Diante de cenários severos de estiagem e da histórica dificuldade de acesso à água tratada na Amazônia, uma solução inovadora nasceu dentro de uma escola pública no interior do estado. Alunas da Escola Estadual José Mota, localizada em Manacapuru (AM), desenvolveram o projeto ArapaimAtivos. A iniciativa transforma a ossada descartada do pirarucu (Arapaima gigas) em carvão ativado de alta eficiência, utilizado para filtrar e purificar a água consumida por comunidades ribeirinhas.
O impacto científico e social da ideia rendeu projeção nacional ao grupo no quadro “JN nas Ruas”, da Rede Globo, e garantiu a Sophia Batista (17 anos) e suas colegas de equipe uma vaga para representar o Brasil em uma prestigiada competição científica e intercâmbio de inovação na China.
A Ciência por Trás do “ArapaimAtivos”
Sob a orientação do professor de Biologia e Química Galileu da Silva Pires, o grupo composto por Sophia e as estudantes Laíssa Araújo e Geimile Guimarães, buscou um substituto sustentável ao carvão ativado vegetal tradicional.
Eles descobriram que a estrutura do pirarucu, o maior peixe de escamas de água doce do mundo, possui propriedades ideais para a filtragem:
1. Coleta de Resíduos: A equipe recolhe as ossadas descartadas pela pesca manejada local. O processo possui impacto zero na fauna, pois reaproveita o que já seria jogado fora como lixo.
2. Ativação Térmica: O material passa por um processo de queima controlada e ativação química para criar uma estrutura altamente porosa.
3. Mecanismo de Adsorção: Rico em minerais, o carvão resultante atrai e retém as impurezas, microrganismos e sedimentos da água em sua superfície, funcionando como um poderoso purificador biológico.
Biofiltros Acessíveis: 2 Litros de Água Limpa por Hora
Para colocar a pesquisa em prática, as estudantes desenvolveram um protótipo de biofiltro utilizando garrafas PET recheadas com o carvão ativado do pirarucu. O dispositivo é capaz de filtrar cerca de dois litros de água por hora.
A engenharia simples e barata foi pensada sob medida para resolver a escassez de água potável enfrentada por famílias ribeirinhas, principalmente durante os períodos de seca extrema nos rios amazônicos, quando o isolamento geográfico dificulta o abastecimento. O projeto também soluciona um problema ecológico local, já que o descarte incorreto de toneladas de carcaças de peixe costuma poluir as margens dos rios e os aterros da região.
Reconhecimento e Destino: China
O projeto acumulou conquistas importantes, incluindo uma menção honrosa nacional e o posto de finalista no prêmio nacional Prêmio Solve for Tomorrow Brasil. Mais recentemente, o potencial do filtro levou a equipe a receber o convite para a viagem rumo à Ásia.
Mesmo conduzindo os experimentos com recursos escassos no laboratório da escola, a persistência foi a chave para o sucesso internacional. Como destacou Sophia Batista ao celebrar a oportunidade de levar a ciência da floresta para o outro lado do mundo:
“Se eu tivesse desistido, eu não iria chegar onde eu estou agora.”
O projeto agora entra em fases de novas validações laboratoriais na Fiocruz Amazônia para certificar a total segurança e estudar o ganho de escala da tecnologia.


