Há uma imagem que deveria nos impedir de seguir o dia normalmente.
Um professor está diante da lousa. Está de costas. Faz aquilo que professores fazem todos os dias: ensina.
Atrás dele está um adolescente.
E, entre os dois, por alguns segundos, existe apenas uma sala de aula.
Então surge uma faca.

Na noite de 26 de agosto de 2026, em um centro particular de reforço escolar no bairro Nossa Senhora das Graças, em Manaus, o professor Vinicius Siqueira Figueiredo foi atacado por um estudante adolescente enquanto dava aula. O caso foi encaminhado à Delegacia Especializada em Apuração de Atos Infracionais (DEAAI) e é investigado como ato infracional análogo à tentativa de homicídio. As primeiras notícias apresentam divergências sobre alguns detalhes, inclusive idade e número exato de golpes, razão pela qual é necessário separar o que está confirmado pelas autoridades daquilo que ainda depende da investigação.
Mas existe uma coisa sobre a qual as imagens não permitem dúvida: um jovem levou a violência para dentro de um espaço destinado ao conhecimento.
E talvez a pergunta mais fácil seja:
Como um adolescente foi capaz de fazer isso?
A pergunta mais difícil é outra:
O que aconteceu antes de ele chegar até ali?
Não falo especificamente desse adolescente, cuja história familiar, psicológica e social não conhecemos e sobre a qual seria irresponsável especular. Falo das nossas crianças. Das nossas casas. Das nossas escolas. Da sociedade que construímos.
Porque uma faca aparece em segundos.
Uma infância, não.
A violência não começou ontem
Manaus já havia experimentado o medo de ver uma sala de aula transformada em cenário de ataque.
Em 10 de abril de 2023, um estudante de 12 anos atacou pessoas no Colégio Adventista de Manaus. A própria instituição confirmou que dois estudantes e uma funcionária foram atingidos e receberam atendimento.
O Amazonas não estava isolado de um fenômeno nacional.
Em 2017, Janaúba, em Minas Gerais, assistiu à tragédia de uma creche incendiada. Em 2019, Suzano, em São Paulo, tornou-se sinônimo de massacre escolar. Em 2021, crianças e profissionais foram mortos em uma escola infantil de Saudades, Santa Catarina. Em 2022, duas escolas de Aracruz, no Espírito Santo, foram atacadas. Em março de 2023, a professora Elisabeth Tenreiro morreu após ser esfaqueada em uma escola de São Paulo. Dias depois, quatro crianças foram assassinadas em uma creche de Blumenau.
Não estamos mais diante de episódios que possam ser tratados simplesmente como aberrações incompreensíveis.
O levantamento oficial reunido pelo Observatório Nacional dos Direitos Humanos aponta 43 ataques de violência extrema contra escolas brasileiras desde 2001, com 168 pessoas vitimadas: 47 vítimas fatais e 115 feridas, além de seis autores que morreram. O dado mais inquietante está na curva histórica: entre 2001 e 2018 ocorreram dez ataques; a partir de 2019 houve forte aceleração do fenômeno.
O próprio relatório governamental chama atenção para elementos como ressentimento, desejo de vingança, busca por notoriedade e, de maneira especialmente preocupante, a influência de ambientes virtuais e comunidades que disseminam intolerância, extremismo e discursos de ódio.
Portanto, colocar um policial na porta pode ser necessário em determinadas circunstâncias.
Colocar detector de metais pode ser necessário.
Instalar câmeras pode ser necessário.
Mas nenhuma câmera instalada no corredor consegue filmar os dez anos anteriores da vida de uma criança.
E é justamente ali que precisamos olhar.
Quem está educando nossas crianças?
Talvez esta seja uma das perguntas mais incômodas do nosso tempo.
Quem está ensinando uma criança a suportar um “não”?
Quem ensina que perder faz parte da vida?
Quem estabelece limites?
Quem percebe quando o silêncio deixou de ser timidez e passou a ser sofrimento?
Quem observa o que ela assiste durante horas no celular?
Quem conversa?
Quem abraça?
Quem corrige?
Quem permanece?
Não podemos terceirizar integralmente essas respostas à escola.
Professor ensina matemática.
Professor ensina português.
Professor ensina história.
Professor também acolhe, orienta, observa e educa para a convivência.
Mas professor não pode substituir sozinho uma família, uma rede de saúde mental, a assistência social, o Conselho Tutelar, a segurança pública e o Estado brasileiro.
Estamos depositando sobre a escola uma quantidade quase impossível de responsabilidades e depois nos surpreendemos quando seus muros não conseguem conter todos os conflitos que nasceram fora deles.
A casa também pode ser o primeiro lugar da violência
Existe outra estatística que precisamos colocar ao lado dos ataques escolares.
Entre 2015 e 2021, o Brasil notificou 202.948 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes no sistema de vigilância do Ministério da Saúde: 83.571 envolvendo crianças e 119.377 adolescentes. Somente em 2021 foram 35.196 notificações.
E o Amazonas tem números particularmente dolorosos.
Dados oficiais da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas mostram que, entre 2020 e 2024, foram registrados 10.137 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes no estado.
Em 2025 foram 3.164 notificações, contra 1.585 em 2021. Meninas corresponderam a 93,1% dos registros de 2025, e crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos concentraram 57,9% das notificações.
E estamos falando apenas da violência sexual.
Outro levantamento com dados do Sinan registrou 16.482 notificações de violência contra crianças e adolescentes no Amazonas entre 2018 e 2022, com maior concentração entre 10 e 14 anos.
O que esses números estão tentando nos dizer?
Que existem crianças chegando à escola carregando mochilas que ninguém vê.
Dentro delas pode haver abuso.
Humilhação.
Agressão.
Negligência.
Fome.
Rejeição.
Bullying.
Medo.
Abandono.
Solidão.
Isso jamais significa afirmar que uma criança violentada se tornará violenta. A enorme maioria das vítimas não se transforma em agressora.
Significa outra coisa: violência sofrida exige cuidado. Trauma exige cuidado. Sofrimento exige cuidado.
Ignorá-los também produz consequências.
E onde estão os pais?
A pergunta incomoda porque toca em uma ferida brasileira.
Entre janeiro de 2016 e julho de 2024, aproximadamente 1,2 milhão de crianças brasileiras foram registradas somente com o nome da mãe, segundo dados do Registro Civil divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça.
Um nome ausente na certidão não significa necessariamente ausência afetiva, assim como um nome presente não significa que exista um pai verdadeiramente presente.
Mas 1,2 milhão é grande demais para que a sociedade não faça perguntas.
Onde estão esses homens?
Quem divide a madrugada da febre?
Quem comparece à reunião escolar?
Quem pergunta sobre a nota?
Quem percebe a mudança de comportamento?
Quem estabelece limites?
Quem paga?
Quem educa?
Quem fica?
Enquanto discutimos a chamada “desestruturação familiar”, precisamos tomar cuidado para não transformar mães em rés de um processo do qual muitas já são vítimas.
O Brasil tinha, em 2022, aproximadamente 7,8 milhões de mulheres sem cônjuge vivendo com filhos, segundo o IBGE.
E as mulheres brasileiras dedicavam, em média, 21,3 horas semanais ao cuidado de pessoas e aos afazeres domésticos, contra 11,7 horas dos homens.
Então talvez devamos inverter a pergunta.
Em vez de:
“Por que essa mãe não acompanhou?”
Perguntemos:
“Por que ela precisou acompanhar tudo sozinha?”
Há mães acordando antes do amanhecer, preparando comida, deixando criança na escola, pegando dois ônibus, trabalhando oito ou dez horas, voltando para casa, lavando roupa, fazendo jantar, conferindo tarefa e tentando descobrir, já exaustas, o que aconteceu com o filho naquele dia.
Isso não é romantismo.
É sobrecarga.
E algumas vivem uma jornada que não é dupla.
É tripla.
Enquanto isso, em milhares de histórias, a paternidade continua resumida a uma assinatura, quando existe assinatura.
Reconhecimento de paternidade precisa ser tratado como política permanente. Mas reconhecer biologicamente não basta.
Precisamos falar de responsabilidade parental.
Gerar uma criança cria deveres.
O Estatuto da Criança e do Adolescente hoje estabelece expressamente aos pais deveres de sustento, guarda, convivência, assistência material e afetiva e educação dos filhos menores.
Paternidade não pode ser visita eventual.
Maternidade não pode ser condenação à solidão.
E planejamento familiar não pode significar coerção sobre o direito de ter filhos. Deve significar informação, saúde reprodutiva, escolha consciente e, sobretudo, compreensão de que colocar alguém no mundo implica responsabilidade jurídica, material, educativa e afetiva.
Afeto também educa. Limite também é amor.
Talvez tenhamos cometido outro erro.
Confundimos educação não violenta com ausência de limite.
Não bater em uma criança não significa permitir tudo.
Educar sem violência exige muito mais trabalho.
Exige dizer não.
Exige sustentar o não.
Exige conversar.
Exige consequência.
Exige horário.
Exige responsabilidade.
Exige respeito aos professores.
Exige ensinar que frustração não é humilhação.
Que receber uma nota ruim não destrói ninguém.
Que perder não autoriza agredir.
Que discordar não autoriza odiar.
Que raiva existe, mas precisa encontrar linguagem antes de encontrar uma arma.
A filósofa e educadora bell hooks defendia uma educação fundada na presença, na liberdade e no compromisso humano. Amor, nessa perspectiva, não é apenas sentimento: envolve responsabilidade, cuidado, conhecimento e compromisso.
É disso que estamos falando.
Amor sem responsabilidade vira palavra.
Disciplina sem afeto vira medo.
Afeto sem limite pode virar abandono disfarçado de liberdade.
Uma criança precisa saber duas coisas simultaneamente:
“Eu amo você.”
e
“Isso não pode.”
A infância conectada e emocionalmente desconectada
Byung-Chul Han escreve sobre uma sociedade exausta, hiperconectada, permanentemente estimulada.
Talvez nunca tenhamos visto tanto nossos filhos.
E talvez nunca tenhamos olhado tão pouco para eles.
Sabemos onde estão pelo GPS.
Não sabemos onde estão emocionalmente.
Conhecemos a senha do Wi-Fi.
Não conhecemos seus medos.
Compramos o celular.
Não sabemos quem conversa com eles do outro lado da tela.
E isso importa porque os próprios estudos governamentais sobre ataques escolares brasileiros alertam para o papel de comunidades virtuais na disseminação do ódio, na glorificação de ataques anteriores, na radicalização e até no planejamento de novas agressões.
O problema, portanto, não é simplesmente “a internet”.
O problema é uma criança permanecer horas diante de um universo que nenhum adulto acompanha.
É solidão com conexão de alta velocidade.
Baixar a maioridade penal resolveria?
Eu não acredito.
Porque prisão não reconstrói infância.
Podemos e devemos responsabilizar adolescentes por atos infracionais graves.
O Estatuto da Criança e do Adolescente não estabelece impunidade.
Ele prevê medidas socioeducativas que vão desde advertência e prestação de serviços à comunidade até liberdade assistida, semiliberdade e internação, conforme a gravidade e as circunstâncias previstas em lei. A lógica legal é de responsabilização associada a finalidade pedagógica e garantia de direitos.
Internação socioeducativa não é prêmio.
Mas também não deveria ser simplesmente uma miniatura de presídio.
Um adolescente que tentou matar alguém precisa compreender a gravidade do que fez.
Precisa ser responsabilizado.
Mas também precisa ser avaliado.
Assistido.
Acompanhado psicologicamente.
Socialmente investigado.
Educado.
Confrontado com as consequências de sua ação.
E preparado, se possível, para não repetir aquilo.
Porque ele retornará à sociedade.
A pergunta é:
como queremos que ele retorne?
Mais violento?
Mais ressentido?
Mais treinado para a violência?
Ou capaz de compreender a dimensão do dano que produziu?
A Constituição já nos disse de quem é a responsabilidade
Talvez a resposta para a pergunta “de quem é a culpa?” esteja escrita desde 1988.
O artigo 227 da Constituição Federal estabelece que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar, com absoluta prioridade, os direitos de crianças, adolescentes e jovens e protegê-los da negligência, exploração, violência, crueldade e opressão.
Observe a ordem.
Família.
Sociedade.
Estado.
Não há um único culpado.
Há responsabilidades compartilhadas.
A família falha quando abandona, agride, negligencia ou deixa de educar.
A sociedade falha quando naturaliza a violência e transforma tragédia em entretenimento.
A escola falha quando não consegue identificar ou encaminhar sinais graves, mas também falhamos quando exigimos dela funções para as quais não oferecemos profissionais e recursos.
O Estado falha quando saúde, assistência social, educação, Justiça, Conselho Tutelar e segurança pública trabalham como ilhas.
E todos falhamos quando só descobrimos uma criança depois que ela aparece em uma ocorrência policial.
Talvez a violência comece muito antes da faca
Ela pode começar no prato que não chegou.
Na palavra que humilhou.
No pai que desapareceu.
Na mãe que precisou trabalhar até a exaustão.
No abuso escondido dentro da própria casa.
No professor que percebeu alguma coisa, mas tinha quarenta alunos para observar.
Na consulta psicológica que nunca aconteceu.
Na vaga da creche que não existiu.
Na alfabetização precária.
No bullying tratado como brincadeira.
Na violência doméstica presenciada diariamente.
Na ausência de limites.
Na negligência afetiva.
Na tela entregue a uma criança para que ela fique quieta.
Na masculinidade ensinada como incapacidade de chorar.
Na raiva que ninguém ensinou a nomear.
Mas precisamos repetir: nenhuma dessas circunstâncias determina que alguém se torne agressor.
Elas são sinais de vulnerabilidade e fatores que exigem atenção, não sentenças sobre o futuro de uma criança.
Edgar Morin nos ajuda a compreender por que respostas simplistas são tão sedutoras e tão insuficientes: problemas humanos complexos não cabem em explicações únicas.
Não é a família ou a escola.
Não é o celular ou a pobreza.
Não é a saúde mental ou a falta de disciplina.
O problema está nas relações entre essas dimensões.
E talvez seja justamente por isso que seja tão difícil enfrentá-lo.
A criança negligenciada de hoje será o adulto de amanhã
Depois de uma tragédia, queremos uma lei.
Depois de um ataque, queremos uma pena.
Depois de um vídeo chocante, queremos encontrar rapidamente um culpado.
É compreensível.
A indignação exige destino.
Mas talvez prevenção seja justamente fazer alguma coisa antes que exista um vídeo para assistir.
Precisamos discutir educação infantil de qualidade.
Ensino fundamental de qualidade.
Escola em tempo integral onde for possível e necessário.
Psicólogos e assistentes sociais inseridos efetivamente nas redes educacionais.
Fortalecimento dos Conselhos Tutelares.
Integração entre escola, saúde e assistência social.
Combate permanente ao abuso infantil e à violência doméstica.
Educação parental.
Mediação de conflitos.
Prevenção ao bullying.
Educação digital.
Acompanhamento de sinais de radicalização e ameaças.
Planejamento familiar entendido como direito e responsabilidade.
Reconhecimento de paternidade.
Cobrança efetiva das responsabilidades paternas e maternas.
E políticas que permitam que famílias tenham tempo e condições materiais para cuidar.
Porque não existe política séria de proteção à infância construída apenas depois do crime.
Volto àquela sala de aula em Manaus.
Um professor diante da lousa.
Um adolescente atrás dele.
Uma faca.
Entre aquela criança que um dia nasceu e o adolescente que aparece nas imagens existem aproximadamente quinze anos de história que nós ainda não conhecemos.
Não devemos inventá-los.
A investigação dirá o que puder dizer sobre esse caso.
Mas existem milhões de outras histórias acontecendo neste exato momento.
Algumas crianças estão pedindo ajuda gritando.
Outras, ficando agressivas.
Algumas estão deixando de aprender.
Outras se escondem no quarto.
Algumas machucam os outros.
Muitas machucam a si mesmas.
E algumas simplesmente ficam em silêncio.
Quem está ouvindo?
Talvez esta seja a pergunta que deveríamos fazer antes da próxima tragédia.
Porque, quando a violência finalmente atravessa o portão da escola, todos perguntamos:
“Onde estavam os pais?”
Os pais devem responder.
Mas depois precisamos continuar:
Onde estava a escola?
Onde estava a assistência social?
Onde estava a saúde?
Onde estava o Conselho Tutelar?
Onde estava o Estado?
Onde estava a comunidade?
Onde estávamos nós?
Nenhuma criança nasce sabendo odiar.
Nenhuma criança nasce sabendo usar uma faca.
Assim como nenhuma criança nasce sabendo amar, respeitar limites, lidar com frustrações ou reconhecer a humanidade do outro.
Tudo isso precisa ser aprendido.
Por isso, talvez a maior política de segurança pública que um país possa construir comece muito antes da polícia.
Começa na primeira infância.
Começa dentro de casa.
Continua na escola.
Passa pelo posto de saúde.
Pela assistência social.
Pelo Conselho Tutelar.
Pelo Judiciário.
Pela comunidade.
E precisa atravessar toda a infância.
As crianças negligenciadas de hoje serão os adultos de amanhã.
A questão é saber que adultos estamos ajudando a formar.
Se não formos capazes de proteger, educar, responsabilizar, acolher e desenvolver nossas crianças e nossos adolescentes, não poderemos fingir surpresa diante do mundo que eles construirão.
Porque então a pergunta já não será:
“De quem é a culpa?”
A resposta será muito mais difícil de suportar:
a responsabilidade é nossa.



