A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a colocar em discussão a criação de uma universidade internacional voltada aos países da Amazônia. A proposta, defendida pelo presidente do PCdoB no Amazonas, Yann Evanovick, prevê transformar o campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), localizado em Benjamin Constant, no Alto Solimões, em uma instituição federal autônoma dedicada à integração regional.
A iniciativa pretende reunir estudantes, professores e pesquisadores de países que compartilham o território amazônico, como Brasil, Colômbia, Peru, Venezuela, Guiana e Suriname. O objetivo é ampliar a cooperação nas áreas de educação, ciência, tecnologia e preservação ambiental.
Em entrevista ao BNC Amazonas, publicada nesta terça-feira (3), Evanovick, que também atua como coordenador-geral de Políticas Educacionais para as Juventudes do Ministério da Educação (MEC), afirmou que o novo mandato de Lula representa uma oportunidade para retomar a discussão sobre o projeto.
“Nunca estivemos tão perto de aprovar uma universidade amazônica”, declarou.
Apesar da avaliação, a criação da instituição ainda depende de articulação política, definição de recursos e medidas administrativas e legislativas. Até o momento, não há anúncio oficial do governo federal sobre a implantação da universidade.
Benjamin Constant poderá sediar nova instituição
A proposta tem como ponto de partida o Instituto de Natureza e Cultura (INC), unidade acadêmica da Ufam instalada em Benjamin Constant, município situado na região de tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, a aproximadamente 1.120 quilômetros de Manaus.
Criado em 2005, o campus oferece cursos como Administração, Antropologia, Pedagogia, Letras, Ciências Agrárias e do Ambiente, além de Ciências: Biologia e Química.
Segundo Evanovick, a estrutura física existente e o quadro de profissionais da unidade poderiam servir de base para a criação de uma universidade independente, sem a necessidade de começar as atividades acadêmicas do zero.
A autonomia permitiria que a futura instituição tivesse reitoria própria, com capacidade de estabelecer relações diretamente com o Ministério da Educação e desenvolver acordos de cooperação com universidades e governos de países vizinhos.
O dirigente também defende a abertura de vagas para estudantes estrangeiros e a participação de professores visitantes, promovendo o intercâmbio de conhecimentos sobre os desafios sociais, econômicos e ambientais da Amazônia.
Modelo seria inspirado em universidades de integração internacional
A proposta toma como referência duas instituições federais brasileiras: a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), localizada em Foz do Iguaçu, no Paraná, e a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), com sede em Redenção, no Ceará.
As duas instituições foram criadas com a finalidade de promover a cooperação acadêmica e cultural entre o Brasil e outros países.
No caso da universidade amazônica, a intenção é estabelecer uma rede de produção científica voltada às particularidades da floresta e das populações que vivem na região.
Entre os temas que poderiam orientar as atividades estão a biodiversidade, os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas, o desenvolvimento sustentável e as tecnologias adequadas à realidade amazônica.
A localização de Benjamin Constant é considerada estratégica pelos defensores da proposta devido à proximidade com universidades e centros de pesquisa da Colômbia e do Peru.
Projetos anteriores foram apresentados no Congresso
A discussão sobre a criação de uma universidade internacional na Amazônia não é recente.
Em 2007, o então senador João Pedro (PT-AM) apresentou o Projeto de Lei do Senado nº 662, que autorizava o Poder Executivo a criar a Universidade do Pacto da Amazônia, com sede em Manaus.
A proposta foi aprovada no Senado e encaminhada à Câmara dos Deputados em 2008, onde passou a tramitar como PL 3.865/2008. Entretanto, acabou arquivada em agosto de 2011, após receber parecer pela inadequação financeira e orçamentária.
Outra iniciativa foi apresentada em 2010 pelo deputado federal Átila Lins, por meio do PL 6.830/2010. O texto previa a criação da Universidade Federal do Alto Solimões, com sede em Benjamin Constant, aproveitando a estrutura da Ufam existente no município. A proposta também foi arquivada.
Os projetos demonstram que a autonomia universitária no Alto Solimões e a integração acadêmica internacional são temas debatidos há quase duas décadas.
Articulação política será necessária
Para Yann Evanovick, a criação da universidade depende principalmente do envolvimento da bancada federal do Amazonas e da inclusão do projeto entre as prioridades do governo.
O dirigente argumenta que a região possui infraestrutura acadêmica e profissionais qualificados para iniciar a construção de uma instituição voltada aos interesses dos países amazônicos.
Enquanto a proposta não avança formalmente, a Ufam já desenvolve iniciativas de cooperação internacional. Em 2026, representantes da universidade participaram de uma missão acadêmica no Peru, com atividades voltadas à inovação, à bioeconomia e à ampliação de parcerias entre instituições amazônicas.
A eventual criação de uma universidade autônoma em Benjamin Constant representaria uma mudança na estrutura federal de ensino superior da região, com potencial para ampliar a oferta de cursos, as oportunidades de pesquisa e a circulação de estudantes entre países vizinhos.
Por enquanto, a iniciativa permanece no campo das propostas e depende de decisões oficiais para avançar.


