A reta final da eleição para o Governo do Amazonas coloca Omar Aziz (PSD) e Professora Maria do Carmo (PL) diante de uma disputa que vai além da tentativa de preservar os votos conquistados no primeiro turno.
A dois dias da votação de domingo, 25 de outubro, três grupos ganham atenção especial: os eleitores que declararam intenção de votar branco ou nulo, aqueles que ainda não decidiram o voto e as mulheres, que formam a maioria do eleitorado amazonense.
O levantamento feito pelo O Convergente considera os resultados oficiais da Justiça Eleitoral, os registros disponíveis no sistema de pesquisas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os levantamentos efetivamente publicados até esta sexta-feira (23).
O que as urnas disseram no primeiro turno
O resultado oficial consolidado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) colocou Omar Aziz e Maria do Carmo no segundo turno.
Omar terminou a primeira votação com 841.846 votos, equivalentes a 40,63% dos votos válidos.
Maria do Carmo recebeu 507.335 votos, ou 24,49% dos votos válidos.
A diferença entre os dois foi de 334.511 votos.
Mas esse placar não é transportado para o segundo turno.
A legislação eleitoral estabelece que a segunda etapa é uma nova votação. Os votos recebidos no primeiro turno não são automaticamente computados novamente e os eleitores podem alterar suas escolhas.
É justamente por isso que os votos recebidos pelos candidatos eliminados, além dos eleitores que votaram branco, nulo ou não compareceram, passam a integrar uma nova disputa política.
Boca de urna antecipou disputa apertada pela segunda vaga
Um dos levantamentos que ajuda a compreender o comportamento do eleitorado no primeiro turno foi a pesquisa de boca de urna da Pontual Pesquisas, registrada na Justiça Eleitoral sob o número AM-03956/2026.
Foram entrevistados 3 mil eleitores no dia 4 de outubro, com margem de erro informada de aproximadamente 1,79 ponto percentual. O registro consta na base de pesquisas eleitorais.
A pesquisa apontou:
Omar Aziz: 40,2%
Roberto Cidade: 23,05%
Maria do Carmo: 23%
Naquele momento, a diferença de apenas 0,05 ponto percentual entre Cidade e Maria indicava empate técnico pela segunda vaga.
Quando todas as urnas foram totalizadas, Maria do Carmo terminou à frente e avançou para o segundo turno.
O resultado oficial mostrou, portanto, algo fundamental para a leitura das pesquisas desta reta final: pesquisa eleitoral não é resultado da eleição. Ela representa uma estimativa estatística do momento em que os entrevistados foram ouvidos.
O que dizem as pesquisas publicadas no segundo turno
Após o primeiro turno, diferentes institutos registraram pesquisas no sistema da Justiça Eleitoral.
Entre os levantamentos efetivamente publicados estão pesquisas de Quaest, PoderData, Pontual, Projeta e Real Time Big Data. Elas possuem períodos de coleta, metodologias e tamanhos de amostra diferentes e, por isso, não devem ser interpretadas como se constituíssem uma única série histórica.
Entre as publicações mais recentes com dados verificáveis está a Real Time Big Data, registrada sob o número AM-03112/2026.
O instituto entrevistou 1.600 eleitores entre os dias 15 e 19 de outubro.
A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança informado é de 95%.
No cenário que considera todos os entrevistados, os números foram:
Omar Aziz: 46%
Maria do Carmo: 41%
Branco/nulo: 11%
Não sabe/não respondeu: 2%
Quando são considerados apenas os votos válidos, o levantamento registrou:
Omar Aziz: 53%
Maria do Carmo: 47%.
A diferença registrada nos votos totais foi, portanto, de cinco pontos percentuais, enquanto 11% dos entrevistados declararam intenção de votar em branco ou nulo.
É nesse dado que está uma das principais questões da reta final.
Branco e nulo não vão para nenhum candidato
O Tribunal Superior Eleitoral é claro: votos em branco e nulos não são considerados votos válidos e não são transferidos para qualquer candidatura. Também não anulam a eleição, independentemente da quantidade.
Para governador, vence quem alcançar a maioria absoluta dos votos válidos — mais da metade dos votos considerados válidos no segundo turno.
Portanto, afirmar que branco ou nulo “vai para quem está na frente” é incorreto.
O impacto ocorre de outra forma. Quando um eleitor vota branco ou nulo, seu voto deixa de integrar a base utilizada para calcular a maioria necessária à vitória.
Imagine, por exemplo, uma eleição com 100 eleitores presentes. Se 20 votarem branco ou nulo, restam 80 votos válidos.
Nesse exemplo, o vencedor precisaria conquistar a maioria desses 80 votos válidos, e não dos 100 eleitores que compareceram.
O eleitor de branco e nulo pode mudar a disputa
É diferente, porém, analisar o eleitor que hoje pretende votar branco ou nulo. Ele ainda pode mudar de opinião até entrar na cabine de votação. É por isso que o percentual de 11% registrado pela Real Time Big Data chama atenção.
Esses eleitores não constituem votos automaticamente disponíveis para qualquer candidato. Não há base estatística para afirmar que migrarão em bloco para Omar ou Maria.
Mas, caso parte deles decida escolher uma das duas candidaturas, esses votos passam a ser válidos e entram diretamente na conta do resultado.
Essa diferença precisa ficar clara:
o voto branco ou nulo não decide diretamente a eleição; o eleitor que muda de branco/nulo para um candidato pode ajudar a alterar o resultado.
Mais de 20% não compareceram no primeiro turno
Há ainda outro contingente numericamente muito maior. De acordo com o TRE-AM, mais de 2,8 milhões de eleitores estavam aptos a votar no primeiro turno e 20,16% não compareceram às urnas.
Isso representa centenas de milhares de eleitores que não participaram da votação de 4 de outubro. A ausência no primeiro turno não impede o voto no segundo.
O TRE-AM esclarece que cada turno é considerado uma eleição independente. Portanto, quem faltou no dia 4 pode comparecer normalmente no próximo domingo, desde que esteja em situação regular para votar.
Politicamente, esse é outro território de disputa para as duas campanhas.
As mulheres são maioria do eleitorado
Outro elemento fundamental para compreender a eleição amazonense é a composição do eleitorado. Os dados estatísticos da Justiça Eleitoral apontam predominância feminina no cadastro eleitoral.
No Amazonas, as mulheres representam aproximadamente 51% do eleitorado, enquanto os homens correspondem a cerca de 49%.
A consulta oficial do perfil do eleitorado é disponibilizada pelo Tribunal Superior Eleitoral por estado, município, gênero, idade e outras características.
Com mais de 2,8 milhões de pessoas aptas a votar no Estado, isso significa que as mulheres constituem o maior segmento eleitoral do Amazonas.
Mas esse dado precisa ser interpretado corretamente. Não existe um “voto feminino” uniforme.
Mulheres têm diferentes rendas, idades, níveis de escolaridade, religiões, profissões, regiões de moradia e posicionamentos políticos. Ainda assim, numericamente, nenhuma campanha pode ignorar esse eleitorado.
Em uma disputa entre apenas dois candidatos, pequenas mudanças de comportamento entre grupos numerosos podem alterar a distribuição dos votos válidos.
Pesquisas registradas para os últimos dias exigem atenção
O sistema de registros eleitorais mostra novos levantamentos com coleta realizada na reta final.
Entre eles estão a pesquisa Veritá, AM-03615/2026, com 1.220 entrevistados e campo de 18 a 22 de outubro, e a Projeta, AM-04125/2026, com 1.200 entrevistados, coleta de 19 a 22 de outubro e margem de erro registrada de 2,8 pontos percentuais. Os registros indicam divulgação liberada a partir de 23 de outubro.
Também existem pesquisas registradas para divulgação no sábado (24).
Entre elas:
Quaest — AM-09902/2026
2.154 entrevistas, com coleta em 23 e 24 de outubro.
AtlasIntel — AM-09640/2026
1.800 entrevistas, com coleta entre 18 e 23 de outubro.
Pontual — AM-09364/2026
2 mil entrevistas, realizadas entre 16 e 22 de outubro.
No caso da Quaest, o próprio registro informa período de campo entre 23 e 24 de outubro, com divulgação prevista para sábado.
É necessário, porém, fazer uma distinção fundamental:
estar registrada no TSE não significa que uma pesquisa já tenha sido divulgada.
O próprio Tribunal Superior Eleitoral informa que o sistema PesqEle reúne os registros das pesquisas, mas a Justiça Eleitoral não realiza controle prévio de seus resultados nem é responsável por sua publicação.
Por isso, uma análise jornalística responsável não deve atribuir percentuais a levantamentos cujo resultado ainda não tenha sido efetivamente tornado público.
Primeiro turno mostrou limite das projeções
A experiência de 4 de outubro serve como referência. A boca de urna da Pontual mostrou Omar com cerca de 40% e registrou empate praticamente absoluto entre Roberto Cidade e Maria do Carmo na disputa pela segunda vaga.
O resultado oficial consolidado pelo TRE-AM posteriormente apontou Omar com 40,63% e Maria com 24,49%, colocando os dois no segundo turno.
Pesquisa e urna, portanto, cumprem funções diferentes. A pesquisa procura medir o comportamento eleitoral dentro de critérios estatísticos. A urna contabiliza o voto efetivamente registrado.
O que realmente está em jogo no domingo
No segundo turno, não há transferência automática de votos. Quem escolheu Roberto Cidade, David Almeida ou qualquer outro candidato no primeiro turno pode votar em Omar, Maria, branco, nulo ou não comparecer. O mesmo vale para quem votou branco, anulou ou se absteve.
Por isso, a eleição de domingo não será uma simples repetição do placar de 4 de outubro. Omar Aziz entra na reta final depois de ter vencido o primeiro turno. Maria do Carmo chega após conquistar a segunda vaga e reduzir a disputa a dois nomes.
As pesquisas publicadas e regularmente registradas mostram Omar numericamente à frente nos levantamentos consultados, mas também revelam um contingente de eleitores que ainda não está incorporado aos votos válidos — entre brancos, nulos e indecisos.
Há ainda centenas de milhares de amazonenses que não compareceram no primeiro turno e poderão votar no segundo. E, no maior segmento demográfico do eleitorado, estão as mulheres.
No domingo, entretanto, nenhuma pesquisa, apoio político ou projeção substituirá a regra determinada pela legislação eleitoral. Será eleito governador do Amazonas quem obtiver a maioria dos votos válidos depositados nas urnas em 25 de outubro.
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