O avanço da inadimplência no Amazonas acendeu um alerta entre especialistas em economia, educação financeira e órgãos de defesa do consumidor. Dados da Serasa mostram que o estado alcançou, em abril de 2026, a marca de 1,8 milhão de pessoas inadimplentes. Somente em Manaus, são 1,2 milhão de consumidores com dívidas em atraso.
O cenário coloca o Amazonas entre os estados com maior percentual de inadimplência do país. Atualmente, 60,5% da população amazonense possui algum tipo de dívida negativada, índice superior à média nacional, que está em 50,81%.
Especialistas ouvidas pela reportagem apontam que o problema vai além da falta de planejamento financeiro individual. Inflação, juros elevados, aumento do custo de vida, dificuldades logísticas da região e até o crescimento das apostas online estão entre os fatores que pressionam o orçamento das famílias.
O Procon-AM também acompanha o avanço do problema e afirma que Manaus já figura entre as capitais brasileiras com maiores índices de superendividamento.
Custo de vida pressiona famílias
A economista e professora da Universidade Federal do Amazonas, Dra. Michele Aracaty, afirma que o endividamento no Amazonas está diretamente ligado a uma combinação de fatores econômicos e estruturais.

Segundo ela, a inflação, a renda média baixa, o chamado “custo amazônico” e os impactos das mudanças climáticas influenciam diretamente no aumento das despesas das famílias.
“Há um conjunto de fatores que pesa sobre o orçamento dos amazonenses. Temos alta nos preços, juros elevados, logística mais cara, custo de produção elevado e comprometimento da renda familiar com itens básicos”, explicou.
A especialista também chama atenção para o impacto das apostas online no orçamento doméstico. De acordo com ela, o crescimento desse mercado tem agravado situações de vulnerabilidade financeira, principalmente entre famílias de baixa renda.
Além disso, questões climáticas também interferem no cenário econômico regional. Safras comprometidas, desperdícios na cadeia de distribuição e aumento dos custos logísticos contribuem para elevar o preço final dos produtos consumidos no estado.
Cartão de crédito virou extensão da renda
Entre as principais dívidas dos amazonenses estão cartão de crédito, cheque especial, empréstimos bancários, carnês de lojas e contas básicas, como energia elétrica, água e internet.
Para Michele Aracaty, o cartão de crédito passou a funcionar, na prática, como uma extensão da renda mensal de muitas famílias.
“O consumidor acaba criando uma falsa sensação de poder de compra. Porém, o crédito rotativo e o pagamento mínimo da fatura estão entre as modalidades mais caras do mercado”, destacou.
A especialista em educação financeira da Serasa, Aline Vieira, reforça que bancos e cartões continuam liderando o ranking das dívidas no Amazonas.

Segundo dados da instituição, 25,13% das dívidas no estado estão relacionadas ao setor bancário e cartões de crédito. Na sequência aparecem dívidas do varejo (21,36%), financeiras (18,16%) e contas básicas (15,64%).
O Procon-AM também aponta que modalidades de crédito rotativo e sem garantia estão entre as principais responsáveis pelo agravamento das dívidas das famílias.
Segundo o órgão, cartão de crédito, empréstimo pessoal e cheque especial possuem taxas significativamente mais elevadas do que outras modalidades, como o crédito consignado, o que acelera o chamado “efeito bola de neve”.
Mulheres lideram índice de inadimplência
Os dados mostram ainda um perfil mais vulnerável ao endividamento no Amazonas.
Segundo Michele Aracaty, mulheres entre 26 e 40 anos, chefes de família e trabalhadoras informais representam a maior parcela dos consumidores endividados no estado.
Os números da Serasa confirmam essa tendência. Atualmente, as mulheres representam 52,1% dos inadimplentes amazonenses.

Já em relação à faixa etária, o grupo entre 41 e 60 anos concentra 35,5% dos negativados.
Para Aline Vieira, o cenário econômico nacional também influencia diretamente esse quadro.
“A inadimplência é um fenômeno macroeconômico. Ela envolve juros, inflação, relações econômicas internacionais e falta de educação financeira”, explicou.
Dados levantados pela Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box mostram que sete em cada dez brasileiros perceberam aumento no custo de vida nos últimos 12 meses. Supermercado, moradia e contas básicas já consomem 57% do orçamento familiar.
Quando a dívida vira superendividamento
Especialistas alertam que existe diferença entre possuir dívidas controladas e viver um quadro de superendividamento.
Segundo Michele Aracaty, uma dívida é considerada controlada quando ela permanece dentro da capacidade de pagamento da família.
O problema começa quando os débitos comprometem despesas essenciais, como alimentação, moradia, saúde e renda básica.
“O superendividamento impede uma sobrevivência digna. A família deixa de conseguir arcar com necessidades fundamentais”, afirmou.
O Procon-AM afirma que o comprometimento severo da renda já afeta diretamente a subsistência de milhares de consumidores em Manaus.
Segundo o órgão, muitos cidadãos deixam de conseguir pagar despesas básicas e acabam entrando em ciclos prolongados de renegociação, juros elevados e novas dívidas.
Além disso, o consumidor inadimplente passa a enfrentar mais dificuldades para acessar crédito.
Aline Vieira explica que instituições financeiras adotam critérios mais rígidos para clientes negativados. Com isso, aumentam os juros, reduzem limites e diminuem as chances de aprovação em financiamentos e empréstimos.
Reclamações e práticas abusivas preocupam
Embora bancos e cartões estejam entre os principais fatores do endividamento, o Procon-AM informa que as empresas com maior número de reclamações atualmente são Águas de Manaus e Âmbar Energia, antiga Amazonas Energia.
Ao mesmo tempo, o órgão relata crescimento dos atendimentos relacionados ao superendividamento desde a criação do Núcleo de Apoio aos Superendividados (NAS), em 2021.
Segundo o instituto, uma das principais práticas abusivas identificadas durante renegociações é a aplicação de juros considerados excessivos, além de cobranças de seguros embutidos sem consentimento claro do consumidor.
O órgão também alerta que muitos consumidores desconhecem direitos previstos na Lei do Superendividamento e acabam aceitando acordos desvantajosos diretamente com instituições financeiras.
De acordo com o Procon-AM, esse processo pode prolongar o endividamento e provocar impactos emocionais graves, como ansiedade, estresse crônico e depressão.
Procura por renegociação cresce
Diante do aumento das dívidas, cresceu também a busca por renegociação financeira.
Dados da Serasa mostram que os acordos fechados pelo programa Serasa Limpa Nome aumentaram 9,87% em um ano.
Em abril de 2025, foram registrados 3,69 milhões de acordos. Já em abril de 2026, o número subiu para mais de 4,06 milhões.
Para especialistas, o crescimento demonstra que parte da população tenta reorganizar as finanças diante da pressão econômica.
Ainda assim, elas alertam que renegociar sem planejamento pode agravar o problema.
O Procon-AM orienta que, antes de assinar qualquer acordo, o consumidor solicite cópia do contrato original e planilhas detalhadas da evolução da dívida.
Segundo o órgão, essa análise ajuda a identificar juros abusivos, taxas administrativas, IOF, encargos e seguros embutidos.
Educação financeira ganha papel central
Entre as principais recomendações para evitar o superendividamento estão organização do orçamento, controle de gastos e planejamento financeiro familiar.
Michele Aracaty orienta que as famílias anotem despesas, revisem os últimos meses de gastos e envolvam todos os membros da casa nas decisões financeiras.
“É necessário diálogo, clareza e ação conjunta. O principal é não gastar mais do que ganha”, afirmou.
Já Aline Vieira destaca que muitos consumidores desconhecem a própria realidade financeira, o que dificulta o uso saudável do crédito.
Segundo ela, antes de contratar empréstimos ou parcelamentos, o consumidor precisa avaliar renda, despesas fixas e capacidade real de pagamento.
O Procon-AM também defende ações contínuas de educação financeira. Por meio do Núcleo de Apoio aos Superendividados (NAS), o órgão realiza orientação financeira e mediação entre consumidores e credores.
Segundo o instituto, o objetivo vai além da renegociação das dívidas.
“O tratamento do superendividamento envolve dignidade, reinserção social e recuperação sustentável da vida financeira do consumidor”, destacou o órgão.
As especialistas também defendem políticas públicas voltadas à educação financeira desde a educação básica, além da ampliação de programas de renegociação de dívidas e aplicação efetiva da Lei do Superendividamento.
Cenário exige atenção
O crescimento da inadimplência no Amazonas reflete um cenário econômico cada vez mais desafiador para as famílias. Com renda pressionada, juros elevados e aumento constante do custo de vida, o crédito passou a ser utilizado como alternativa para manter despesas básicas.
Especialistas alertam, no entanto, que o uso descontrolado do crédito pode transformar dificuldades momentâneas em um ciclo prolongado de superendividamento.
Nesse contexto, educação financeira, planejamento e renegociação consciente aparecem como caminhos essenciais para evitar que o problema continue avançando no estado.
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