O El Niño, fenômeno natural associado ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, não provoca apenas impactos ambientais. Seus efeitos também chegam diretamente à saúde da população. Em regiões como a Amazônia, onde o fenômeno pode favorecer períodos de seca, calor intenso, redução de chuvas e aumento do risco de queimadas, a principal preocupação sanitária é a exposição à fumaça e à poluição do ar.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, o El Niño pode causar uma ampla variedade de problemas de saúde, incluindo surtos de doenças, desnutrição, estresse térmico e doenças respiratórias. A OMS também alerta que secas e incêndios associados a eventos climáticos extremos aumentam a poluição ambiental, com impacto direto sobre a saúde respiratória e cardiovascular.
O que muda na saúde durante o El Niño?
Durante períodos de El Niño, algumas regiões podem enfrentar estiagem mais severa, altas temperaturas e maior risco de incêndios florestais. No caso da Amazônia, esse cenário favorece a concentração de fumaça, material particulado e gases tóxicos no ar, que podem atingir até cidades distantes dos focos de queimadas.
O Ministério da Saúde alerta que a fumaça pode ser transportada pelo vento e afetar populações mesmo longe dos focos de calor. A pasta também mantém ações de vigilância em saúde ambiental para analisar a situação de populações expostas à poluição atmosférica e orientar estados e municípios no planejamento das ações do SUS.
Doenças respiratórias no Amazonas
No Amazonas, o risco se concentra principalmente no período de estiagem, quando o baixo volume de chuvas e o aumento de queimadas podem piorar a qualidade do ar. A Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas — FVS-RCP — já emitiu orientações aos serviços de saúde sobre sintomas relacionados à exposição à fumaça, considerando tempo de exposição e vulnerabilidades individuais, como presença de doenças respiratórias anteriores.
Entre os sintomas mais comuns provocados pela fumaça estão dor de cabeça, ardência nos olhos, irritação no nariz e na garganta, rouquidão, tosse seca, dificuldade para respirar e cansaço. A Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas orienta que, em caso de agravamento dos sintomas, a pessoa deve procurar a unidade de saúde mais próxima.
As doenças e agravos que podem aumentar nesses períodos incluem:
- Asma e crises alérgicas respiratórias;
- Bronquite e doença pulmonar obstrutiva crônica;
- Rinite, sinusite e irritação nasal;
- Conjuntivite e ardência nos olhos;
- Infecções respiratórias;
- Piora de doenças cardíacas;
- Cansaço, dor de cabeça, tontura e mal-estar por calor e fumaça.
A Fiocruz aponta que a exposição a partículas de aerossóis das queimadas afeta diretamente a saúde humana e está associada ao aumento de doenças respiratórias, como asma e bronquite, especialmente em grupos mais vulneráveis.
Quem corre mais risco?
Os grupos mais vulneráveis são crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças respiratórias, cardíacas, imunológicas e trabalhadores que ficam muito tempo expostos ao ar livre.
O Ministério da Saúde reforça que crianças, idosos, gestantes e pessoas com comorbidades devem redobrar cuidados, aumentar a hidratação, reduzir a exposição à fumaça e manter acompanhamento nas unidades básicas de saúde ou serviços de referência.
Impactos na rotina do Amazonas
No dia a dia da população amazonense, o El Niño pode intensificar problemas que já são conhecidos durante períodos de seca severa:
- Mais fumaça nas cidades e comunidades;
- Aumento de atendimentos por falta de ar, tosse e crises alérgicas;
- Suspensão ou redução de atividades ao ar livre;
- Maior risco para crianças em escolas e idosos em casa;
- Dificuldade de deslocamento em áreas ribeirinhas por causa da vazante;
- Pressão sobre unidades de saúde no interior;
- Maior necessidade de oxigênio, medicamentos respiratórios e monitoramento da rede.
A SES-AM informou que utiliza tecnologia para monitorar a rede de saúde no interior durante a estiagem, incluindo controle de estoque de oxigênio e incidência de doenças comuns no período da seca.
Medidas de saúde recomendadas
O Ministério da Saúde orienta que, em períodos de fumaça intensa, a principal medida é reduzir a exposição. A população deve permanecer, sempre que possível, em locais fechados, com portas e janelas vedadas, principalmente nos horários de maior concentração de fumaça.
Outra recomendação é o uso de máscaras adequadas. O Ministério da Saúde informa que máscaras N95, PFF2 ou P100 são mais indicadas para reduzir a inalação de partículas finas, especialmente quando a pessoa precisa sair de casa em ambiente com fumaça. Máscaras cirúrgicas, de pano, lenços ou bandanas podem ajudar contra partículas maiores, mas não oferecem a mesma proteção contra partículas finas.
Também são medidas importantes:
- Beber bastante água;
- Evitar exercícios físicos ao ar livre em dias de fumaça;
- Manter ambientes internos limpos e úmidos, sem exagero;
- Fazer lavagem nasal com soro fisiológico;
- Evitar coçar olhos e nariz;
- Não fazer queimadas em terrenos, quintais ou áreas rurais;
- Manter medicamentos de uso contínuo em dia;
- Procurar atendimento em caso de falta de ar, chiado no peito, dor no peito, tontura ou piora dos sintomas.
A FVS-RCP também orienta que, em caso de reação alérgica nos olhos ou narinas, a pessoa deve evitar coçar as áreas afetadas e pode fazer lavagem com soro fisiológico.
Educação em saúde: informação salva vidas
A educação em saúde é uma das principais ferramentas para reduzir danos durante períodos de El Niño, seca e fumaça. A população precisa saber reconhecer sintomas, proteger grupos vulneráveis e buscar atendimento no momento certo.
Nas escolas, unidades básicas de saúde, comunidades ribeirinhas e bairros urbanos, as orientações devem ser simples e diretas: evitar fumaça, hidratar-se, proteger crianças e idosos, não fazer queimadas e procurar atendimento diante de sinais de agravamento.
Também é fundamental que famílias acompanhem boletins oficiais do Ministério da Saúde, INMET, Defesa Civil, FVS-RCP, SES-AM e prefeituras. Em comunidades do interior, lideranças locais, agentes comunitários de saúde e equipes da atenção básica têm papel estratégico para orientar moradores durante a estiagem.
Quando procurar atendimento?
A pessoa deve procurar uma unidade de saúde se apresentar:
- Falta de ar;
- Chiado no peito;
- Tosse persistente;
- Cansaço intenso;
- Febre;
- Dor no peito;
- Lábios ou dedos arroxeados;
- Crise de asma ou bronquite;
- Piora em crianças, idosos, gestantes ou pessoas com doenças crônicas.
O Ministério da Saúde reforça que a exposição à fumaça de queimadas pode aumentar atendimentos em saúde porque a fumaça contém gases tóxicos e partículas capazes de irritar as vias respiratórias e agravar doenças existentes.
O El Niño é um fenômeno climático, mas seus efeitos ultrapassam o meio ambiente. No Amazonas, seca, calor e fumaça podem afetar diretamente a respiração, a rotina das famílias, o funcionamento das escolas, o transporte no interior e a demanda nas unidades de saúde.
A prevenção começa com informação oficial, vigilância permanente e cuidado diário. Em tempos de calor extremo e fumaça, proteger a saúde é também proteger a vida amazônica.


