A região Nordeste recebeu 5.818 das 7.412 apresentações realizadas pelos 40 artistas com maior volume de contratos públicos no Brasil entre janeiro de 2024 e março de 2026.
O total representa aproximadamente 78% dos shows incluídos no levantamento produzido pelo observatório De Olho nos Ruralistas. No período analisado, os nove estados nordestinos concentraram cerca de R$ 2,22 bilhões em contratações de artistas.
O valor corresponde a 72% dos R$ 3,08 bilhões acumulados pelos 40 nomes que receberam pelo menos R$ 50 milhões cada em contratos firmados com prefeituras e governos estaduais.
Apesar da dimensão dos números, o estudo não reúne todos os shows financiados com recursos públicos no país. Os dados de 7.412 apresentações se referem especificamente ao grupo dos 40 artistas que lideram o ranking de contratações.
Pesquisa analisou mais de 20 mil contratos
O levantamento faz parte do dossiê “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio”.
Durante a pesquisa, o observatório analisou mais de 20 mil contratos relacionados a apresentações de mais de 250 artistas. O estudo considerou eventos realizados desde 1º de janeiro de 2024 e contratos registrados até 31 de março de 2026.
Os acordos foram celebrados por estados e municípios para festas populares, aniversários de cidades, carnavais, festejos juninos, réveillons, festivais culturais e outras programações públicas.
As contratações envolvem recursos dos orçamentos estaduais e municipais. No entanto, a origem específica da verba pode variar conforme o evento, o contrato, o convênio ou a dotação utilizada por cada administração.
Bahia e Pernambuco lideram gastos
Entre os estados, a Bahia ocupa a primeira posição do levantamento, com aproximadamente R$ 578,47 milhões em contratos públicos relacionados aos artistas analisados.
Pernambuco aparece logo depois, com R$ 573,10 milhões. Em seguida, o Ceará soma R$ 315,98 milhões.
Fora do Nordeste, Minas Gerais surge como o estado mais bem colocado, com cerca de R$ 192,04 milhões em contratações.
A concentração regional também acompanha a força do calendário cultural nordestino. Festas juninas e carnavais ampliam a quantidade de apresentações, sobretudo entre maio e julho e durante o período de pré-Carnaval.
Além disso, ritmos como forró, piseiro, arrocha e brega ocupam posições de destaque entre os artistas com maior volume de contratos públicos.
Shows movimentam economia local
Gestores públicos costumam defender a realização dos eventos como uma estratégia para estimular o turismo, a hotelaria, o comércio, o setor de alimentação e o transporte.
Em municípios menores, as festas também atraem visitantes de cidades próximas e movimentam trabalhadores informais, produtores culturais, comerciantes e prestadores de serviços.
Entretanto, a avaliação do impacto econômico depende de informações que vão além do valor pago aos artistas. Para medir os resultados, as administrações precisam apresentar dados sobre público, arrecadação, ocupação da rede hoteleira, geração de empregos e movimentação do comércio.
Sem esses indicadores, torna-se mais difícil comparar o custo das atrações com os benefícios efetivamente gerados para os municípios.
Valores provocam questionamentos
A divulgação dos números reacendeu o debate sobre a aplicação de recursos públicos em grandes eventos.
Nas redes sociais, usuários passaram a questionar o volume destinado aos cachês e cobraram maior transparência sobre os critérios usados para escolher artistas, negociar valores e definir as prioridades do calendário cultural.
O levantamento também repercutiu entre parlamentares. Parte das críticas relaciona os gastos com as dificuldades enfrentadas por municípios em áreas como saúde, educação, mobilidade e infraestrutura.
No entanto, não é possível afirmar de forma automática que os recursos utilizados nos shows poderiam ser transferidos diretamente para outros setores. Essa conclusão depende da origem da verba e das regras orçamentárias aplicáveis a cada contrato.
Transparência entra no centro do debate
Além do volume financeiro, o levantamento chama atenção para a disponibilidade das informações sobre as contratações.
Segundo o dossiê, parte dos contratos analisados não estava disponível no Portal Nacional de Contratações Públicas, o PNCP. Por isso, a pesquisa também recorreu a portais estaduais e municipais de transparência.
A ausência de documentos em uma base centralizada dificulta o acompanhamento dos gastos e a comparação entre valores pagos por diferentes cidades.
Por esse motivo, especialistas em controle público defendem a divulgação completa dos contratos, das justificativas de preço, das fontes de recursos e das prestações de contas dos eventos.
Nordeste domina agenda dos mais contratados
Os números confirmam o peso do Nordeste no mercado de eventos financiados por estados e municípios. Entretanto, a leitura correta dos dados exige atenção ao recorte adotado pela pesquisa.
Os 5.818 shows e os R$ 2,22 bilhões dizem respeito às apresentações realizadas na região pelos 40 artistas que superaram R$ 50 milhões em contratos públicos. Portanto, os dados não representam a totalidade das atrações contratadas no Brasil.
Ainda assim, o levantamento expõe a dimensão desse mercado e reforça a necessidade de transparência, fiscalização e avaliação dos resultados econômicos e culturais.
O desafio dos gestores será demonstrar que as festas públicas, além de atrair grandes públicos, entregam benefícios proporcionais aos valores investidos e atendem ao interesse da população.
*Com informações do De Olho nos Ruralistas


