sábado, março 7, 2026
Home Notícias Amazonas Mais de 40 mil crianças e adolescentes vivem como casadas no AM: ‘As consequências...

Mais de 40 mil crianças e adolescentes vivem como casadas no AM: ‘As consequências são profundas’, diz especialista

Terapeuta Samiza Soares alerta que qualquer interrupção brusca no processo natural de desenvolvimento emocional em crianças e adolescentes pode gerar consequências profundas

0
146
(crédito: Imagem gerada por IA/via ChatGPT)

O Censo Demográfico 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no último dia 5 de novembro, revelou um dado alarmante: cerca de 40.391 crianças e adolescentes, entre 10 e 19 anos, viviam em união conjugal no Amazonas. A pesquisa expõe uma realidade preocupante marcada por desigualdade de gênero e vulnerabilidade social, já que a maioria das pessoas nessas uniões são meninas, e é vista por especialistas como alarmante e podendo gerar consequências profundas na vida desses jovens.

De acordo com o levantamento, 1.672 crianças de 10 a 14 anos viviam em união conjugal no estado em 2022. Essas uniões incluem casamentos civis e religiosos, apenas civis, apenas religiosos e uniões consensuais — categoria que representa a maior parte dos casos.

Leia mais: Nova lei obriga plataformas a proteger crianças e adolescentes de conteúdos nocivos

Entre adolescentes de 15 a 19 anos, o número sobe para 38.719, sendo 36.014 em união consensual, ou seja, sem qualquer formalização legal ou religiosa, ainda de acordo com os dados do IBGE.

(Fonte: IBGE)

Os dados mostram ainda um recorte por gênero que evidencia a desigualdade: 420 meninos entre 10 e 14 anos e 10.508 entre 15 e 19 anos viviam em situação conjugal, enquanto entre as meninas os números são muito maiores — 1.251 de 10 a 14 anos e 28.211 de 15 a 19 anos. Isso significa que a grande maioria dos jovens que vivem essas uniões são meninas, reforçando o alerta sobre o casamento infantil e suas consequências sociais e psicológicas.

Crime

O tema também traz implicações legais graves: a conjunção carnal com menores de 14 anos é considerada estupro de vulnerável, conforme o Código Penal Brasileiro. Mesmo quando há alegação de consentimento, a lei entende que menores dessa faixa etária não possuem discernimento suficiente para consentir em relações dessa natureza.

No contexto nacional, o Censo 2022 aponta que mais da metade (51,3%) da população de 10 anos ou mais vivia em união conjugal, o que equivale a 90,3 milhões de pessoas. Pela primeira vez, o tipo de união mais comum no país foi a união consensual (38,9%), superando o casamento civil e religioso (37,9%). Em comparação com o ano 2000, houve aumento nas uniões apenas civis e consensuais, enquanto diminuíram as uniões formais.

Os dados fazem parte da publicação “Censo Demográfico 2022: Nupcialidade e Família – Resultados Preliminares da Amostra”, divulgada pelo IBGE, e levantam um alerta sobre a persistência de práticas de casamento precoce no Amazonas e no Brasil — uma realidade que atinge, sobretudo, meninas e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

Situação alarmante

Na última terça-feira, 11, um caso de casamento infantil chamou a atenção no Amazonas. A Polícia Civil do Estado, por meio da Delegacia Especializada de Polícia (DEP) de Manacapuru (a 68 quilômetros de Manaus), em conjunto com o Conselho Tutelar do município, prendeu em flagrante, um homem, de 33 anos, por estupro de vulnerável contra uma criança de 11 anos.

Segundo a polícia, o pai da vítima, de 38 anos, era conivente com o crime. O delegado Paulo Mavignier, diretor do Departamento de Polícia do Interior (DPI), lembrou dos dados divulgados pelo IBGE, que apontam que mais de 34 mil pessoas com idades entre 10 e 14 anos vivem em união conjugal no Brasil com maiores de idade.

“Esse número de nível nacional é alarmante e hoje nós mostramos que estamos combatendo essa prática no Amazonas, reforçando nosso compromisso com a proteção integral das crianças e adolescentes”, afirmou o delegado.

Consequências profundas

Para terapeuta psicanalista especializada em saúde mental Samiza Soares, que é referência no atendimento terapêutico no Estado e em todo país, qualquer interrupção brusca no processo natural de desenvolvimento emocional em crianças e adolescentes pode gerar consequências profundas.

Segundo a especialista, a infância e a adolescência são fases em que o jovem ainda está construindo referências internas, aprendendo a lidar com emoções, estabelecer limites e desenvolver autonomia.

“Quando ocorre um casamento precoce, esses processos são interrompidos. Psicologicamente, isso pode resultar em ansiedade, medo constante, tristeza profunda, sentimentos de inadequação e até traumas relacionados ao excesso de responsabilidade”, alertou Samiza Soares.

Terapeuta psicanalista especializada em saúde mental, Samiza Soares (Arquivo pessoal/Reprodução)

Ainda de acordo com a terapeuta, meninas e meninos passam a carregar cobranças emocionais e sociais para as quais não estão preparados. “É como se fossem empurrados para um papel adulto sem que tenham concluído etapas essenciais do crescimento emocional”, destacou.

Confira a entrevista com a especialista

Portal Manaós – Quais são os principais impactos psicológicos e emocionais que o casamento infantil pode causar em meninas e meninos que ainda estão em fase de desenvolvimento?

Samiza Soares – Como terapeuta, vejo que qualquer interrupção brusca no processo natural de desenvolvimento emocional pode gerar consequências profundas. A infância e a adolescência são fases em que o jovem ainda está construindo referências internas, aprendendo a lidar com emoções, estabelecer limites e desenvolver autonomia.

Quando ocorre um casamento precoce, esses processos são interrompidos. Psicologicamente, isso pode resultar em ansiedade, medo constante, tristeza profunda, sentimentos de inadequação e até traumas relacionados ao excesso de responsabilidade.

Meninas e meninos passam a carregar cobranças emocionais e sociais para as quais não estão preparados. É como se fossem empurrados para um papel adulto sem que tenham concluído etapas essenciais do crescimento emocional.

Portal Manaós – Como essas uniões precoces podem afetar a saúde mental e o processo de construção da identidade na adolescência?

Samiza Soares – A adolescência é uma fase marcada pela busca interna: “Quem sou eu?”, “Do que gosto?”, “O que quero construir?”. Como terapeuta, entendo que é justamente nesse período que a identidade começa a se formar, e isso exige tempo, liberdade e experiências compatíveis com a idade.

Quando uma união acontece cedo demais, esse processo é prejudicado. O jovem passa a moldar sua identidade não pelas próprias vivências, mas pelas exigências da relação, pelo medo de falhar, pela dependência emocional e pelas obrigações impostas.

Isso pode gerar baixa autoestima, dificuldade de se expressar, confusão interna e uma sensação de perda de si mesmo. Muitas vezes, esse impacto acompanha a pessoa até a vida adulta, interferindo na forma como ela se relaciona e como enxerga seu próprio valor.

Portal Manaós – De que forma o contexto de vulnerabilidade social e desigualdade de gênero contribui para perpetuar esse tipo de situação, e quais caminhos poderiam ajudar a preveni-la?
Samiza Soares – Do ponto de vista psicológico e social, entendo que o casamento infantil não surge isoladamente. Ele é consequência de vulnerabilidades acumuladas: pobreza, violência doméstica, falta de acesso à educação, ausência de políticas públicas e desigualdade de gênero.
Em muitos lugares, famílias acreditam por tradição ou por necessidade que a união precoce é uma forma de proteção. Mas, na verdade, ela aprofunda desigualdades e interrompe projetos de vida.
Para prevenir, precisamos de várias frentes:
•Educação como ferramenta de proteção.
•Políticas públicas que deem segurança e alternativas reais.
•Apoio psicológico e social às famílias.
•Ações comunitárias que mudem narrativas culturais.
•Fortalecimento emocional de meninas e meninos, para que saibam reconhecer seu valor e seus direitos.
Acredito que quando a sociedade protege suas crianças, ela constrói um futuro mais saudável e menos desigual.

Portal Manaós – Pode deixar um espaço para divulgar seu trabalho e famílias que queiram lhe procurar para atendimentos?

Samiza Soares – Com carinho. 🧡

Sou psicanalista e, há mais de 10 anos, trabalho acompanhando crianças, adolescentes, adultos e famílias, sempre com uma escuta ética, sensível e humana.
Acredito profundamente no poder do acolhimento
emocional para romper ciclos, fortalecer vínculos e permitir que cada pessoa construa uma vida mais leve e consciente.

Realizo atendimentos online e presenciais, inclusive para brasileiros que vivem fora do país. Meu espaço terapêutico é seguro, sigiloso e dedicado ao cuidado integral da saúde emocional.

Famílias que desejarem apoio podem entrar em contato pelo Instagram @samiza ou pelo WhatsApp (92) 99237-1973. Será um prazer acolher com calma, respeito e responsabilidade clínica.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here