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Rua do Sarará será transformada em Rua Gastronômica; urbanista avalia impactos da requalificação no Centro

Projeto prevê melhorias na Ferreira Pena; moradores, comerciantes, frequentadores e ambulantes veem benefícios, mas também apontam preocupações com a requalificação

Conhecida pela concentração de bares, restaurantes e pela movimentação noturna no Centro de Manaus, a rua Ferreira Pena, popularmente chamada de “Rua do Sarará”, está no centro de um projeto que pretende mudar a forma como moradores e frequentadores ocupam a região. A proposta da Prefeitura é transformar parte da via na primeira Rua Gastronômica da capital.

A ordem de serviço para a requalificação foi assinada pela Prefeitura de Manaus no dia 6 de agosto e contempla o trecho entre as ruas 10 de Julho e Ramos Ferreira. A intervenção integra o programa Nosso Centro e busca aproveitar uma dinâmica que já existe no local, marcada principalmente pela presença de estabelecimentos gastronômicos e pela vida noturna.

Ao Manaós, o arquiteto e urbanista Rodrigo Capelato avalia que iniciativas como a da Ferreira Pena fazem parte de estratégias utilizadas no planejamento urbano para “ativar territórios”.

Foto: Arquivo Pessoal

Graduado em Arquitetura e Urbanismo, Capelato é mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia e doutor em Planejamento Urbano e Regional. Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Amazonas (DAU/Ufam) desde 2013, coordena o Núcleo Manaus do Observatório das Metrópoles e desenvolve pesquisas voltadas ao planejamento urbano, espaço público, memória, patrimônio e produção das cidades.

O professor também integra os grupos de pesquisa “Identidade e Território”, “Cidades, Culturas Populares e Patrimônios” e “Arquitetura e Cidade: narrativas, memória e patrimônio”. Na docência desde 2003, atua especialmente nos campos da história, das teorias e das práticas do planejamento e do desenho urbano.

Para o urbanista, a movimentação que inicialmente parecia experimental na Ferreira Pena acabou se consolidando e criou uma expectativa de espaço voltado ao lazer e ao entretenimento. A partir disso, segundo ele, surge a necessidade de pensar a estrutura oferecida à população e a convivência com os demais usos que já fazem parte daquela área do Centro.

Professor da Ufam, Rodrigo Capelato destaca que a requalificação deve conciliar novos usos, preservação da memória e pertencimento da população. Foto: Arquivo pessoal

“Se aquilo que foi experimental se estabelece, é chegada a hora de pensar como oferecer à população um espaço de qualidade, estabelecendo um diálogo com as outras camadas que ali já estão consolidadas”, explica.

O que deve mudar na Ferreira Pena

De acordo com o detalhamento do projeto divulgado pela Prefeitura de Manaus, aproximadamente 190,71 metros da Ferreira Pena serão requalificados, em uma área total de 3.841,29 metros quadrados.

Uma das principais mudanças será a criação de uma plataforma única, eliminando o desnível entre a pista e os passeios. A proposta é ampliar a acessibilidade, dar maior prioridade aos pedestres e contribuir para a redução da velocidade dos veículos.

Foto: Divulgação/Prefeitura de Manaus

O asfalto também deverá dar lugar a blocos de concreto intertravados, enquanto as calçadas receberão revestimento em pedra quartzito natural. O projeto inclui ainda bancos, lixeiras, floreiras, balizadores, novas luminárias e iluminação aérea decorativa em LED.

As 17 árvores existentes no trecho serão mantidas. Segundo o Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), a arborização será incorporada ao paisagismo e aos espaços de permanência previstos para a nova configuração da rua.

Foto: Divulgação/Prefeitura de Manaus

Em atualização apresentada a comerciantes do Centro, a Prefeitura informou que a previsão é de que a Rua Gastronômica seja entregue no dia 15 de novembro.

Moradores observam impactos na rotina

Embora a proposta seja vista como uma oportunidade para recuperar a movimentação no Centro, a transformação também provoca questionamentos entre quem mora próximo à Ferreira Pena.

A moradora Juliana considera positiva a tentativa de recuperar uma região que, segundo ela, apresentava problemas de abandono e insegurança durante a noite. Ao mesmo tempo, afirma que a ampliação da atividade noturna precisa levar em consideração a rotina dos residentes.

“Fica o receio do barulho de barzinho até de madrugada e da falta de vaga para estacionar perto de casa. Se a prefeitura organizar a coleta de lixo, garantir policiamento e respeitar o sossego de quem vive aqui, tem tudo para dar certo. O projeto é bonito no papel, mas a nossa rotina não pode ser esquecida”, afirma.

As preocupações levantadas pela moradora dialogam com um dos principais pontos destacados por Capelato. Para o professor, uma intervenção urbana precisa compreender como o território funciona para além do trecho que receberá a obra.

Segundo ele, questões como circulação de pedestres e automóveis, sistema viário, segurança, patrimônio, moradores e a diferença entre os usos diurnos e noturnos precisam fazer parte do planejamento.

“Quando falamos de intervenção, estamos tratando de intenção”, pontua o urbanista.

Comércio espera estrutura para manter movimento

Para quem empreende na região, a expectativa é que a nova configuração ajude a consolidar a Ferreira Pena como destino de lazer e gastronomia. O comerciante Fábio, no entanto, avalia que a intervenção física precisa vir acompanhada de estrutura no entorno.

“Primeiro de tudo: segurança e estacionamento nas vias do entorno. Não adianta fechar a rua para o pedestre se o cliente não tiver onde deixar o carro com tranquilidade por perto”, afirma.

Ele também cita drenagem, iluminação e manutenção da arborização entre os pontos que considera necessários para que o movimento seja mantido após a inauguração.

“Sem essa estrutura de apoio, o movimento esfria assim que passar a novidade”, avalia.

A relação entre automóveis e a nova ocupação do espaço é outro ponto levantado por Capelato. Para ele, projetos de reativação do Centro também exigem uma discussão sobre a dependência do carro em uma região marcada por vias estreitas e prédios antigos sem garagens.

“A obsolescência do Centro está disponível para ser retomada”, afirma o professor, ao defender o aproveitamento da infraestrutura já existente na região.

“Atualizar não significa apagar”

A presença de imóveis históricos e a própria identidade construída ao longo dos anos na Ferreira Pena também entram na discussão sobre a transformação da área.

Para Capelato, novos usos não precisam representar o apagamento da história da região.

“Atualizar o funcionamento de determinada área não significa apagar aquilo que ela nos conta. É justamente o contrário, sendo fundamental equilibrar a força da memória com a nova possibilidade intencionada”, explica.

Entre os frequentadores, existe também a expectativa de que essa identidade seja mantida. Gustavo vê a criação da Rua Gastronômica como uma possibilidade de oferecer ao público mais um espaço de convivência ao ar livre no Centro, mas chama atenção para o risco de que o local se torne inacessível para parte da população.

“O que pode perder é a acessibilidade e a identidade se virar um lugar com preços elitizados, focado só em turista. O manauara gosta de ocupar o Centro quando o ambiente é seguro, agradável e tem opção para todo bolso, incluindo a nossa culinária regional”, afirma.

Ambulantes temem perder espaço

Além de moradores, comerciantes e frequentadores, a requalificação afeta diretamente trabalhadores informais que já atuam na Ferreira Pena.

O ambulante José afirma que recebeu a notícia com preocupação diante do risco de trabalhadores que dependem economicamente da movimentação da rua perderem espaço após a transformação.

“Sendo bem sincero, dá medo da gente ser expulso. Quase sempre que vem obra de requalificação, quem é trabalhador informal é o primeiro a rodar para dar lugar a projeto chique”, relata.

Para ele, a ampliação do movimento pode ser positiva caso os trabalhadores atuais também sejam incorporados ao projeto.

“Se a prefeitura cadastrar quem já tira o pão daqui há anos e der espaço padronizado, vai ser excelente porque o movimento vai aumentar. Mas se for um projeto feito só para grande empresário, a gente fica na mão”, diz.

Após o início do projeto, a Prefeitura informou que os 54 trabalhadores cadastrados na área serão realocados para espaços no entorno da Rua Gastronômica e receberão barracas padronizadas desenvolvidas com participação da própria categoria.

De acordo com o município, o cadastramento será feito mediante apresentação da documentação exigida, e as atividades também deverão passar por adequações para atender ao Código de Posturas. Representantes dos ambulantes participaram de reunião com a Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento, Centro e Comércio Informal (Semacc).

Pertencimento como desafio

Ao avaliar as perspectivas para a Ferreira Pena, Capelato se diz otimista e acredita que a iniciativa pode servir como exemplo para uma nova forma de ocupação do Centro de Manaus. Para isso, no entanto, considera necessário que a transformação não seja pensada apenas para quem passa a frequentar o espaço depois da obra.

“A proposta da Ferreira Pena pode se tornar um exemplo positivo para o novo Centro de Manaus. No entanto, é preciso que todos — moradores, comerciantes e frequentadores — se sintam contemplados”, afirma.

Para o urbanista, o sentimento de pertencimento é também uma forma de garantir que a própria população participe da preservação do espaço depois da intervenção.

“Quando o projeto suscita o pertencimento, o sucesso é inevitável. Afinal, fazer parte é ser tomado por afetos que denotam manutenção e cuidado”, conclui.

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