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Polarização define a eleição? Erica Aguiar e Helso Ribeiro analisam disputa entre Lula e Flávio

Favoritos aparecem próximos nas pesquisas, enquanto avanço de Augusto Cury, rejeição aos líderes e comportamento dos eleitores mantêm abertas variáveis importantes até as urnas

Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) chegam ao último mês da campanha presidencial ocupando um espaço muito maior que os adversários nas pesquisas. A diferença entre liderar a corrida e ter a eleição definida, porém, ainda é significativa.

Levantamento PoderData/Aya divulgado nesta quinta-feira (3) colocou Lula com 37% das intenções de voto e Flávio com 34%, empate técnico considerando a margem de erro de 1,8 ponto percentual. Augusto Cury (Avante) aparece em terceiro, com 10%, depois de registrar 4% na rodada anterior.

No segundo turno, a distância é ainda menor: Flávio tem 45% e Lula, 44%, novamente em situação de empate técnico.

O cenário reforça uma tendência que já aparecia em levantamentos anteriores. Em agosto, o Manaós mostrou que Flávio havia reduzido a diferença para Lula em uma simulação de segundo turno da pesquisa Indexa/Broadcast.

Leia mais: Flávio Bolsonaro reduz distância para Lula em cenário de 2º turno, aponta pesquisa

A pergunta agora é até que ponto essa polarização representa um eleitorado definitivamente fechado entre os dois candidatos.

Lula aparece com 37%, Flávio Bolsonaro com 34% e Augusto Cury alcança 10% no levantamento PoderData/Aya divulgado em 3 de setembro. Crédito: Arte: Manaós, produzida com auxílio de IA, com dados do PoderData/Aya

Voto declarado não é necessariamente voto garantido

Para Erica Aguiar, pesquisadora e CEO do O Convergente Pesquisa, os percentuais de intenção de voto não contam sozinhos toda a história.

Ela explica que existe uma diferença entre o eleitor que escolhe um nome quando recebe uma lista de candidatos e aquele que mantém a preferência independentemente das circunstâncias da campanha.

Erica Aguiar, pesquisadora e CEO do O Convergente Pesquisa, analisa o comportamento do eleitor e os movimentos da corrida presidencial. Foto: Arquivo pessoal

“O voto realmente consolidado não é identificado apenas pela intenção estimulada. Ele aparece com mais clareza quando o eleitor cita espontaneamente o candidato, afirma que não pretende mudar e mantém sua escolha mesmo depois de ser confrontado com críticas, notícias negativas ou propostas dos adversários”, explica.

Segundo Erica, pesquisas quantitativas indicam o tamanho do apoio, enquanto levantamentos qualitativos ajudam a compreender sua profundidade.

“Ela revela se existe identificação, memória afetiva e confiança ou se a escolha é apenas circunstancial, motivada pela falta de alternativa, pelo apoio de uma liderança ou pelo medo de outro candidato. Portanto, intenção de voto não significa necessariamente fidelidade eleitoral”, afirma.

O cientista político Helso Ribeiro acrescenta um componente histórico à análise.

Para ele, a divisão atual não foi criada nesta campanha. A polarização se fortaleceu desde 2018 e passou a funcionar também como instrumento de mobilização para os próprios grupos envolvidos.

Helso Ribeiro, cientista político, avalia o peso da polarização e os reflexos da corrida presidencial no Amazonas. Foto: Arquivo pessoal

“Eu penso que parte da sociedade até busca uma terceira via. Para as duas candidaturas, eu costumo dizer que eles se retroalimentam. É bom para o PT e é bom para a direita bolsonarista essa polarização porque justamente inviabiliza essa terceira via”, avalia.

Na prática, enquanto ainda existem eleitores capazes de mudar de posição, Lula e Flávio entram na reta final sustentados por duas estruturas políticas que dificultam a ascensão de adversários.

Cury ocupa espaço da insatisfação

Augusto Cury tornou essa discussão mais evidente.

O candidato do Avante chegou a 10% no PoderData/Aya, seu melhor resultado até agora no levantamento e seis pontos acima da rodada anterior.

Antes mesmo desse crescimento, Cury já buscava se apresentar como alternativa aos polos tradicionais. Ele esteve entre os candidatos que participaram do primeiro debate presidencial, realizado sem Lula e Flávio, evento cuja repercussão nas redes foi acompanhada pelo Manaós.

Leia mais: Sem Lula, Flávio e Zema, debate presidencial divide opiniões nas redes

Erica vê no movimento do escritor um sinal de que há espaço para outro tipo de candidatura.

“O crescimento de Augusto Cury revela espaço para uma alternativa de centro, especialmente entre eleitores cansados do confronto permanente”, afirma.

Helso, porém, faz uma ponderação. Apesar do avanço, considera que Lula e Flávio ainda possuem vantagem estrutural suficiente para permanecer como os nomes mais prováveis de um segundo turno.

“Houve um crescimento do Augusto Cury, que está um tempo fora dessa polarização, mas eu acredito que o caminho vai seguir mais ou menos isso. Acho que serão os dois mais votados pelo que eu estou vendo”, afirma.

A candidatura de Cury, portanto, enfrenta dois desafios simultâneos: atrair o eleitor insatisfeito com os favoritos e convencer esse mesmo eleitor de que uma alternativa pode ser eleitoralmente viável.

Quem herda os votos da terceira via?

Caso o segundo turno confirme Lula e Flávio, os eleitores de Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e outros candidatos se tornam uma peça estratégica.

Mas não existe uma fórmula automática de transferência.

Erica observa que os grupos que apoiam essas candidaturas apresentam características distintas. Caiado tende a dialogar com uma parcela mais tradicional da direita. Renan alcança um público mais jovem e digital. Cury ocupa uma faixa mais ligada ao centro e ao desejo de renovação.

“Esses votos não pertencem aos candidatos. Sua migração dependerá das alianças, dos debates, da rejeição aos finalistas e, principalmente, da percepção de viabilidade”, explica.

Helso concorda e alerta contra a tentativa de simplesmente somar percentuais.

“Muitas pessoas querem fazer uma equação simples e não é assim. Não significa que 100% do voto de quem votou no Caiado vá migrar para determinado candidato”, afirma.

Parte do eleitorado pode migrar para um dos finalistas. Outra pode escolher branco ou nulo. Há ainda quem deixe de comparecer.

“Se você olhar as eleições, no segundo turno a taxa de abstenção tende a aumentar, muito por desencanto. Votos nulos e brancos também. Às vezes, não vai para ninguém”, acrescenta Helso.

Rejeição impõe outro limite aos favoritos

A corrida também não depende apenas de quem possui mais intenção de voto.

Na Quaest divulgada nesta semana, 55% dos entrevistados disseram que não votariam em Flávio Bolsonaro e 53% afirmaram o mesmo sobre Lula.

Flávio Bolsonaro registra 55% de rejeição e Lula, 53%, segundo levantamento da Quaest. Crédito: Arte: Manaós, produzida com auxílio de IA, com dados da Quaest

Já o PoderData/Aya desta quinta-feira registrou 48% de rejeição a Lula e 46% a Flávio, números diferentes em razão das metodologias utilizadas pelos levantamentos.

Para Erica, a resistência aos candidatos pode assumir peso decisivo em uma eleição equilibrada.

“Em uma disputa equilibrada, a rejeição pode ser mais determinante do que a intenção de voto. Lula tenta compensar o desgaste acionando memória, experiência e proteção social. Flávio mobiliza a identidade da direita, o discurso econômico e o antipetismo”, avalia.

Na visão dela, “poderá vencer quem conseguir ser percebido como a escolha menos arriscada pelo eleitor moderado”.

Helso acrescenta, no entanto, que rejeição funciona como barreira, mas não como sentença.

“Normalmente uma rejeição indica a barreira. Onde tem muita rejeição, fica mais difícil do candidato crescer naquele nicho”, afirma.

Ele lembra que candidatos com rejeição elevada já conseguiram vencer eleições e cita como exemplo David Almeida na disputa municipal de Manaus em 2024.

“Então nada impede que alguém com uma rejeição alta ganhe uma eleição. Isso a polarização também faz.”

Amazonas pode misturar palanques e escolhas

No Amazonas, o peso das candidaturas presidenciais já aparece nas articulações estaduais.

Em julho, pesquisa do Instituto Viva Voz divulgada pelo Manaós mostrou Maria do Carmo (PL) com 38,6% em um cenário para o Governo do Amazonas associado ao apoio de Jair e Flávio Bolsonaro. Omar Aziz (PSD), ligado no levantamento ao apoio de Lula, marcou 33,6%.

Leia mais: Levantamento mostra novos cenários da corrida ao Governo do Amazonas

Mas Helso afirma que esse tipo de associação não significa transferência automática de votos entre os planos nacional e estadual.

“Às vezes, o sujeito vota no nacional em um e, no estado, tem outros interesses, outros direcionamentos”, explica.

Para o cientista político, uma candidatura forte à Presidência pode impulsionar aliados regionais, mas questões locais também interferem diretamente na decisão.

“Não é essa lógica aristotélica: votou lá, vota aqui, mantenha a coerência. Às vezes, os interesses regionais são outros e as pessoas acabam indo em outro direcionamento”, afirma.

Flávio Bolsonaro, inclusive, já tem agenda programada no estado. Segundo a candidata ao Governo do Amazonas Maria do Carmo, o presidenciável deve chegar a Manaus na noite de 11 de setembro e cumprir compromissos políticos no dia 12.

Leia mais: Agenda de Flávio Bolsonaro no Amazonas é confirmada por Maria do Carmo

O movimento ocorre após o encerramento das convenções partidárias no estado e o início oficial da campanha, período em que alianças nacionais e estaduais passam a aparecer com maior intensidade.

Leia mais: Convenções partidárias chegam ao fim com definição das chapas no Amazonas

Nas ruas, terceira opção ainda aparece

Para além das pesquisas e análises políticas, o Manaós ouviu cinco eleitores sobre a possibilidade de uma terceira candidatura. Os depoimentos não possuem valor estatístico, mas ajudam a ilustrar diferentes sentimentos presentes na disputa.

Waldemir considera que a eleição está concentrada nos dois principais nomes por causa da exposição que recebem, mas afirma não se sentir representado por nenhum deles.

“Se meu candidato não for pro segundo turno, eu voto nulo, porque não troco o certo pelo duvidoso. O que pesa mais pra mim hoje é a proposta e o histórico do caboclo com a Amazônia”, afirma.

Célia também considera que ainda existe espaço para uma alternativa, desde que seja consistente. Educação, ciência e viabilidade das propostas estão entre os fatores que afirma considerar para definir o voto.

Alan traduz um sentimento de desgaste com a polarização.

“Todo dia é Lula e Flávio Bolsonaro se batendo nas redes sociais, e nada muda na minha vida”, diz. Morador de Manaus, ele afirma que espera propostas sobre transporte, segurança e custo de vida e admite escolher o “menos pior” caso sua terceira opção não chegue ao segundo turno.

Lúcia entende que “a eleição nunca está definida enquanto o povo não for às urnas” e aponta questões sociais como prioridade. Já Jéssica, empresária, afirma que ainda pode considerar uma terceira candidatura caso ela apresente um plano econômico consistente e capacidade de diálogo.

Polarização não encerra disputa

Os números nacionais deixam Lula e Flávio Bolsonaro em posição privilegiada para avançar à segunda etapa da eleição. A estrutura partidária, o tamanho das bases e a própria dinâmica de polarização reforçam essa vantagem.

Mas os mesmos levantamentos revelam fatores que impedem uma conclusão antecipada.

Cury ganhou espaço, os dois líderes enfrentam forte rejeição e parte dos votos dos adversários ainda pode migrar, virar abstenção ou terminar em branco e nulo.

É nesse ponto que as leituras de Erica e Helso se encontram.

A pesquisadora chama atenção para um eleitor que pode declarar preferência sem ter consolidado definitivamente o voto. O cientista político destaca que a força da polarização dificulta a terceira via, mas não transforma a transferência eleitoral em uma conta matemática.

Nas próximas semanas, portanto, a corrida não será apenas para conquistar indecisos.

Os favoritos terão de conservar seus próprios eleitores e diminuir a rejeição. Os candidatos que correm atrás precisarão provar que o desejo de uma terceira opção pode se transformar em voto competitivo.

Até lá, a polarização ajuda a explicar a eleição.

Mas ainda não permite antecipar seu resultado.

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