O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou nesta semana o programa Desenrola 2.0, nova etapa da política federal de renegociação de dívidas voltada para brasileiros inadimplentes. A iniciativa prevê descontos de até 90%, juros limitados a 1,99% ao mês e parcelamento em até 48 meses para consumidores com renda de até cinco salários mínimos.
O relançamento do programa, contudo, tem enfrentado críticas por ocorrer em pleno ano eleitoral. Na última quarta-feira (5), o jornal O Globo publicou um artigo de opinião classificando o novo Desenrola como um “programa eleitoreiro com efeito nocivo” e afirmando que o “perdão ou alívio recorrente a dívidas pune o bom pagador e cria incentivo à irresponsabilidade”.
A iniciativa também permitirá o uso de até 20% do saldo do FGTS para quitar débitos. O programa vale para dívidas contratadas até 31 de janeiro de 2026 e com atraso entre 90 dias e dois anos. Além disso, o Desenrola 2.0 contempla modalidades específicas para famílias, estudantes do Fies, produtores rurais e pequenas empresas.
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Segundo o governo federal, o objetivo é reduzir o endividamento das famílias, estimular o consumo e melhorar a circulação de crédito na economia. Durante o lançamento, Lula afirmou que a medida busca fazer os brasileiros “voltarem a respirar” financeiramente.
Para a economista Denise Kassama, o programa pode trazer efeitos positivos no curto prazo, principalmente em um cenário de elevado endividamento da população brasileira.
“Num cenário da economia brasileira em que mais de 50% da população adulta está endividada, o Desenrola Brasil 2.0 pode realmente ajudar, principalmente no curto prazo, a trazer um alívio no bolso das famílias. Com esse alívio, pode ajudar a melhorar as contas das famílias”, explicou.
Apesar disso, a economista pondera que o programa deveria incluir medidas voltadas à educação financeira para evitar que o problema do endividamento volte a crescer futuramente.
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“Eu não vi no programa algo relacionado à reeducação financeira. Senão, no longo prazo, o problema volta a acontecer. É importante reduzir os juros e o endividamento, mas também é importante investir em educação financeira para não perpetuar esse ciclo ruim para o brasileiro e para a economia”, afirmou Denise Kassama.
A economista também destacou o impacto positivo da limitação dos juros em um cenário de taxa Selic elevada.
“Com uma Selic acima de 14%, qualquer alívio na taxa de juros reduz a dívida e pode fazer sobrar mais recursos para o consumo das famílias. Hoje, uma taxa de 1,99% ao mês é excelente diante da economia atual”, avaliou.

Denise Kassama também criticou os juros praticados no país e afirmou que eles são um dos principais responsáveis pelo endividamento das famílias brasileiras.
“Eu tenho críticas à atual taxa de juros, que considero draconiana e uma das grandes responsáveis pelo processo de endividamento das famílias”, declarou.
Ano eleitoral
Além do impacto econômico, o lançamento do Desenrola 2.0 ocorre em um contexto político estratégico. Com as eleições presidenciais de 2026 se aproximando, programas voltados ao crédito e ao alívio financeiro costumam ter forte alcance popular.
Questionada sobre o potencial impacto eleitoral do programa, Denise afirmou que medidas econômicas dessa natureza podem, sim, gerar ganhos políticos para o governo.
“É evidente que quem está no controle da máquina pública vai tentar capitalizar isso eleitoralmente, principalmente em ano eleitoral. Isso faz parte da política brasileira. O programa pode ajudar na popularidade do presidente, sem dúvida nenhuma”, disse.
Apesar disso, a economista ressalta que o possível ganho político não elimina a necessidade da medida.
“Mesmo que exista uso político, isso não tira o mérito da necessidade de trabalhar essa pauta. O programa resolve um problema imediato, mas, se não houver educação financeira e uma discussão sobre os juros altos no Brasil, esse ciclo de endividamento pode voltar”, concluiu Denise Kassama.
VIA O CONVERGENTE


