A distância entre Manaus e São Paulo ultrapassa 2,6 mil quilômetros em linha reta. Para um grupo de escritoras amazonenses, porém, o caminho até um dos principais eventos literários do país também representa outra travessia: fazer a produção escrita por mulheres no Amazonas circular para além das fronteiras regionais e alcançar novos leitores.
Integrantes da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Coordenadoria Amazonas (AJEB-AM) participam da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada entre os dias 4 e 13 de setembro de 2026, no Distrito Anhembi, na capital paulista.
A representação do Amazonas reúne Érica Lima Aguiar, Kátia Colares Ribeiro, Marilândia Gama e Eleonora Edithe Monteiro de Oliveira, além de outras associadas. A escritora Dagmar Lira também foi citada pela presidência da entidade entre as participantes.
Já Arthemisa Gadelha, presidente da AJEB-AM, não estará presencialmente em São Paulo nesta edição, mas acompanhará a participação das integrantes e a divulgação das atividades realizadas durante a Bienal.
A coordenadoria amazonense não fará o lançamento de uma obra institucional própria. A participação, contudo, reúne escritoras com trabalhos individuais, presença em publicações e representação da associação em meio à programação nacional da AJEB.
Para elas, estar na Bienal significa mais do que comparecer a um evento literário. Significa ocupar uma vitrine onde circulam escritores, editoras, leitores e instituições de diferentes partes do Brasil.
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Uma nova viagem para Marilândia
Para Marilândia Gama, a Bienal não é uma experiência inédita.
A escritora esteve na edição de 2024 e agora retorna a São Paulo com uma perspectiva diferente: observar novos caminhos para a própria produção e ampliar o diálogo com escritores de outras regiões.
Entre as obras relacionadas à sua participação está “Mar, Vento, Café e Poesia”, livro de poesias confirmado pela presidente da AJEB-AM.
Marilândia enxerga a viagem como oportunidade para compreender também como a literatura produzida no Amazonas é percebida fora do estado.

“Nós, escritores amazonenses, saímos do nosso estado para apresentar nossa obra, nossa literatura e nossos livros a outros autores, a outras pessoas que lá vão em busca de novos autores”, afirmou.
Para ela, o encontro permite conversar sobre processos de escrita, publicação, editoras e experiências profissionais. Ao mesmo tempo, cria referências para que as autoras avaliem seus próprios caminhos.
“Portas irão se abrir, conhecimentos vão ser ampliados”, destacou.
A expectativa é voltar ao Amazonas não apenas com novos contatos, mas com outras percepções sobre o mercado literário e sobre a própria cultura produzida na região.
Segundo Marilândia, participar novamente do evento representa um novo despertar para “a nossa cultura amazonense”.
“Um grande sonho realizado”
Se para Marilândia a Bienal representa um retorno, para Eleonora Edithe Monteiro de Oliveira a participação carrega o peso de uma realização pessoal.
Eleonora levará “Ondas Pequenas”, publicado pela Editora Sarin Sublime. A atividade informada pela autora está marcada para 9 de setembro, às 19h30, no Anhembi.

A obra é definida pela escritora como uma biografia em narrativa poética e celebra os 90 anos de Ondina Monteiro de Oliveira e José Batista de Oliveira.
Ao ser questionada sobre o significado de apresentar o trabalho em São Paulo, Eleonora sintetizou a experiência em poucas palavras:
“Significa um grande sonho realizado.”
A escritora também acredita que a literatura produzida no Amazonas vem conquistando maior exposição.
“Entendo que está em grande evidência e a expectativa é que se expanda muito mais”, avaliou.
A presença na Bienal coloca esse desejo diante de um público formado por leitores e profissionais de diferentes estados, ampliando as possibilidades de circulação para uma autora que constrói sua trajetória a partir da região amazônica.
Érica representa a coordenadoria em São Paulo
A participação da AJEB-AM também terá caráter institucional.
A 1ª vice-presidente, Érica Lima Aguiar, estará em São Paulo representando a coordenadoria amazonense e a presidente Arthemisa Gadelha.
Érica acompanhará as atividades da AJEB Nacional, suas associadas e as demais coordenadorias presentes no evento.
Segundo a vice-presidente, a programação nacional reunirá representantes de 15 estados e contará com lançamentos, sessões de autógrafos, rodas de conversa, sarau, publicação literária e a premiação do primeiro concurso nacional da entidade.
Para Érica, a presença amazonense é uma forma de reafirmar a finalidade da associação.

“Estar presente é reafirmar o compromisso da AJEB-AM com o protagonismo feminino e com o incentivo à escrita, à criação e à circulação da literatura produzida por mulheres”, afirmou.
Ela também considera a edição de 2026 uma oportunidade para fortalecer os vínculos entre as coordenadorias e preparar uma participação ainda maior do Amazonas nos próximos anos.
“Prestigiar nossas ajebianas é também fortalecer a união entre as coordenadorias e abrir caminhos para que, nas próximas edições, as escritoras amazonenses ocupem esse grande palco com suas próprias obras”, disse.
A atuação nacional da entidade já vinha se aproximando da Bienal. Em maio, o Portal Manaós mostrou que a premiação do I Concurso Literário da AJEB Nacional estava programada justamente para setembro, durante a participação da associação no evento.
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Identidade amazônica na bagagem
Mesmo acompanhando a Bienal à distância, Arthemisa Gadelha vê na presença das associadas uma oportunidade de apresentar uma produção literária que não pode ser dissociada do território onde essas mulheres vivem e escrevem.
Para a presidente da AJEB-AM, participar de um evento nacional permite estabelecer conexões, conhecer outras instituições e aproximar as autoras do Amazonas de escritores e profissionais do setor literário.
Mas há também uma dimensão simbólica.

“Quando nossas escritoras participam da Bienal, elas levam o nome do Amazonas e, sobretudo, levam a Amazônia”, afirmou Arthemisa.
Na avaliação da presidente, a literatura produzida pelas associadas carrega características próprias.
“Temos uma identidade própria, nossas narrativas, nossas vivências e um DNA amazônico presente naquilo que escrevemos e produzimos”, ressaltou.
Essa produção não está restrita a um único gênero. Entre as integrantes da entidade, há autoras dedicadas à poesia, romance, conto, crônica, biografia, pesquisa e outras formas de escrita.
Para Arthemisa, colocar essas mulheres em espaços de circulação nacional também significa reforçar o lugar das amazonenses na produção intelectual brasileira.
A atual gestão da AJEB-AM, liderada por Arthemisa, assumiu o biênio 2026–2028 em abril. A associação também vem ampliando ações locais voltadas à leitura e à produção feminina.
Em agosto, por exemplo, a entidade lançou em Manaus o Clube da Leitura Irmã Marília Menezes, criado para promover encontros periódicos e discussões sobre literatura, com atenção especial à produção intelectual de mulheres.
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Kátia destaca trabalho para ampliar circulação das autoras
Para Kátia Colares Ribeiro, presidente emérita e diretora de Editoração da AJEB-AM, chegar a espaços como a Bienal exige um trabalho que começa dentro do próprio Amazonas.
A escritora destaca que a associação tem atuado para incentivar publicações coletivas e individuais, além de estimular a entrada das associadas em concursos e outros circuitos literários.

“A AJEB-AM tem desempenhado um papel fundamental e ativo para que as nossas associadas tenham seus escritos cada vez mais valorizados e difundidos”, afirmou.
Segundo Kátia, a coordenadoria já idealizou três antologias. Duas delas reuniram escritoras de diferentes partes do país, enquanto uma foi dedicada exclusivamente às integrantes do Amazonas.
Além das publicações, a entidade incentiva as associadas a participarem de concursos literários dentro e fora do Brasil.
Kátia afirma que esse movimento já levou escritoras amazonenses a conquistarem reconhecimento em diferentes espaços.
“Como fruto direto desse apoio contínuo, já celebramos resultados extraordinários, vendo diversas escritoras do nosso estado alcançarem notoriedade e reconhecimento em várias partes do mundo”, destacou.
Para a presidente emérita, portanto, a Bienal integra um processo mais amplo: criar condições para que obras produzidas no Amazonas encontrem novos caminhos de circulação.
Mulheres escrevendo o Amazonas
A participação das integrantes da AJEB-AM evidencia trajetórias diferentes.
Marilândia retorna à Bienal buscando conhecimento, contatos e novas oportunidades. Eleonora leva a realização de apresentar uma obra marcada pela memória familiar. Érica representa institucionalmente a coordenadoria e aposta na articulação entre escritoras de diferentes estados. Kátia observa o resultado de um trabalho voltado à publicação e à circulação das associadas. Arthemisa, por sua vez, vê cada presença como uma forma de levar a identidade amazônica a novos espaços.
O ponto de encontro está justamente aí.
Quando mulheres do Amazonas chegam a um evento nacional com seus livros, experiências e histórias, elas também disputam um espaço historicamente difícil para autores que produzem longe dos grandes centros editoriais.
A Bienal pode durar dez dias. As conexões construídas nela, no entanto, podem permanecer por muito mais tempo.
Para as integrantes da AJEB-AM, o desafio é fazer com que a presença em São Paulo não seja apenas uma passagem pela maior vitrine literária do calendário, mas mais um caminho para que a produção feminina amazonense encontre leitores além das fronteiras do estado.
E, como destaca Arthemisa, permita que a Amazônia seja apresentada ao país também pelas mulheres que a escrevem.


