HomeNotíciasAmazonasPolícia marca reconstituição da morte de indígena após reabertura de caso em...

Polícia marca reconstituição da morte de indígena após reabertura de caso em Manaus

Reprodução simulada será realizada em outubro no lava-jato onde Tadeo Kulina sofreu uma queda; investigação foi retomada após surgimento de novos elementos e questionamentos sobre a apuração inicial

A Polícia Civil do Amazonas marcou para 19 de outubro, às 13h, a reconstituição dos fatos que antecederam a morte do indígena Tadeo Kulina, ocorrida em fevereiro de 2024, em Manaus. A nova diligência acontece após o inquérito, inicialmente arquivado, ser reaberto diante de novos elementos apresentados à Justiça.

A reprodução simulada deverá ocorrer no lava-jato para onde Tadeo foi após deixar a Maternidade Ana Braga, na Zona Leste da capital. A Polícia Civil comunicou o procedimento à 3ª Vara do Tribunal do Júri de Manaus e ao Ministério Público do Amazonas.

Segundo a investigação, o trabalho dos peritos deverá concentrar atenção na dinâmica de uma queda sofrida pelo indígena no estabelecimento, de uma altura estimada em sete metros. O objetivo é verificar, entre outros pontos, se os ferimentos registrados no corpo são compatíveis com a queda apontada na primeira apuração como causa do quadro que levou à morte.

Caso foi reaberto após novos indícios

Tadeo era indígena do povo Madiha Kulina, considerado de recente contato, e não falava português. Ele havia viajado mais de 1,2 mil quilômetros até Manaus para acompanhar a esposa, Ccorima Kulina, que enfrentava complicações no fim da gestação e precisou ser transferida por UTI aérea da região de Envira para a capital.

Em 6 de fevereiro de 2024, após sair da maternidade, Tadeo chegou a um lava-jato na avenida Autaz Mirim. Foi nesse local que ocorreram as quedas posteriormente analisadas pela Polícia Civil.

Horas depois, ele foi conduzido por policiais militares ao Hospital e Pronto-Socorro João Lúcio. Conforme documentação médica citada pela Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM), Tadeo chegou à unidade desacordado, em estado grave e com múltiplos hematomas. A ficha de atendimento também registra que ele estava com mãos e pés amarrados.

Tadeo morreu por volta de 1h do dia 7 de fevereiro de 2024, um dia antes de completar 34 anos.

O laudo necroscópico apontou como causa da morte hematoma subdural, fratura da base do crânio e traumatismo cranioencefálico provocado por instrumento contundente.

Primeira investigação apontou morte acidental

Inicialmente, a Polícia Civil investigou a possibilidade de homicídio. Posteriormente, porém, concluiu pela inexistência de elementos suficientes de autoria e materialidade de crime e apontou a hipótese de morte acidental em consequência das quedas ocorridas no lava-jato.

O Ministério Público chegou a solicitar novas diligências, mas posteriormente promoveu o arquivamento do caso.

A situação mudou em 2025. A Defensoria Pública apresentou pedido de desarquivamento em nome da mãe e de um irmão de Tadeo. A Organização dos Povos Indígenas da Calha do Rio Juruá (Opiju) também atuou para que a morte voltasse a ser investigada.

Em outubro de 2025, o Ministério Público concordou com a retomada do inquérito e determinou uma nova investigação, incluindo produção de laudos e novas oitivas.

Documentos levantaram dúvidas sobre dinâmica da morte

Um dos pontos apresentados pela Defensoria foi uma ficha de atendimento médico-hospitalar que não constava no inquérito original.

De acordo com a DPE-AM, o documento registra sinais de agressão física, além de informar que Tadeo chegou ao hospital inconsciente, com mãos e pés amarrados e hematomas em diferentes partes do corpo. Esses elementos passaram a ser considerados importantes para verificar se apenas as quedas seriam capazes de explicar todas as lesões.

Também surgiram divergências sobre o estado do indígena depois da queda.

Testemunhas ouvidas na nova etapa relataram que Tadeo teria conseguido se locomover após o episódio no lava-jato. Dois dos três policiais militares envolvidos também já prestaram novos depoimentos. Eles afirmaram que o indígena foi imobilizado com fios nos pés e nas mãos antes da chegada da guarnição e disseram que retiraram os fios para algemá-lo. Todos negaram agressões.

Segundo os novos relatos, diferentes trabalhadores do lava-jato teriam participado da imobilização. A investigação tenta localizar outras pessoas citadas pelos depoentes.

Perícia deve confrontar queda e lesões

A reconstituição marcada para outubro deverá permitir que peritos analisem fisicamente o local e confrontem a dinâmica da queda com os ferimentos documentados.

A diligência ganha relevância porque, segundo informações que embasaram o pedido de reabertura, não houve perícia no lava-jato durante a investigação inicial, apesar de uma solicitação da delegacia.

A Polícia Civil também pretende ouvir indígenas Madiha Kulina nas aldeias, entre eles Ccorima. Para isso, a apuração prevê o acompanhamento de tradutor.

O resultado da reprodução simulada deverá integrar o conjunto de provas da nova investigação. Até a conclusão das diligências, permanece em apuração a dinâmica que provocou os ferimentos que antecederam a morte de Tadeo Kulina.

Caso também motivou ação sobre atendimento a indígenas

A morte de Tadeo também provocou desdobramentos fora da investigação criminal. Em fevereiro de 2025, o Ministério Público Federal acionou a União e o Estado do Amazonas para cobrar medidas específicas no atendimento de indígenas de recente contato em hospitais de Manaus.

Entre os pedidos estão a disponibilização de intérpretes e mediadores culturais e a elaboração de medidas voltadas ao atendimento desse público. Para o MPF, o caso de Tadeo e a situação vivida pela esposa durante a internação evidenciaram falhas na assistência prestada em Manaus.

📲 Fique por dentro das notícias de Manaus e do Amazonas em tempo real. Acesse o canal do Portal Manaós no WhatsApp e acompanhe tudo pelo zap.

- Continua após a publicidade -spot_img
spot_img
Últimas notícias
- Continua após a publicidade -
Mais como esta

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here