A dez meses das eleições presidenciais de 2026, o Brasil permanece marcado por um cenário de forte polarização política. Após a camisa amarela da Seleção Brasileira ser associada a apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, outro produto tipicamente nacional passou a ser interpretado sob uma lente política: as sandálias Havaianas.
O episódio ganhou repercussão internacional após reportagem do The New York Times, que destacou como uma campanha publicitária da marca acabou inserida no centro do embate político brasileiro. Segundo o jornal norte-americano, a publicidade “reacendeu divisões políticas latentes no Brasil”, em um contexto de tensão agravado pela recente condenação judicial de Bolsonaro, acusado de planejar um golpe de Estado após a derrota eleitoral.
A campanha, exibida em rede nacional e estrelada pela atriz Fernanda Torres, foi alvo de críticas e pedidos de boicote por grupos alinhados à direita. A reação ocorreu após interpretações políticas atribuídas ao discurso da peça publicitária, o que levou a marca a ser associada, nas redes sociais, a apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A controvérsia ganhou tração com a atuação de aliados do ex-presidente, incluindo seus filhos, e rapidamente se espalhou por plataformas digitais, gerando memes, debates e ampla cobertura da imprensa.
Na reportagem publicada no dia de Natal, o New York Times afirmou que a sandália “favorita do Brasil” foi arrastada para uma “tempestade política”, ressaltando que, apesar das divisões que fragmentam o país, o apreço pelas Havaianas sempre foi um raro ponto de consenso nacional — até agora. O jornal também contextualizou o episódio no ambiente de radicalização intensificado após decisões recentes do Supremo Tribunal Federal envolvendo Bolsonaro.
A percepção de um país dividido é corroborada por dados da mais recente pesquisa Datafolha, realizada entre os dias 2 e 4 de dezembro, com mais de 2 mil entrevistados em 113 municípios. O levantamento aponta que 74% dos brasileiros se identificam com algum dos dois polos políticos: 40% se dizem alinhados ao presidente Lula, enquanto 34% se declaram simpatizantes de Bolsonaro. Outros 18% afirmam ser neutros, 6% não apoiam nenhum dos lados e 1% não soube responder.
O estudo também revela diferenças no perfil dos eleitores. O petismo concentra maior apoio entre mulheres, aposentados, pessoas com menor escolaridade, moradores do Nordeste e católicos. Já o bolsonarismo apresenta maior adesão entre homens, empresários, eleitores de renda intermediária, moradores da região Sul e evangélicos. Pesquisas recentes indicam ainda que Lula segue à frente nas intenções de voto para 2026, tanto no primeiro quanto no segundo turno.
Para analistas ouvidos pela imprensa internacional, a politização de produtos de consumo evidencia como a polarização brasileira tem se aprofundado, atingindo dimensões culturais e simbólicas da vida cotidiana — um traço que, segundo o New York Times, ajuda a explicar por que o país segue dividido mesmo fora do período oficial de campanha.




