Provocar jararacas milhares de vezes para descobrir em quais circunstâncias elas mordem parece uma ideia improvável. Foi esse experimento que levou o biólogo brasileiro João Miguel Alves-Nunes e outros cinco pesquisadores a receberem o Ig Nobel de Biologia de 2026. A premiação reconhece trabalhos que despertam o riso e, depois, a reflexão. A cerimônia ocorreu em 3 de setembro, em Zurique, na Suíça.
Por trás da situação curiosa, a equipe procurava compreender um problema de saúde pública: o que faz um encontro entre uma pessoa e uma serpente terminar em uma mordida? A investigação colocou o comportamento defensivo do animal no centro dessa pergunta. O trabalho, entretanto, carrega uma ressalva fundamental: publicado em maio de 2024 na revista Scientific Reports, foi retratado em fevereiro de 2025, antes da premiação, por questões relacionadas à aprovação ética dos experimentos.
O que havia por trás das provocações
Segundo reportagem de Sthephany Oliveira, do Jornal da USP, os testes envolveram 117 jararacas, entre adultas, jovens e recém-nascidas, e mais de 40 mil situações de estímulo. A equipe simulou encontros com humanos, tanto pela aproximação quanto pelo contato físico. Uma bota de segurança era usada para tocar levemente a cabeça, o meio do corpo ou a cauda dos animais.
“Nesse trabalho, fizemos tudo que um pesquisador de serpentes não faz: eu quis que o bicho atacasse a gente”, afirmou Alves-Nunes ao Jornal da USP. Atualmente pesquisador do Instituto de Biociências da universidade, ele relatou à publicação ter sofrido quatro picadas, uma delas com risco de vida.
A proposta científica era investigar a etapa que antecede o envenenamento. Os autores argumentavam que o conhecimento sobre venenos e soros precisava ser acompanhado de pesquisas sobre as circunstâncias que desencadeiam a reação defensiva das serpentes. Para isso, avaliaram fatores como tamanho, sexo, fase de vida, temperatura e horário.
O que os pesquisadores relataram
No artigo posteriormente retratado, a equipe descreveu maior probabilidade de mordida quando o contato ocorria na cabeça, em comparação com o meio do corpo e a cauda. Também relatou diferenças entre fases de vida e interações entre sexo, temperatura e período do dia. Os resultados foram relacionados a dados epidemiológicos de acidentes em São Paulo.
A pergunta, portanto, ia além de verificar se uma cobra reage quando incomodada: buscava identificar quais condições poderiam tornar essa reação mais provável. Contudo, os achados devem ser apresentados com a informação de que o artigo foi retratado, sem tratá-los como conclusões estabelecidas ou recomendações para se aproximar desses animais.
Por que a revista retirou o artigo
A nota publicada pela Scientific Reports em 11 de fevereiro de 2025 explica que surgiram questionamentos sobre os procedimentos com os animais. Segundo os editores, a comissão de ética no uso de animais do Instituto Butantan confirmou que a autorização concedida aos pesquisadores não abrangia serpentes recém-nascidas nem o método de pisar levemente sobre elas.
O documento registra que todos os autores discordaram da retratação. A justificativa editorial não aponta fabricação de dados: o motivo declarado é a ausência de cobertura ética para esses procedimentos. Ainda assim, a premiação não altera a situação da publicação, que permanece identificada como retratada na página da revista.
Ao Jornal da USP, Alves-Nunes disse ter recebido a decisão com surpresa, pois considerava que o trabalho havia passado por aprovação ética.
Consulte o artigo original em PDF (retratado pela revista em fevereiro de 2025).
Um problema que ultrapassa a curiosidade
A dimensão do tema ajuda a explicar o interesse pela pergunta científica. A Organização Mundial da Saúde estima que 5,4 milhões de pessoas sejam mordidas por serpentes anualmente. Entre 1,8 milhão e 2,7 milhões sofrem envenenamento, e aproximadamente 81 mil a 138 mil morrem por ano. Trabalhadores agrícolas e crianças estão entre os grupos mais afetados.
As consequências também refletem desigualdades no acesso ao atendimento. Segundo a OMS, comunidades rurais pobres e regiões com poucos recursos de saúde concentram parte importante do problema. A distância até os serviços, a disponibilidade de soros e a subnotificação dificultam tanto o tratamento quanto o planejamento de medidas de prevenção.
É nesse contexto que o experimento premiado reúne curiosidade científica, interesse público e uma controvérsia ética. O método chamou atenção pelo caráter inusitado; a pergunta envolve a prevenção de acidentes potencialmente fatais; e a retratação exige que a história seja contada com os limites do trabalho claramente expostos.


