O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) participaram, na noite desta sexta-feira (23), do último debate presidencial antes do segundo turno das eleições, marcado para domingo (25). Transmitido pela TV Globo e mediado pelo jornalista César Tralli, o encontro reuniu propostas para diferentes regiões do país e discussões sobre economia, infraestrutura, serviços públicos e políticas sociais.
Entre os assuntos abordados estiveram o endividamento da população, a geração de empregos, o apoio a pequenos empreendedores, o saneamento básico, os investimentos em infraestrutura e o desenvolvimento econômico da Amazônia. Os candidatos também trocaram críticas sobre a atuação de governos anteriores e apresentaram visões diferentes sobre o papel do Estado na economia.
Endividamento e apoio a pequenos empreendedores
A situação financeira das famílias e dos pequenos negócios esteve entre os temas discutidos pelos candidatos. Lula defendeu medidas para reduzir o peso das dívidas, com a compra de débitos e a negociação de descontos que, segundo sua declaração, poderiam chegar a 90%, 92% ou até 95%.
O presidente afirmou que a proposta prevê a realização de um leilão entre instituições financeiras para negociar as dívidas com deságio. A iniciativa, segundo ele, busca facilitar a regularização financeira de pessoas endividadas. Lula também mencionou medidas voltadas a empreendedores individuais.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, apresentou uma proposta para incentivar a abertura de empresas sem que os beneficiários do Bolsa Família percam imediatamente o auxílio. Segundo o senador, quem decidir empreender poderá continuar recebendo o benefício durante um período de adaptação, até conseguir estabilizar a atividade. Ele também afirmou que pretende oferecer apoio caso o negócio não dê certo.
A proposta busca, segundo o candidato, estimular a formalização e a criação de pequenos negócios sem retirar de imediato a proteção social das famílias. As declarações, entretanto, representam compromissos de campanha e dependem das regras que seriam adotadas caso as medidas fossem implementadas.
Economia verde e desenvolvimento da Amazônia
O potencial econômico da Amazônia também entrou no confronto. Lula defendeu a chamada economia verde e argumentou que a floresta em pé pode gerar mais recursos do que atividades que dependem da derrubada da vegetação.
Ao criticar o conhecimento de Flávio Bolsonaro sobre a região, o presidente afirmou que o Amazonas tem potencial para atrair investimentos ligados à preservação ambiental e ao uso sustentável dos recursos naturais. A proposta apresentada por Lula é associar a proteção da floresta à geração de renda e ao desenvolvimento econômico.
A discussão colocou em evidência duas questões para a região Norte: a necessidade de ampliar as oportunidades de emprego e investimento e o desafio de conciliar a atividade econômica com a preservação ambiental.
Zona Franca de Manaus e atração de investimentos
A Zona Franca de Manaus foi outro assunto de interesse para o Amazonas. Flávio Bolsonaro afirmou que pretende manter o modelo e ampliar as oportunidades de investimento no estado. O senador classificou a Zona Franca como uma estrutura que considera fundamental para a economia local.
Entre as possibilidades citadas, ele mencionou a atração de investimentos para data centers e outras atividades tecnológicas. A proposta foi apresentada como uma forma de ampliar a presença de empresas e criar novas oportunidades econômicas na região.
O tema é relevante para o Amazonas devido à importância da Zona Franca para a atividade industrial, a geração de empregos e a arrecadação. A ampliação de investimentos em tecnologia, porém, depende de condições como infraestrutura, disponibilidade de energia, conectividade e segurança jurídica.
Saneamento básico e acesso à água
Flávio também abordou os problemas de saneamento básico na região Norte, com destaque para a falta de esgotamento sanitário adequado e as dificuldades de acesso à água potável. O candidato afirmou que pretende investir no setor e retomar a meta de atendimento de mais de 90% da população até 2033, conforme sua declaração sobre o marco legal do saneamento.
A proposta foi apresentada como resposta aos problemas enfrentados por moradores de diferentes municípios da região, onde a ampliação da infraestrutura de água e esgoto permanece um desafio.
O saneamento envolve investimentos de longo prazo, obras de infraestrutura e articulação entre governos, prestadores de serviço e municípios. A execução das metas depende de recursos, planejamento e acompanhamento dos resultados.
Críticas sobre a crise de oxigênio no Amazonas
A pandemia de covid-19 e a crise de abastecimento de oxigênio em Manaus também apareceram nas críticas de Lula a Flávio Bolsonaro. O presidente questionou o conhecimento do senador sobre a realidade do Amazonas e relembrou a emergência sanitária registrada no estado em janeiro de 2021, quando pacientes enfrentaram a falta de oxigênio hospitalar.
Durante a fala, Lula afirmou que a imagem do Amazonas associada ao adversário estaria ligada ao episódio envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do senador. O presidente usou a crise para questionar a relação de Flávio com os problemas enfrentados pela população da região Norte.
A crise de oxigênio marcou um dos períodos mais graves da pandemia no estado e permanece como referência nas discussões sobre a atuação das autoridades públicas durante a emergência sanitária.
Infraestrutura e recuperação do Rio Grande do Sul
A infraestrutura e a recuperação de áreas atingidas por desastres também fizeram parte das propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro. Ao falar sobre o Rio Grande do Sul, o senador prometeu ajudar o governador Zucco a enfrentar o endividamento estadual e recuperar a capacidade de investimento dos municípios.
Ele também mencionou a compra e a instalação de bombas d’água para ajudar a impedir novos alagamentos em cidades próximas a Porto Alegre. A declaração foi apresentada como parte de um plano de apoio à recuperação do estado e à prevenção de problemas provocados por enchentes.
As propostas envolvem tanto a situação fiscal do governo estadual quanto a necessidade de infraestrutura para reduzir os impactos de eventos climáticos extremos. A implementação depende de recursos, definição de responsabilidades e coordenação entre os governos federal, estadual e municipais.
Impostos, renda e papel do Estado
A política econômica também esteve presente nas críticas trocadas pelos candidatos. Lula contestou o discurso de Flávio Bolsonaro sobre a carga tributária e afirmou que setores da elite econômica se incomodam com medidas que ampliam o acesso da população de baixa renda à universidade, ao ensino técnico e a melhores salários.
O presidente relacionou a política econômica à melhoria das condições de vida da população e à ampliação de oportunidades. Flávio, por sua vez, apresentou propostas voltadas ao empreendedorismo, à formalização de trabalhadores e à atração de investimentos privados.
As declarações expuseram diferenças sobre como estimular o crescimento econômico e distribuir oportunidades. Enquanto Lula enfatizou políticas sociais e a atuação do poder público, Flávio destacou o incentivo aos negócios e a criação de condições para ampliar investimentos.
Propostas e ataques no último confronto
O debate na Globo ocorreu dois dias antes da votação do segundo turno e deu espaço para os candidatos apresentarem compromissos de governo e questionarem as propostas do adversário. Em comparação com o confronto anterior, realizado pela TV Bandeirantes, a discussão na Globo teve maior espaço para temas de políticas públicas, embora também tenha registrado críticas pessoais e disputas sobre o legado das administrações.
As falas sobre endividamento, emprego, saneamento, infraestrutura e desenvolvimento da Amazônia mostraram a variedade de assuntos mobilizados pelas campanhas para dialogar com diferentes regiões e segmentos da população.
O confronto terminou como a última oportunidade de Lula e Flávio Bolsonaro apresentarem suas propostas diretamente ao eleitorado antes do segundo turno. As medidas anunciadas durante o debate dependerão, caso sejam adotadas, de detalhamento, viabilidade orçamentária e implementação pelas instituições responsáveis.


