
O que era para ser apenas uma receita de domingo virou um divisor de águas na vida da confeiteira Andrea Maia, 45 anos, moradora do bairro Flores, na zona Centro-Sul de Manaus e dona da Doces da Maricota. Tudo por causa do “Morango do Amor”, uma sobremesa que viralizou nas redes sociais nos últimos dias e está alavancando o faturamento de confeiteiros por todo o Brasil.
“Fiz 100 unidades numa terça-feira. Às 13h. Em uma hora e meia vendemos tudo. O telefone não parava, congestionou tudo, tive que fechar a loja. Quase desliguei o celular e me escondi debaixo da cama”, brinca Andrea, que hoje produz cerca de 300 unidades por dia do doce coberto por brigadeiro e calda de açúcar.
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A trajetória de Andrea na confeitaria começou há 15 anos, mas foi só em 2019 que ela se profissionalizou, depois de vender a casa onde morava para investir no negócio. “Comecei com trufas, e logo os clientes começaram a procurar por bolos. Foi então que eu arrisquei tudo o que tinha, vendi a casa onde morava e me profissionalizei no Brasil em 2019.”

Mesmo acostumada com a produção de maçãs do amor durante festas juninas, ela hesitou quando viu os primeiros vídeos dos Morangos do Amor bombando online. “Quando apareceu nas redes sociais, eu relutei à princípio, por conta da agenda e toda programação que temos na semana, já que temos lojas de doces no ifood e cafés da manhã na garagem da minha casa”, lembrou.
“Então, fechei os olhos e fingi que não estava vendo. Mas os clientes não paravam de mandar mensagem. No domingo à noite, me rendi e falei: ‘Vamos fazer!’”, declarou Andreia Maia, ao portal Manaós.
A produção que virou maratona
Sem loja física, a confeitaria de Andrea se chama Doces da Maricota e funciona na garagem da casa onde mora atualmente. O que antes era tocado apenas por ela, a filha e a mãe, agora mobiliza uma equipe de seis pessoas para dar conta da demanda. Só no Ifood e delivery avulso, são mais de 100 pedidos diários, com clientes comprando, em média, duas unidades por vez.
O custo de produção de cada morango gira em torno de R$ 5,50, já com embalagem. No delivery direto, o doce é vendido por R$ 13, e pelo Ifood sai por R$ 17,89.
“Temos uma pessoa só para o Ifood, outra para o delivery, alguém separando pedidos, outra na limpeza, e eu fico postando [nas redes sociais] e ajudando na produção, além de trabalhando nas encomendas normais da semanas que já estavam agendadas. No sábado, já temos um cliente bem grande para fazer e vamos preparar os doces”, conta Andrea.
Ah, vale lembrar que os pedidos na Doces da Maricota podem ser feitos pelo número (92) 99308-0271 ou pela rede social @docesdamaricota, no Instagram.
Fenômeno econômico
A economista Denise Kassama, sócia da Objetiva Consultoria, analisa o sucesso dos Morangos do Amor como resultado direto da força das redes sociais sobre os hábitos de consumo e sobre o empreendedorismo de base.
“Hoje, graças às redes sociais, muita coisa acaba sendo impulsionada. Não deixa de ser uma forma de geração de renda, aproveitando esse buum das redes sociais. É um produto que tem sucesso porque, além de ter um sabor bom, é um preço acessível para a maioria da população”, declarou a especialista, ao portal Manaós.
A especialista destaca que o doce acerta em cheio em um momento de busca por pequenos prazeres que cabem no bolso, mas alerta que o empreendedor que deseja se manter no mercado não pode depender apenas de um produto viral.
“Mesmo em um cenário de crise, quem não tem vontade de comer um docinho? E se for bom e barato, melhor ainda. Mas, vale ressaltar, é um modismo. Hoje é o morango, ontem foi o bolo de pote. Toda hora surge alguma coisa. Os morangos podem sim consistir em uma renda adicional, mas o ideal é pensar num leque de produtor um pouco maior para quem quiser empreender nesta área”, destacou.

Para Denise, é fundamental que o empreendedor pense em um portfólio mais diversificado: “Aquele bolo caseiro, simples, de trigo. Sempre tem gente querendo comer aquele bolo de pote, com um cafezinho no fim da tarde. É sempre importante [frisar] que nenhum negócio se sustenta em cima de um produto único, porque a moda é passageira”.
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Outro ponto importante, segundo a economista Denise Kassama, é entender o público e o canal de vendas. “É preciso para quem quer vender: vou vender sozinho? No bairro? Só nos comércios? Tem que estar acompanhando o processo. Pode usar as redes sociais como uma ferramenta de divulgação e é sempre importante estar de olho nas tendências do seu mercado”
Denise também ressalta o papel da coletividade no sucesso desses pequenos negócios:
“Se você conhece alguém que está empreendendo, ajude. Compre, divulgue, não peça desconto. Quem está fazendo isso é porque precisa. Então, vamos ajudar o amigo empreendedor”, finalizou a economista.
Estatísticas
Vale lembrar que, apesar da visibilidade de casos como o de Andrea Maia, em Manaus, o Amazonas registra um dado alarmante quando o assunto é o cenário do empreendedorismo feminino. Isso porque o estado é um dos que menos possuem mulheres registradas como microempreendedoras individuais (MEIs) no Brasil.
Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em agosto de 2024, apenas 43,1% dos MEIs do Amazonas são mulheres, o que coloca o estado na segunda pior posição do país em participação feminina, à frente apenas do Tocantins (41,4%). Os números estão bem abaixo da média de estados como Rio de Janeiro (49,1%), Espírito Santo (48,5%) e Ceará (47,1%), que lideram em participação de mulheres no empreendedorismo formal.
O levantamento do IBGE revela ainda que, mais do que oportunidade, a formalização como MEI foi uma necessidade para boa parte dos brasileiros, principalmente após a perda de empregos com carteira assinada. De acordo com o estudo, mais da metade dos que se tornaram MEIs em 2022 fizeram isso por necessidade econômica, e não como parte de um planejamento estratégico de carreira.
Em Manaus
Por outro lado, Manaus consolidou-se em 2022 como a capital com o maior número de MEIs na Região Norte, ao registrar 114.171 microempreendedores individuais, ainda segundo dados divulgados em 2024 pelo IBGE.
Com os dados, Manaus passou a 11ª posição nacional, superando outras cidades da região como Belém, com 97.848 MEIs, e Palmas (TO), com 30.609 MEIs.
Estímulo
Na análise do economista Eduardo Souza, a tendência dos “Morangos do Amor”, por outro lado, reforça um movimento já observado em outras áreas como estética, beleza e culinária, onde há predominância de atuação feminina.
“Como estamos falando de morango do amor, que está relacionado à confeitaria, sem dúvida gera um estímulo, direto ou indireto, às empreendedoras do sexo feminino. Boa parte do público feminino atua nesse setor. Há uma tendência maior de mulheres se interessarem e integrarem esse mercado”, disse.
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Eduardo também destacou que o fenômeno se enquadra em um momento de “sazonalidade econômica positiva”, no qual um produto atinge alta procura em curto período.
“Ou seja, mais pessoas vão começar a produzir, vai se produzir em maior quantidade e maior escala, o que vai fazer com que gere não só a criação de novos MEIs voltados pra área da confeitaria, mas também um aumento de produção”, explicou.

“Toda vez que há aumento na procura por um produto, a produção também se eleva para atender à nova necessidade do consumidor”, continuou.
Para o economista Eduardo Souza, o poder público pode (e deve) ter papel ativo nesse processo, facilitando a formalização e reduzindo a carga tributária sobre quem está começando.
“Existem várias formas de incentivar o surgimento e o desenvolvimento de micro e pequenos empresários— seja na categoria MEI ou ME. Por parte do governo, o que pode ser feito é relacionado à menor tributação, mais incentivos fiscais para que as pessoas se sintam incentivadas a produzir mais, com um custo de impostos menos pesado. Isso pode, consequentemente, alavancar o crescimento dos empresários”, elencou o especialista.
Souza destaca, contudo, que o sucesso de um negócio não depende apenas de incentivos externos. “Existem outras medidas que são que partem por parte do empreendedor, que também são fundamentais para o bom funcionamento da empresa e para o retorno financeiro dela: o planejamento financeiro, orçamentário, a gestão financeira, a gestão do negócio feito da forma correta, a educação financeira, são coisas que o próprio empresário pode buscar conhecer”, concluiu o economista Eduardo Souza.
Por: Bruno Pacheco
Ilustração: Gabriel Torres
Revisão Jurídica: Letícia Barbosa




