A Copa do Mundo de 2026 promete marcar uma nova era para o futebol mundial. Pela primeira vez, o torneio contará com 48 seleções, será realizado em três países e terá 104 partidas ao longo da competição. No entanto, enquanto os preparativos avançam dentro dos estádios, uma disputa fora de campo já chama atenção da comunidade internacional: os impactos da política migratória dos Estados Unidos sobre o turismo, a economia e a imagem do país.
Sede principal do Mundial ao lado de Canadá e México, os Estados Unidos apostam na competição como uma oportunidade para impulsionar o turismo, atrair investimentos e fortalecer sua influência global. Entretanto, especialistas, entidades de direitos humanos e representantes do setor turístico alertam que regras migratórias mais rígidas podem limitar parte dos benefícios econômicos esperados para o evento.
Copa do Mundo deve impulsionar turismo internacional
A expectativa é que milhões de torcedores circulem entre os países-sede durante a Copa de 2026. Para os Estados Unidos, o torneio representa uma das maiores oportunidades de movimentação econômica da década.
Dados do Escritório Nacional de Viagens e Turismo dos EUA apontam que o país recebeu 68,3 milhões de visitantes internacionais em 2025 e projeta alcançar cerca de 70,5 milhões em 2026, impulsionado em parte pela realização do Mundial.
Além disso, a U.S. Travel Association estima que os gastos de turistas estrangeiros poderão atingir aproximadamente US$ 178 bilhões em 2026. Mesmo assim, o setor avalia que a recuperação do turismo internacional segue em ritmo mais lento do que o esperado após os impactos da pandemia.
Na prática, o sucesso da Copa pode gerar efeitos diretos em hotéis, restaurantes, aeroportos, transporte urbano, comércio e serviços. Porém, a percepção de dificuldades para entrar no país passou a ser vista como um fator de risco para parte desse potencial econômico.
Turismo americano perdeu espaço no mercado global
Embora os Estados Unidos permaneçam como o maior mercado turístico do planeta, o país vem enfrentando desafios para recuperar participação no fluxo internacional de visitantes.
Relatórios do Conselho Mundial de Viagens e Turismo indicam que, enquanto diversos destinos registraram crescimento no turismo internacional em 2025, os Estados Unidos perderam participação em visitantes estrangeiros e nos gastos realizados por turistas internacionais.
Entre os fatores apontados por analistas estão o aumento da concorrência global, custos elevados de viagem e a percepção de processos migratórios mais rigorosos.
Nesse cenário, a Copa surge como uma oportunidade estratégica para reverter parte dessa tendência. Porém, o resultado dependerá também da experiência oferecida aos visitantes antes mesmo do embarque.
Casos recentes ampliam debate sobre entrada nos EUA
A discussão ganhou repercussão internacional após episódios envolvendo participantes ligados ao Mundial.
Um dos casos mais comentados ocorreu com o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, que teve sua entrada negada nos Estados Unidos por motivos relacionados à segurança nacional, segundo autoridades americanas. A situação gerou repercussão global e reacendeu o debate sobre os impactos das políticas migratórias em grandes eventos esportivos.
Em resposta, a FIFA reforçou que não possui autoridade para interferir nas decisões migratórias adotadas pelos países-sede.
Outro episódio envolveu integrantes da delegação do Irã. Relatos indicaram dificuldades na obtenção de vistos para membros administrativos e de apoio, situação que contribuiu para ajustes no planejamento logístico da seleção durante a preparação para a competição.
Os acontecimentos aumentaram as preocupações de organizações internacionais de direitos humanos, que alertam para possíveis barreiras enfrentadas por torcedores, jornalistas, trabalhadores imigrantes e representantes de países submetidos a restrições específicas.
Governo americano reforça critérios de segurança
As autoridades dos Estados Unidos defendem que os controles migratórios são necessários para garantir a segurança pública e nacional.
O Departamento de Estado mantém processos rigorosos de análise consular e ressalta que a emissão de vistos segue critérios legais e de segurança previamente estabelecidos.
Ao mesmo tempo, buscando minimizar impactos para o Mundial, a FIFA e o governo americano implementaram mecanismos para facilitar o acesso de torcedores aos procedimentos de visto.
Entre eles está o FIFA PASS, sistema que oferece prioridade no agendamento de entrevistas consulares para pessoas que adquiriram ingressos oficiais da Copa do Mundo.
Contudo, o benefício não representa aprovação automática do visto nem garante a entrada no país. A decisão final continua sob responsabilidade das autoridades migratórias americanas.
Exigência de caução gera preocupação entre torcedores
Outro ponto que tem gerado debate internacional é o chamado “visa bond”, uma espécie de caução financeira exigida de cidadãos de determinados países.
O valor pode variar entre US$ 5 mil, US$ 10 mil e US$ 15 mil, conforme critérios definidos pelas autoridades americanas.
Para reduzir impactos durante a Copa, o governo dos Estados Unidos anunciou isenções específicas para determinados viajantes ligados ao evento. Entretanto, o benefício depende do cumprimento de requisitos estabelecidos pelas autoridades consulares e das regras associadas ao FIFA PASS.
Mesmo com essas flexibilizações, especialistas avaliam que custos adicionais e processos burocráticos podem influenciar a decisão de parte dos torcedores internacionais.
Copa de 2026 será um teste para a imagem dos EUA
Além dos aspectos esportivos, a Copa do Mundo de 2026 se transformou em um importante teste diplomático e econômico para os Estados Unidos.
O desafio do governo americano será equilibrar as políticas de segurança de fronteira com a necessidade de receber milhões de visitantes de diferentes nacionalidades.
Para a FIFA, o objetivo é garantir que o maior evento esportivo do planeta seja lembrado pela experiência dos torcedores, pela organização e pela celebração do futebol, e não por dificuldades relacionadas à entrada nos países-sede.
Do ponto de vista econômico, a relação é direta: quanto maior o fluxo de turistas, maior o consumo em hotéis, restaurantes, transporte, comércio e entretenimento.
Por isso, a forma como os Estados Unidos receberão os visitantes poderá influenciar não apenas os resultados financeiros da competição, mas também a percepção internacional sobre o país.
Em 2026, os Estados Unidos serão avaliados não apenas pelos estádios, pela infraestrutura e pela segurança dos jogos. Também estarão sob observação pela maneira como recebem — ou deixam de receber — milhões de pessoas que viajarão para acompanhar o maior espetáculo do futebol mundial.


