Por Erica Lima Barbosa Aguiar
O Serviço Social no Brasil nasceu entre a caridade, a fé, o controle da pobreza e a tentativa de organizar respostas institucionais para as dores sociais de um país profundamente desigual. Mas a profissão não permaneceu no lugar em que nasceu. Ao longo do tempo, rompeu com a lógica puramente assistencialista, amadureceu teoricamente, conquistou legislação própria, consolidou um Código de Ética crítico e passou a se afirmar como uma profissão comprometida com direitos, cidadania, democracia e justiça social.
Essa virada não foi pequena. A Lei nº 8.662/1993 regulamentou a profissão de assistente social e definiu competências e atribuições profissionais. No mesmo período, o Código de Ética de 1993 consolidou princípios como defesa dos direitos humanos, ampliação da cidadania, liberdade, democracia e recusa do autoritarismo. Esses marcos materializam aquilo que o próprio CFESS reconhece como parte do projeto ético-político construído pela categoria nas últimas décadas.
No imaginário popular, entretanto, o assistente social ainda é muitas vezes visto como “quem ajuda”, “quem resolve benefício”, “quem entrega cesta básica”, “quem encaminha para o Bolsa Família”, “quem atende a dor quando o Estado falha”. Essa imagem tem um lado bonito, porque revela a presença concreta da profissão na vida de quem mais precisa. Mas também carrega uma distorção: reduz uma profissão crítica, técnica e política ao lugar da bondade individual.
O legado dos assistentes sociais é maior do que a assistência imediata. Está nos hospitais, nas escolas, nos CRAS, nos CREAS, no sistema sociojurídico, nas políticas habitacionais, na previdência, na saúde mental, na defesa da criança, da mulher, da pessoa idosa, da população em situação de rua, das famílias pobres, das vítimas de violência e de todos aqueles que, muitas vezes, só encontram no Serviço Social a primeira escuta institucional.
No Amazonas, essa trajetória ganha contornos ainda mais complexos. Fazer Serviço Social na Amazônia é enfrentar desigualdade urbana, pobreza ribeirinha, isolamento geográfico, violações de direitos, ausência de políticas públicas em territórios distantes, precarização do trabalho e um Estado que nem sempre chega onde a população vive. O CRESS Amazonas, criado em 10 de junho de 1983, tem mais de quatro décadas de atuação na fiscalização, orientação e defesa do exercício profissional no estado. A própria programação recente do conselho marca os 90 anos do Serviço Social no Brasil e os 85 anos no Amazonas, reforçando essa história local de resistência.
Mas é preciso fazer a pergunta incômoda: se a profissão tem história, teoria, legislação e compromisso ético, por que ainda parece ter pouca força de articulação política?
A resposta não é simples. Não se trata apenas de dizer que a categoria é desunida. Também não basta acusar o projeto profissional de ser frágil. O projeto ético-político do Serviço Social brasileiro é forte no papel, na teoria e na história. O problema está na sua materialização cotidiana. Como lembram autores como José Paulo Netto, a ruptura com o conservadorismo não eliminou as disputas internas, nem impediu o retorno de tendências pragmáticas, conservadoras ou despolitizadas dentro da profissão.
Marilda Iamamoto ajuda a compreender que o Serviço Social está inserido nas contradições da sociedade capitalista. O assistente social trabalha entre a defesa de direitos e os limites impostos pelo Estado, pelo mercado, pela burocracia e pela precarização das políticas sociais. Ou seja: a profissão não atua fora da disputa social; ela está no centro dela.
Yolanda Guerra, ao discutir a instrumentalidade do Serviço Social, também nos lembra que a prática profissional não pode ser reduzida ao uso de formulários, pareceres, entrevistas ou encaminhamentos. A técnica precisa ter direção social, consciência crítica e finalidade ética. Sem isso, o profissional vira apenas executor de demandas institucionais.
E talvez esteja aí uma das maiores fragilidades atuais: muitos assistentes sociais têm consciência técnica, mas pouca organização coletiva; têm indignação individual, mas pouca articulação política; têm crítica ao sistema, mas pouca presença nos espaços de decisão.
O Serviço Social conquistou muito no Amazonas: reconhecimento institucional, presença nas políticas públicas, organização regional, produção acadêmica, fiscalização profissional e inserção em áreas fundamentais da proteção social. Mas ainda falta transformar presença em poder coletivo. Falta ocupar conselhos, sindicatos, câmaras, assembleias, fóruns, universidades, movimentos sociais e espaços de formulação de políticas públicas com mais unidade estratégica.
O problema não é ausência de importância. É ausência de força organizada.
A categoria muitas vezes aparece fragmentada: profissionais sobrecarregados, salários baixos, vínculos precários, equipes reduzidas, adoecimento emocional e pouca participação nas entidades representativas. A jornada de 30 horas semanais foi uma conquista importante incorporada à legislação profissional, mas a valorização salarial, a estrutura de trabalho e o reconhecimento político ainda seguem como desafios.
Então, o que há para comemorar no Dia do Assistente Social?
Há muito. Comemora-se a resistência de uma profissão que não desapareceu diante da precarização. Comemora-se a coragem de quem atende a fome, a violência, o abandono, a perda, o luto, o desemprego e a violação de direitos sem perder a dimensão humana. Comemora-se a existência de um projeto ético que ainda diz: direitos não são favor, cidadania não é caridade e pobreza não é culpa individual.
Mas comemorar não pode ser apenas publicar homenagens. Comemorar também é perguntar: onde está a nossa força coletiva? Onde está o nosso “uni-vos”? Onde está a capacidade de transformar indignação em agenda pública?
Como pode haver união em uma categoria desestruturada, pouco organizada e, muitas vezes, apolítica? Só haverá união quando a categoria compreender que política não é partido, é direção de mundo. Política é disputar orçamento. É defender concurso público. É exigir equipes completas. É combater o assédio institucional. É fortalecer o CRESS. É participar das assembleias. É construir liderança. É formar opinião. É falar para além dos muros acadêmicos.
O Serviço Social precisa voltar a ser não apenas uma profissão que acolhe, mas uma categoria que incomoda.
Porque, no fim, o legado dos assistentes sociais não está apenas nos relatórios, pareceres, laudos, visitas domiciliares ou encaminhamentos. Está na memória de cada pessoa que encontrou dignidade quando o Estado ofereceu silêncio. Está na defesa de cada direito negado. Está na coragem de dizer que a desigualdade não é natural.
O Serviço Social tem o que comemorar. Mas tem ainda mais o que organizar.
E talvez esse seja o maior desafio da profissão no Brasil e no Amazonas: deixar de ser lembrada apenas como a mão que socorre e passar a ser reconhecida também como a voz que disputa, articula, denuncia e transforma.
Mini biografia
Erica Lima Barbosa Aguiar é jornalista, pesquisadora, escritora e analista política no Amazonas. Atua há mais de 15 anos com pesquisa qualitativa, comunicação, opinião pública e análise de cenários sociais e políticos. É autora de artigos de opinião sobre comportamento eleitoral, direitos sociais, mulheres, Amazônia e políticas públicas. Também sou bacharel em Serviço Social, onde atuei mais de uma década formando milhares de profissional no Estado do Amazonas.


