A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (23) a Operação Miragem, que investiga um suposto esquema de fraudes financeiras envolvendo o banco Digimais, instituição pertencente ao grupo empresarial ligado ao bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus.
A ação mobiliza mais de 50 policiais federais para o cumprimento de nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo. Além disso, a decisão judicial autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados e determinou o bloqueio de bens que podem chegar a R$ 670,3 milhões.
Segundo a Polícia Federal, as investigações apontam indícios de que administradores da instituição financeira teriam manipulado informações contábeis para esconder a real situação econômica do banco e apresentar uma imagem de estabilidade aos órgãos reguladores.
Banco teria ocultado situação financeira
De acordo com a investigação, o esquema consistiria na alteração de registros financeiros e demonstrativos contábeis para mascarar problemas financeiros da instituição.
A Polícia Federal afirma que as irregularidades teriam permitido a supervalorização de ativos e a criação artificial de receitas milionárias, elevando os resultados apresentados pelo banco.
Os investigadores tiveram acesso a relatórios produzidos pelo Banco Central do Brasil que apontaram falhas consideradas graves na condução das operações da instituição.
Além disso, a corporação apura a realização de operações de crédito supostamente proibidas pela legislação e possíveis inserções de dados falsos em sistemas oficiais utilizados pelos órgãos de fiscalização financeira.
Digimais enfrenta crise e processo de venda
O Digimais surgiu em 2020 após a aquisição do antigo Banco Renner pelo grupo de Edir Macedo. Com a compra, a instituição mudou de nome e transferiu sua sede para São Paulo.
Nos últimos anos, o banco passou por um processo de deterioração financeira, o que levou a sucessivas tentativas de reestruturação e negociações para venda da operação.
Em abril deste ano, o BTG Pactual assinou um acordo de intenção para adquirir a instituição financeira, negócio que ainda está em andamento.
A operação da PF ocorre em um momento de forte pressão sobre o banco, que enfrenta questionamentos do mercado e de órgãos de fiscalização.
Auditoria apontou investimentos sob suspeita
Documentos financeiros divulgados pelo próprio Digimais também chamaram atenção do mercado.
No balanço referente ao segundo semestre de 2025, a auditoria independente Clifton Larson Allen Brasil informou que não conseguiu auditar aproximadamente R$ 3 bilhões investidos em determinados fundos por falta de documentação suficiente.
O valor representava cerca de 73% dos investimentos do banco nessa categoria.
A auditoria também destacou a valorização acelerada de cotas de fundos recém-criados. Segundo o relatório, investimentos de R$ 357,6 milhões passaram a valer R$ 997,5 milhões em poucos meses.
O ganho contábil gerado pelas operações alcançou R$ 639,8 milhões. No entanto, os auditores afirmaram que não foi possível verificar se os valores refletiam efetivamente a realidade financeira dos ativos.
Agência de risco retirou avaliação
Na segunda-feira (22), um dia antes da Operação Miragem, a agência internacional Fitch Ratings anunciou a retirada da classificação de risco do Digimais.
A empresa alegou ausência de informações financeiras atualizadas e apontou incertezas relacionadas ao futuro da instituição, incluindo negociações de venda e disputas judiciais envolvendo ativos financeiros.
A decisão aumentou as dúvidas do mercado sobre a situação econômica do banco.
Quais crimes são investigados
Os investigados poderão responder por crimes previstos na Lei nº 7.492/1986, que trata dos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
Entre as condutas apuradas estão:
- Gestão fraudulenta de instituição financeira;
- Inserção de informações falsas em demonstrativos contábeis;
- Operações de crédito vedadas pela legislação.
A Polícia Federal informou que as investigações continuam e que novas diligências poderão ser realizadas para aprofundar a apuração dos fatos.
Caso as suspeitas sejam confirmadas, os envolvidos poderão responder criminalmente pelos prejuízos causados ao sistema financeiro e aos investidores.
A Operação Miragem amplia o cerco das autoridades sobre possíveis irregularidades no setor bancário e coloca o Digimais no centro de uma das mais relevantes investigações financeiras em andamento no país.


