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USP, Butantan e Fapesp firmam parceria para desenvolver terapia CAR-T contra lúpus e miastenia gravis

Acordo prevê ensaios clínicos inéditos no Brasil para ampliar o uso da terapia celular CAR-T no tratamento de doenças autoimunes graves

A Universidade de São Paulo (USP), o Instituto Butantan, a Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) assinaram um acordo de cooperação para desenvolver terapias avançadas contra doenças autoimunes. A iniciativa busca ampliar o uso da terapia celular CAR-T, tecnologia já utilizada no combate a alguns tipos de câncer, para o tratamento de pacientes com lúpus eritematoso sistêmico e miastenia gravis generalizada.

A assinatura ocorreu nesta semana e representa mais um passo na consolidação do Brasil como referência em terapias celulares avançadas. Além disso, o projeto pretende fortalecer a autonomia nacional na produção de tecnologias estratégicas para a saúde pública.

Terapia CAR-T pode revolucionar tratamento de doenças autoimunes

A parceria prevê a realização de ensaios clínicos com a terapia CAR-T em pacientes diagnosticados com lúpus eritematoso sistêmico (LES) e miastenia gravis generalizada (MGg). Antes do início dos estudos, os protocolos ainda passarão pelas etapas regulatórias e serão submetidos à aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O reitor da USP, Aluisio Segurado, destacou a importância da iniciativa para a ciência brasileira e para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo ele, o avanço das pesquisas amplia a capacidade nacional de desenvolvimento tecnológico e cria condições para que tratamentos inovadores possam beneficiar um número maior de pacientes no futuro.

Já o diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, afirmou que a terapia celular vem transformando o tratamento de diversas doenças por atuar diretamente nas células responsáveis pelos processos patológicos.

Ele ressaltou que o objetivo da cooperação é tornar essa tecnologia acessível aos brasileiros, inclusive por meio do SUS.

Estudos devem selecionar pacientes com quadros graves

Caso os estudos sejam autorizados, os pesquisadores pretendem recrutar 16 pacientes adultos com lúpus eritematoso sistêmico e outros 10 pacientes com miastenia gravis generalizada.

Os voluntários serão selecionados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) e no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, na capital paulista.

Os participantes deverão apresentar formas graves das doenças e já ter realizado pelo menos dois tratamentos convencionais sem resposta satisfatória.

A expectativa é avaliar a segurança e a eficácia da terapia CAR-T nesses grupos, abrindo caminho para futuras aplicações em larga escala.

Instituições destacam avanço da ciência nacional

Para o diretor-presidente da Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, Rodrigo Calado, a parceria fortalece um ecossistema de inovação formado por instituições públicas de excelência.

Segundo ele, a união entre USP, Fapesp e Instituto Butantan demonstra que é possível desenvolver ciência de ponta no Brasil e, ao mesmo tempo, atender demandas concretas da população.

O presidente da Fapesp, Marco Antonio Zago, também ressaltou a relevância do acordo. Para ele, a capacidade de produzir conhecimento e desenvolver tecnologias próprias reduz a dependência de soluções importadas e fortalece o desenvolvimento científico nacional.

A cerimônia contou ainda com a presença de representantes da Fundação Butantan, do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e da Fundação Pró-Sangue Hemocentro de São Paulo.

Durante o evento, o Instituto Butantan também formalizou uma parceria com a biofarmacêutica chinesa IASO Bio para o desenvolvimento de uma nova terapia avançada voltada ao tratamento de cânceres hematológicos.

O que são lúpus e miastenia gravis?

O lúpus eritematoso sistêmico é uma doença inflamatória crônica de origem autoimune. A condição pode afetar diferentes órgãos e provocar sintomas como febre, perda de peso, falta de apetite, fadiga e fraqueza.

Já a miastenia gravis generalizada compromete a comunicação entre nervos e músculos, causando fraqueza muscular progressiva. Em casos mais graves, a doença pode dificultar funções essenciais, como falar, engolir e respirar.

Ambas as enfermidades podem comprometer significativamente a qualidade de vida dos pacientes e exigem acompanhamento médico contínuo.

Terapia CAR-T já apresenta resultados promissores no Brasil

Desde 2022, o Instituto Butantan, a USP e o Hemocentro de Ribeirão Preto atuam conjuntamente no desenvolvimento da terapia CAR-T para o tratamento de leucemia linfoide aguda de células B e linfoma não-Hodgkin de células B.

Os trabalhos são realizados por meio do Núcleo de Terapias Avançadas (Nutera), que possui unidades em São Paulo e Ribeirão Preto.

Em 2024, as instituições iniciaram um ensaio clínico de fase 1. Os resultados preliminares apontam mais de 87% de eficácia em pacientes com casos graves dessas doenças hematológicas.

A tecnologia surgiu nos Estados Unidos em 2010 e utiliza células de defesa do próprio paciente, geneticamente modificadas para reconhecer e combater células doentes. Por esse potencial, a terapia passou a ser estudada também para doenças crônicas e autoimunes.

No Brasil, os primeiros testes começaram em 2019 e já demonstraram cerca de 80% de eficácia na redução de tumores em pacientes que não respondiam aos tratamentos convencionais.

Ciência brasileira busca ampliar acesso a terapias inovadoras

Com o novo acordo, as instituições envolvidas pretendem acelerar o desenvolvimento de terapias avançadas produzidas no Brasil. A iniciativa pode ampliar o acesso a tratamentos de alta complexidade e contribuir para a incorporação de tecnologias inovadoras ao SUS nos próximos anos.

Além de fortalecer a pesquisa científica nacional, o projeto coloca o país em posição estratégica no cenário internacional das terapias celulares, consideradas uma das principais fronteiras da medicina moderna.

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