O advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques, acumulou R$ 27,7 milhões em aplicações em fundos de investimento em pouco mais de dois anos de carreira na advocacia. As informações constam em documentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) encaminhados à CPI do Crime Organizado do Senado e obtidos pela Folha de S.Paulo.
Os registros mostram uma evolução patrimonial significativa durante 2025. Apesar do crescimento expressivo, os documentos não apontam qualquer irregularidade nas aplicações financeiras ou na formação do patrimônio do advogado.
Aos 25 anos, Kevin foi aprovado no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em fevereiro de 2024 e inaugurou seu escritório cerca de seis meses depois. Desde então, passou a representar empresas de grande porte em ações judiciais.
Aplicações cresceram de R$ 5 milhões para R$ 27,7 milhões
De acordo com os documentos da CVM, Kevin possuía aproximadamente R$ 5 milhões investidos em um fundo de renda fixa do Banco do Brasil em 31 de agosto de 2025.
Quatro meses depois, em 31 de dezembro, o valor total aplicado chegou a R$ 27,7 milhões. O montante inclui cerca de R$ 5,3 milhões referentes à valorização do investimento inicial e uma nova aplicação de R$ 22,4 milhões em outro fundo de renda fixa da instituição financeira.
Questionado sobre a origem dos recursos, o escritório do advogado não forneceu detalhes nem informou quais clientes contribuíram para a evolução patrimonial.
Defesa diz que patrimônio foi declarado à Receita
Em nota enviada à reportagem, a assessoria de Kevin Marques afirmou que todos os recursos estão regularmente declarados à Receita Federal, tanto nas declarações da pessoa física quanto da pessoa jurídica.
A defesa também destacou que o advogado não atua em processos no Supremo Tribunal Federal.
Clientes de grande porte
Mesmo com pouco tempo de profissão, Kevin passou a atuar em causas envolvendo empresas de grande expressão nacional.
Entre elas está a Refit, responsável pela Refinaria de Manguinhos. Em um processo que tramita no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), o advogado conseguiu uma decisão liminar suspendendo a interdição da refinaria determinada pela Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Outro cliente citado é o Grupo Petrópolis, fabricante da cerveja Itaipava, que também possui processos patrocinados por Kevin no TRF-1.
Nenhuma das empresas comentou o caso.
Atuação concentra-se no TRF-1
Embora não atue no STF, Kevin concentra boa parte de seus processos no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, onde seu pai construiu carreira antes de ser indicado ao Supremo em 2020.
O advogado também possui ações no Tribunal de Justiça do Piauí, estado de origem da família, além de processos em outros tribunais estaduais e no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Levantamento da plataforma Escavador indica que ele figura como advogado em aproximadamente 30 processos públicos.
Consultoria tributária também aparece na investigação
A reportagem também destaca a atuação de Kevin para a Consult Inteligência Tributária, empresa contratada pelo Banco Master e pela JBS para prestação de serviços especializados.
Segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a consultoria repassou R$ 281,6 mil ao advogado entre 2024 e 2025.
Kevin afirmou que os pagamentos correspondem à prestação de serviços de assessoria jurídica. Já a Consult informou, anteriormente, que desenvolveu trabalhos de auditoria e consultoria tributária para seus clientes.
Caso amplia debate sobre parentes de ministros
A divulgação das informações ocorre em meio ao aumento das discussões sobre a atuação profissional de familiares de ministros dos tribunais superiores.
O tema voltou ao centro do debate após revelações envolvendo contratos firmados pela advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes.
Segundo dados mencionados na reportagem, há atualmente quase 2 mil processos no STF e no STJ envolvendo parentes de ministros das duas cortes.
Renda destoa da média da advocacia brasileira
Os valores atribuídos ao patrimônio de Kevin contrastam com a realidade da maior parte dos jovens advogados brasileiros.
Pesquisa divulgada pela Fundação Getulio Vargas (FGV) em 2024 mostra que apenas 1% dos profissionais com até três anos de carreira recebem remuneração superior a 20 salários mínimos mensais. Em contrapartida, 86% declararam renda de até cinco salários mínimos.
Crescimento patrimonial não é apontado como irregular
Os documentos analisados pela CPI e pela CVM não apontam qualquer ilegalidade relacionada às aplicações financeiras realizadas por Kevin de Carvalho Marques.
Ainda assim, o volume do patrimônio acumulado em curto espaço de tempo, aliado à atuação em processos de grandes grupos empresariais, amplia o debate sobre transparência, conflitos de interesse e a atuação de familiares de integrantes das cortes superiores do país.
*Com informações da F. de São Paulo


