Após a morte do menino Benício Xavier de Freitas, de 6 anos, o Conselho Regional de Farmácia do Amazonas (CRF-AM) realizou neste fim de semana uma vistoria técnica no Hospital Santa Júlia e identificou falta de farmacêuticos e irregularidades na análise de prescrições na unidade hospitalar. A criança veio a óbito em 23 de novembro, e o caso é investigado como possível erro médico após a família denunciar que ele recebeu adrenalina por via intravenosa durante atendimento de emergência.
Em nota oficial divulgada na sexta-feira (29), o CRF-AM informou que a fiscalização verificou os fluxos de assistência farmacêutica e constatou que não há análise farmacêutica prévia das prescrições emitidas nas farmácias satélites do Pronto-Socorro e do Centro Cirúrgico. Segundo a instituição, o hospital justificou a falha afirmando que mantém um quadro reduzido de farmacêuticos, o que impede a revisão obrigatória das prescrições antes da dispensação.
A vistoria também apontou que não houve participação de profissionais farmacêuticos na dispensação do medicamento administrado no atendimento de Benício — etapa considerada essencial para a segurança dos pacientes e exigida pela legislação.
O Conselho informou ainda que os protocolos internos e documentos apresentados pelo hospital seguem em análise técnica. Um relatório oficial será elaborado e encaminhado ao Ministério Público do Amazonas (MP-AM) e à Polícia Civil, que conduz a investigação sobre a morte da criança.
O presidente do CRF-AM, Reginaldo da Silva Costa, reforçou que a presença e atuação de farmacêuticos “em todas as etapas do processo de medicação é requisito legal e essencial para a segurança dos pacientes”. O órgão afirmou que continuará acompanhando o caso e adotará todas as medidas cabíveis dentro de sua competência.
O Hospital Santa Júlia já havia informado, em nota anterior, que afastou a médica e a técnica de enfermagem envolvidas no atendimento e que colabora com as autoridades responsáveis pela apuração.
Veja a nota oficial do CRF-AM na íntegra:
NOTA OFICIAL – CRF/AM
O Conselho Regional de Farmácia do Amazonas (CRF-AM) informa que realizou vistoria técnica no Hospital Santa Júlia após tomar conhecimento do óbito de uma criança ocorrido em 23/11/2025.
A fiscalização verificou os fluxos de assistência farmacêutica e constatou que não há análise farmacêutica prévia das prescrições emitidas nas farmácias satélites do Pronto-Socorro e do Centro Cirúrgico, em razão do quadro reduzido de farmacêuticos informado pela instituição. Assim, ficou evidenciado que não houve participação do profissional farmacêutico na dispensação do medicamento envolvido no caso.
Protocolos internos e documentos apresentados pelo hospital seguem em análise técnica para elaboração do relatório oficial, que será encaminhado ao Ministério Público e à Polícia Civil.
O CRF-AM reforça que a presença e atuação do farmacêutico em todas as etapas do processo de medicação é requisito legal e essencial para a segurança dos pacientes. O Conselho seguirá acompanhando o caso e adotando todas as medidas cabíveis dentro de sua competência.
Dr. Reginaldo da Silva Costa
Presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado do Amazonas – CRF-AM
Manaus, 29 de Novembro de 2025
O caso
Benício Xavier de Freitas deu entrada no Hospital Santa Júlia com sintomas de tosse seca e suspeita de laringite. Segundo a família, durante o atendimento, a médica responsável prescreveu três doses de adrenalina por via intravenosa, cada uma de 3 ml a cada 30 minutos. O pai do menino afirmou que questionou a técnica de enfermagem ao ver a prescrição, mas ouviu que seguiria o que estava registrado no prontuário.
Após a primeira aplicação, Benício apresentou piora súbita, incluindo taquicardia, palidez e dificuldade para respirar. Ele foi levado para a sala vermelha e, posteriormente, transferido para a UTI Pediátrica, onde o quadro continuou se agravando. Durante o processo de intubação, ainda no sábado, a criança sofreu as primeiras paradas cardíacas.
O menino não resistiu e morreu às 2h55 do domingo (24). Laudos internos da UTI indicaram “administração errônea de adrenalina na veia” e apontaram sinais compatíveis com efeitos tóxicos da droga no sistema nervoso.
A médica Juliana Brasil Santos reconheceu, em relatório interno, que errou ao prescrever a medicação por via intravenosa e afirmou ter se surpreendido pelo fato de a equipe de enfermagem não questionar a ordem.
A Polícia Civil investiga o caso como possível homicídio doloso, sob argumento de que houve assunção de risco. A médica e a técnica de enfermagem foram ouvidas e apresentaram versões divergentes sobre o atendimento, o que levou o delegado responsável a determinar que será realizada acareação entre as duas profissionais.
A Justiça, porém, concedeu habeas corpus preventivo à médica, impedindo prisão durante as investigações. O caso segue em investigação.
Outro lado
A reportagem buscou o Hospital Santa Júlia para solicitar um posicionamento. Por meio de nota, contudo, a assessoria de imprensa da unidade hospitalar destacou que, como a condução do caso está com as autoridades policiais, o Santa Júlia prefere não se pronunciar neste momento. A redação também tenta contato com a defesa da médica responsável. O espaço segue aberto para devidas manifestações.



