTES NAS RUAS

A França enfrenta neste sábado (31) seu terceiro fim de semana consecutivo de grandes manifestações.

O governo francês anunciou a mobilização de 70 mil policiais e agentes de segurança em todo o país.

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, afirmou que existe risco elevado de distúrbios, especialmente durante a noite de Halloween. (Reuters)

No último fim de semana, aproximadamente 410 mil pessoas participaram das manifestações, segundo números oficiais divulgados pelas autoridades francesas.

Uma semana antes, os atos haviam reunido aproximadamente 550 mil manifestantes, mas também foram registrados saques e episódios de violência.

Os protestos começaram principalmente entre estudantes e jovens insatisfeitos com escolas e perspectivas econômicas, mas rapidamente passaram a incorporar críticas mais amplas ao custo de vida e às políticas do governo.

ALEMANHA TAMBÉM SE PREPARA PARA GRANDES ATOS

Na Alemanha, organizadores afirmam que mais de 140 mil pessoas manifestaram intenção de participar de atos neste sábado.

As manifestações estão previstas em cidades como Berlim, Frankfurt e Colônia.

Entre as reivindicações aparecem investimentos em educação, saúde, combate ao custo elevado de vida e oposição ao serviço militar obrigatório.

A mobilização tem forte presença de jovens e ganhou força nas redes sociais.

PORTUÁRIOS PROTESTAM CONTRA TRANSPORTE DE ARMAS

A dimensão dos protestos ultrapassou as manifestações de rua.

Na sexta-feira (30), trabalhadores portuários de mais de 100 portos participaram de paralisações e atos contra o transporte de armamentos e a militarização dos portos.

As mobilizações ocorreram em países como França, Itália, Grécia, Espanha, Turquia e Marrocos.

Sindicatos também fizeram reivindicações trabalhistas e defenderam o fim das guerras, incluindo o conflito em Gaza. (AP News)

UCRÂNIA SEGUE COMO OUTRO FOCO DE TENSÃO

Outro ponto que permanece no radar internacional é a guerra entre Rússia e Ucrânia.

Nos últimos dias, o Kremlin afirmou que o calendário de novas negociações para um acordo depende também do cenário no Oriente Médio. (Reuters)

O presidente Vladimir Putin declarou na quinta-feira (29) que Moscou deseja melhorar as relações com países europeus e afirmou que um confronto direto mais amplo não teria vencedores. (Reuters)

Apesar da retórica nuclear recente de Moscou envolvendo Kaliningrado, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, declarou em setembro que não existe, neste momento, uma ameaça militar iminente contra território da Aliança Atlântica.

Esse dado é importante para evitar uma interpretação exagerada de que uma guerra direta Rússia-Otan já estaria prestes a começar.

ONU PEDE CONTENÇÃO

As Nações Unidas continuam alertando para os riscos de uma escalada regional.

A ONU já pediu “máxima contenção” entre Estados Unidos e Irã e advertiu que confrontos anteriores demonstraram como o equilíbrio atual permanece frágil. (DPPA)

No Oriente Médio, o representante da ONU Ramiz Alakbarov afirmou em 15 de outubro que chegou o momento de abandonar soluções temporárias e retornar a um “processo de paz genuíno”. (Nações Unidas)

O MUNDO ESTÁ ÀS VÉSPERAS DE UMA NOVA GUERRA?

Não é correto afirmar, neste momento, que uma nova guerra mundial esteja prestes a começar.

Mas existem sinais objetivos de alto risco de escalada regional, principalmente no Oriente Médio:

Estados Unidos reforçam sua presença militar; aliados foram orientados a se preparar para possíveis novos ataques; o Irã promete responder caso seja atacado; grupos aliados de Teerã continuam ativos; e países do Golfo aceleram esforços diplomáticos para impedir outra rodada de confronto.

Ao mesmo tempo, há negociações em andamento.

Esse é o ponto central do atual cenário internacional: diplomacia e preparação militar avançam paralelamente.

E as ruas também começam a responder.

Das manifestações de jovens na França e Alemanha às greves em portos europeus, cresce a pressão popular diante do custo de vida, dos gastos militares e das consequências econômicas e sociais das guerras.

Para países distantes do campo de batalha, inclusive o Brasil, a crise também merece atenção. Uma nova explosão no preço do petróleo ou uma interrupção prolongada de importantes rotas marítimas pode pressionar combustíveis, fretes, fertilizantes, alimentos e inflação.

O mundo não está oficialmente diante de uma guerra global, mas entra em novembro com mais armas posicionadas, mais ameaças públicas, diplomacia sob pressão e milhares de pessoas ocupando as ruas.

Érica Barbosa
Érica Barbosa
Assistente social, Prof.a mestra em saúde, empresária e pesquisadora
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