O aumento de casos de influenza sazonal em diferentes regiões do mundo tem preocupado autoridades de saúde. Parte desse crescimento está associada à chamada gripe K, uma variante do vírus influenza A (H3N2) que vem se espalhando desde meados de 2025 e já foi identificada no Brasil no fim do ano passado.
Apesar do nome, a gripe K não é uma nova doença, mas sim uma variação genética de um vírus já conhecido. O subtipo tem circulado em países da Europa, Ásia e América do Norte, acompanhando o padrão sazonal da doença, mais comum em períodos de frio.
A rápida disseminação da variante, observada principalmente a partir de agosto de 2025, fez com que ela ficasse de fora da composição das vacinas contra gripe previstas para o inverno de 2026. Isso ocorre porque a definição das cepas incluídas nos imunizantes segue um calendário internacional e é feita com antecedência, com base no monitoramento da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Mesmo sem atualização específica para essa variante, especialistas garantem que a vacina continua sendo uma ferramenta essencial de proteção. Em dezembro, a OMS informou que os imunizantes atuais ainda são eficazes na prevenção de casos graves e hospitalizações causados pela gripe K.
No Brasil, a vacina distribuída pelo Instituto Butantan inclui uma cepa do influenza A (H3N2), além de variantes do H1N1 e do influenza B (linhagem Victoria), o que contribui para a proteção cruzada contra o novo subtipo.
O pesquisador científico e gerente de Desenvolvimento e Inovação de Produtos do Butantan, Paulo Lee Ho, destaca a importância da vacinação anual, especialmente para os grupos mais vulneráveis.
“É extremamente importante que as pessoas tomem a vacina Influenza atualizada durante a campanha de vacinação, que ocorre antes do período de maior circulação do vírus. As evidências mostram que pessoas vacinadas que se infectaram com a cepa K ficaram protegidas contra os sintomas graves da doença”, afirma.
Segundo ele, o aumento de infecções é esperado diante do surgimento de novas variantes, e a ampliação da cobertura vacinal é fundamental para reduzir a transmissão.
Origem e características da variante
A gripe K, também identificada como J.2.4.1, deriva do subclado J.2 do vírus H3N2 e apresenta sete mutações genéticas. Essas alterações permitem que o vírus escape parcialmente da resposta imunológica, favorecendo o aumento de infecções.
De acordo com especialistas, essas mutações surgiram de forma natural, resultado da evolução do próprio vírus ao longo do tempo.
“A cepa K foi selecionada naturalmente; ela foi ‘escapando’ do sistema imune com a aquisição de cada uma dessas mutações”, explica Paulo Lee Ho.
Apesar da maior transmissibilidade, a OMS informa que não há evidências de que a variante provoque quadros mais graves da doença em comparação a outras cepas já conhecidas.
Há risco de pandemia?
A possibilidade de uma nova pandemia preocupa parte da população, mas, segundo especialistas, o cenário atual não indica esse risco.
Cepas com potencial pandêmico costumam surgir a partir de recombinações genéticas mais complexas, quando diferentes vírus infectam o mesmo hospedeiro e trocam material genético, o que não ocorreu com a variante K.
“A literatura mostra que, para chegar a uma cepa pandêmica, com elevado potencial de transmissão, é necessário haver mudanças genéticas muito mais profundas”, afirma o pesquisador.
Como exemplo, ele cita a pandemia de H1N1 em 2009, que resultou de múltiplos rearranjos genéticos envolvendo vírus de origem suína, aviária e humana.
Por que o vírus muda tanto?
A alta capacidade de mutação do vírus influenza está ligada à sua própria estrutura. Trata-se de um vírus de RNA que consegue se replicar rapidamente, mas sem mecanismos eficientes de correção de erros.
“Isso significa que, quando o vírus se replica, se um nucleotídeo é posicionado da forma errada, diferente da fita de RNA original, ele não é corrigido, gerando assim uma mutação no material genético”, resume Paulo Lee Ho.
Vacinação disponível ao longo do ano

Desde abril de 2025, a vacina contra a gripe passou a integrar o calendário de vacinação de rotina para crianças de 6 meses a menores de 6 anos, gestantes e idosos a partir de 60 anos. Para esses grupos, o imunizante está disponível durante todo o ano nas unidades de saúde.
Já os demais públicos prioritários, como profissionais da saúde, professores, pessoas com doenças crônicas, integrantes das forças de segurança e população privada de liberdade, continuam sendo atendidos principalmente durante campanhas sazonais.
A Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe de 2026 está prevista para ocorrer entre março e abril. Especialistas reforçam que a adesão à imunização segue sendo a principal estratégia para reduzir complicações e conter a disseminação do vírus.
*Com informações do Instituto Butantan




