O advogado criminalista Rafaell Câmara Roque, de 36 anos, foi sequestrado e mantido refém por cerca de seis horas em um suposto “tribunal do crime” do Primeiro Comando da Capital (PCC), em Cubatão, no litoral de São Paulo. O caso aconteceu em junho e levou à deflagração de uma operação para identificar os responsáveis.
Segundo a investigação, o objetivo do grupo era obrigar o advogado a desistir de uma ação judicial movida contra uma empresa e entregar o endereço de um dos sócios. Rafaell foi liberado depois de prometer abandonar o processo.
O advogado contou que chegou ao local após receber uma proposta de trabalho. Um homem identificado como William Nascimento Boaventura teria entrado em contato pedindo ajuda para tentar libertar um suposto integrante do PCC preso. Em vez de marcar o encontro em uma delegacia, William teria orientado Rafaell a ir até uma comunidade.
Durante o trajeto, o advogado percebeu que poderia estar sendo vítima de uma armadilha. Ao chegar a um barraco, segundo ele, encontrou uma espécie de tribunal formado por criminosos.
Rafaell permaneceu no local das 19h até 1h da madrugada seguinte. De acordo com o relato, cerca de 30 pessoas participaram das ameaças e da pressão psicológica. O suposto líder do grupo, Wagner Rodrigues dos Santos, teria participado por videochamada e exercido o papel de “juiz” durante o interrogatório.
Ação judicial teria motivado sequestro
A investigação aponta que o sequestro estaria relacionado a um processo movido pelo advogado contra uma empresa comandada por Wagner.
Rafaell afirmou que seus clientes tinham uma relação antiga com Wagner e teriam sido retirados do negócio. Segundo o advogado, havia um acordo para que eles recebessem o valor correspondente à participação na empresa, mas o pagamento não teria sido feito.
O empreendimento, localizado no Guarujá, seria de grande interesse do grupo. O local possui 440 metros quadrados em uma área portuária, além de barcos pesqueiros, câmaras frigoríficas e equipamentos usados no processamento de camarão e na produção de gelo.
Após ser mantido refém, Rafaell prometeu abandonar a ação. Cerca de uma semana depois, ele cumpriu a promessa durante uma audiência, mas posteriormente procurou o Ministério Público e denunciou o sequestro.
Operação prende suspeito
O caso deu origem à Operação Patrocínio Fiel, realizada pelo Ministério Público e pela Polícia Militar na última quarta-feira (12). Foram cumpridos mandados em São Paulo e Santa Catarina.
William Nascimento Boaventura, apontado como responsável por atrair o advogado para a emboscada, foi preso. Wagner Rodrigues dos Santos, que seria o responsável por conduzir o chamado “tribunal do crime”, está foragido. Um terceiro suspeito morreu.
A investigação é conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
‘Pensei que fosse perder minha vida’
Após o sequestro, Rafaell relatou mudanças na rotina e impactos na saúde mental. Segundo ele, passou dias sem dormir e começou a desconfiar de ligações e contatos desconhecidos.
“Pensei que fosse perder minha vida”, afirmou.
Mesmo com medo de possíveis represálias, o advogado decidiu tornar o caso público. Para ele, manter o silêncio poderia fortalecer a atuação de organizações criminosas.
O advogado também criticou a contradição entre as ações atribuídas ao grupo e o lema “Paz, Justiça e Liberdade”, associado ao PCC. Segundo Rafaell, durante o sequestro, ele foi justamente privado de liberdade e submetido a ameaças.
(*)Com informações do O Povo e G1


