Seca severa, calor intenso, desmatamento, queimadas, perda de umidade do solo. Essas são algumas características da estiagem vivida na Amazônia nos últimos meses e que, ano após ano, tem se tornado mais intensa. Neste dia 5 de setembro, data em que se comemora o Dia da Amazônia, o maior bioma do mundo se encontra no centro das mudanças climáticas e perde cada vez mais sua capacidade de regeneração com a chegada de um novo El Niño.

De acordo com a economista e pós-doutora em Desenvolvimento Regional, Michele Aracaty, para evitar que a Amazônia alcance o ponto de não retorno, a comunidade científica internacional propõe frentes de ação urgentes focadas em aumentar a “resiliência ecológica” da floresta. Estudos recentes publicados em periódicos de prestígio, como a Annual Reviews e a Nature, convergem em soluções práticas divididas em ações regionais e globais.

“As principais estratégias científicas incluem: desmatamento zero e combate à degradação, restauração de paisagens e reflorestamento, com foco nos corredores florestais para reconectar fragmentos isolados de mata, além da recomposição rápida de espécies arbóreas nativas em áreas degradadas e a promoção da agricultura regenerativa integrada à floresta como alternativa viável e monoculturas”, destacou.
Custo econômico das mudanças climáticas e o impacto para a Amazônia
A vulnerabilidade da Amazônia diante do agravamento das mudanças climáticas passou a ser ainda maior em 2026, com a chegada do Super El Niño, como está sendo chamado o fenômeno climático extremo, ocasionado pelo superaquecimento das águas do Oceano Pacífico equatorial. Nos estados da Amazônia Legal brasileira, composta por Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, parte do Maranhão e parte do Mato Grosso, os impactos já estão sendo sentidos.

No Amazonas, o Governo do Estado decretou, em junho, estado de emergência climática e ambiental em todo o estado. O documento destacou que a declaração de emergência possui caráter preventivo, com o objetivo de prevenir e reduzir o impacto dos eventos climáticos extremos para a população amazonense.
Na prática, uma estiagem severa influencia a navegação e o abastecimento da região, afetando a rotina de todos os amazonenses, especialmente os que vivem em comunidades indígenas e ribeirinhas. Essa parcela da população mais vulnerável enfrenta escassez de água potável, perda de lavoura e da pesca, além do isolamento geográfico durante o período da seca severa.
A redução do nível dos rios traz prejuízos em diversos fatores para a sociedade, conforme explica Michele Aracaty. “As áreas de energia e alimentos são as mais afetadas. No caso da energia elétrica, fica mais cara devido ao uso de usinas térmicas quando falta água. O preço da comida sobe nos mercados locais em função do desequilíbrio da produção agrícola e do encarecimento do transporte de mercadoria”, explicou.
Caminhos possíveis para amenizar os efeitos do El Niño
Na capital, a necessidade de arborização é um tópico urgente há décadas. Manaus possui apenas 44% de toda sua área arborizada, segundo o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o que coloca a capital amazonense entre as cidades com menor taxa de cobertura vegetal urbana na região amazônica.
Entre as principais estratégias de planejamento urbano, utilizadas por cidades espalhadas pelo mundo que também enfrentam ondas de calor, estão florestas urbanas com política de plantio em massa de árvores nativas nas calçadas para gerar sombras e resfriar o ar por evapotranspiração, ampliação de parques lineares, alteração na estrutura de novos edifícios para evitar o bloqueio da ventilação natural e a criação de ilhas de calor, bem como outras iniciativas.
As medidas visam regenerar as áreas florestais da região, evitando o que os cientistas e pesquisadores chamam de “ponto de não-retorno”, em que a floresta perde sua capacidade de se regenerar sozinha. “Para reverter essa situação é necessário adotar ações estruturais que integrem conservação, economia e ciência de forma coordenada. Somente diminuir as emissões globais já não é o bastante, pois o bioma e suas comunidades precisam se adequar a uma nova realidade, caracterizada por eventos climáticos extremos”, concluiu Michele Aracaty.


