Uma pesquisa conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificou a presença de cocaína em 59 das 60 amostras de água coletadas em cinco rios e canais da capital e da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Os resultados, divulgados na quarta-feira (7), também revelaram a presença de benzoilecgonina, principal substância produzida pelo organismo após o consumo da droga, em todas as amostras analisadas.
O levantamento apontou concentrações superiores às registradas em estudos semelhantes realizados na Bélgica, Espanha e Estados Unidos. Além disso, testes laboratoriais demonstraram que os contaminantes podem provocar danos a organismos aquáticos, mesmo em concentrações encontradas no ambiente.
Cinco rios e canais foram analisados
Os pesquisadores monitoraram os rios Irajá e Carioca, além dos canais do Cunha e do Mangue, localizados na capital fluminense. A investigação também incluiu o Rio Meriti, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Todos os cursos d’água analisados deságuam na Baía de Guanabara, uma das principais áreas costeiras do estado.
Entre julho de 2022 e junho de 2023, os cientistas realizaram coletas mensais de água. Ao todo, foram examinadas 60 amostras, das quais apenas uma não apresentou vestígios de cocaína.
Por outro lado, a benzoilecgonina foi identificada em 100% das amostras. A substância é eliminada principalmente pela urina depois que o organismo metaboliza a cocaína.
Segundo os pesquisadores, a presença desse composto em concentrações elevadas é compatível com a contaminação provocada pelo lançamento de esgoto nos rios.
Contaminação aumentou durante período de chuvas
O estudo também identificou variações nas concentrações das substâncias ao longo do ano.
Os maiores índices ocorreram durante o período chuvoso, entre outubro e março, com pico em janeiro. Esse comportamento acompanha resultados de outras pesquisas que relacionam períodos de férias e festividades ao aumento de resíduos de drogas ilícitas no ambiente.
Na maioria das amostras, a concentração de benzoilecgonina superou a de cocaína, resultado que reforça a hipótese de contaminação por esgoto doméstico.
Entretanto, em uma das coletas, os pesquisadores encontraram uma concentração de cocaína quatro vezes superior à do metabólito. O resultado indica a possibilidade de descarte direto da droga naquele local.
Cocaína pode provocar danos neurológicos e cardiovasculares em peixes
Além de identificar a contaminação, os cientistas investigaram os efeitos das substâncias sobre organismos aquáticos.
Para isso, realizaram experimentos com embriões de peixe-zebra, espécie amplamente utilizada em pesquisas ambientais e toxicológicas.
Os resultados demonstraram que a exposição às concentrações identificadas nos rios provocou aumento da mortalidade, deformações físicas e alterações cardiovasculares e neurológicas nos animais.
Um dos resultados mais preocupantes envolveu a benzoilecgonina. Nos experimentos, a substância provocou danos mesmo quando utilizada em concentração equivalente a apenas 13% daquela encontrada no ambiente.
Os resultados indicam que os resíduos de drogas ilícitas representam um risco potencial para a biodiversidade aquática, especialmente em áreas urbanas com elevada carga de esgoto.
Os testes foram realizados em laboratório, e seus resultados não significam que todos os organismos presentes nos rios estejam sofrendo os mesmos efeitos.
Pesquisa será ampliada para 13 rios
O estudo foi coordenado pelo pesquisador Enrico Saggioro, do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).
A investigação também contou com pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz) e de universidades públicas fluminenses.
Os resultados foram publicados na revista científica internacional Aquatic Toxicology.
Diante das descobertas, os pesquisadores decidiram ampliar a investigação para 13 rios do Rio de Janeiro. A segunda etapa envolveu coletas realizadas entre dezembro de 2023 e novembro de 2024.
As análises continuam em andamento, com previsão de conclusão no primeiro semestre de 2027.
A equipe científica defende a inclusão da cocaína e da benzoilecgonina em programas de monitoramento ambiental, a fim de identificar riscos e fortalecer a proteção dos ecossistemas aquáticos.


