O Amazonas enfrenta um avanço expressivo das queimadas em 2026, impulsionado pela combinação de estiagem, temperaturas elevadas, influência do fenômeno El Niño e uso do fogo em atividades humanas. O cenário tem provocado incêndios florestais, comprometido a qualidade do ar e afetado a rotina da população em diversos municípios do estado, incluindo Manaus.
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados pelo Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM), mostram que o estado contabilizou 7.815 focos de calor entre 1º de janeiro e 12 de outubro deste ano. No mesmo período de 2025, foram registrados 3.611 focos, representando um aumento de aproximadamente 116%.
O crescimento das ocorrências se intensificou em outubro. Segundo levantamento divulgado pela Agência Brasil, somente nos dias 10 e 11 foram registrados 540 novos focos no estado. O número corresponde a mais da metade de todos os 874 focos detectados durante outubro de 2025.
A gravidade da situação levou ao reconhecimento de emergência em 36 municípios amazonenses e à mobilização de equipes para combater os incêndios.
O que está provocando o aumento das queimadas?
O avanço dos incêndios no Amazonas está associado a fatores climáticos e à atuação humana. Embora as altas temperaturas e a falta de chuvas favoreçam a propagação das chamas, a origem de muitos incêndios está relacionada ao uso do fogo para limpeza de terrenos, manejo de pastagens e abertura de áreas destinadas à agropecuária.
Durante a estiagem, a redução da umidade deixa folhas, galhos e outros materiais vegetais mais secos e inflamáveis. Nessas condições, um incêndio iniciado em área aberta pode se espalhar rapidamente e alcançar regiões de floresta.
A situação se torna ainda mais preocupante em áreas afetadas pelo desmatamento, onde a alteração da cobertura vegetal e o acúmulo de material combustível podem facilitar a expansão do fogo.
É importante destacar que as florestas tropicais úmidas, como a Amazônia, não apresentam naturalmente a mesma adaptação ao fogo observada em outros ecossistemas. Por isso, os incêndios podem provocar danos prolongados à vegetação e à biodiversidade.
El Niño contribui para o agravamento da estiagem
Outro fator associado ao aumento das queimadas é o fenômeno El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial.
O fenômeno altera os padrões de circulação atmosférica e pode provocar redução das chuvas em determinadas regiões da Amazônia, além de favorecer temperaturas mais elevadas.
Segundo boletim divulgado pelo Inpe em 1º de outubro, existe uma probabilidade de 95% de que o El Niño alcance intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026.
As projeções indicam condições mais secas no centro-norte do Brasil, com maior risco de incêndios florestais.
Entretanto, o El Niño não provoca diretamente o início das queimadas. Sua influência está principalmente nas condições climáticas que favorecem a propagação do fogo, enquanto a ignição frequentemente ocorre por interferência humana.
Uso irregular do fogo preocupa autoridades ambientais
O uso do fogo para limpeza de terrenos e preparação de áreas rurais é uma das principais preocupações dos órgãos ambientais durante o período de estiagem.
Em situações de baixa umidade e ventos intensos, queimadas realizadas sem controle podem ultrapassar os limites das propriedades e atingir extensas áreas de vegetação.
Durante um sobrevoo realizado no Amazonas, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, apontou indícios de ação humana em incêndios registrados em regiões florestais de difícil acesso.
A identificação dos responsáveis por cada ocorrência, no entanto, depende de fiscalização, levantamento de evidências e investigação pelos órgãos competentes.
O Governo do Amazonas também estabeleceu restrições ao uso do fogo como parte das medidas de prevenção e enfrentamento dos incêndios florestais.
Fumaça das queimadas afeta a população de Manaus
Além dos prejuízos ambientais, as queimadas têm provocado consequências diretas para a saúde e a rotina dos moradores da capital amazonense.
A fumaça transportada pelos ventos pode atingir áreas urbanas mesmo quando os incêndios ocorrem em municípios distantes. Em Manaus, a concentração de poluentes levou à deterioração da qualidade do ar e à adoção de medidas preventivas pelas autoridades.
Instituições de ensino, incluindo universidades, suspenderam temporariamente atividades presenciais em razão dos riscos provocados pela poluição atmosférica.
A fumaça das queimadas contém partículas finas capazes de penetrar profundamente nos pulmões, provocando irritação nos olhos, tosse, dor de garganta e dificuldades respiratórias.
Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos da exposição prolongada.
A poluição também pode agravar condições preexistentes, como asma e bronquite, aumentando a demanda por assistência médica.
Combate aos incêndios recebe reforço federal
Diante do agravamento da crise ambiental, o Governo Federal anunciou o reforço das operações de combate às queimadas no Amazonas.
Entre as medidas estão o envio de seis aeronaves, incluindo quatro aviões Air Tractor para lançamento de água e dois helicópteros de apoio às operações.
Também foi anunciada a mobilização de aproximadamente 290 brigadistas para reforçar as ações em áreas atingidas pelo fogo.
As operações envolvem a articulação entre órgãos federais, estaduais e municipais, com o objetivo de conter o avanço das chamas e reduzir os danos ambientais.
Apesar do reforço, o combate aos incêndios enfrenta dificuldades relacionadas às grandes distâncias, à extensão territorial do Amazonas e ao acesso limitado a determinadas regiões de floresta.
Como evitar novos incêndios?
Especialistas e órgãos ambientais destacam que a prevenção é fundamental para reduzir a ocorrência de queimadas, principalmente durante períodos de estiagem prolongada.
Entre as medidas recomendadas estão evitar a queima de lixo e resíduos vegetais, não utilizar fogo para limpar terrenos e comunicar às autoridades a identificação de focos de incêndio.
Em caso de incêndios de grandes proporções, a população não deve tentar combater as chamas sem treinamento ou equipamentos apropriados. A orientação é acionar o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193.
O monitoramento por satélite, a fiscalização ambiental e a atuação integrada dos órgãos de combate continuam sendo instrumentos importantes para identificar áreas vulneráveis e impedir que novos focos se transformem em incêndios de grandes proporções.
Com a previsão de continuidade das condições climáticas desfavoráveis, o Amazonas permanece sob atenção das autoridades ambientais e de saúde, enquanto a população enfrenta os efeitos das queimadas sobre o meio ambiente e a qualidade do ar.


